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27 de fevereiro de 2011

Encarando antigos problemas

Falha de Koscielny (e de Szczesny) que culminou no gol deu o título da Carling Cup ao Birmingham invocou fantasmas do passado do Arsenal

O Arsenal de Henry, Vieira e Pires fez história no começo da década passada. Na época, os Gunners se estabeleceram como uma das principais equipes da Europa e ganharam uma boa quantidade de títulos, sendo que o principal foi a conquista da Premier League da temporada 2003-04 de forma invicta – isso tudo praticando um futebol muito vistoso, tornando os comandados de Wenger um dos times mais agradáveis de se assistir.

A substituição dessa geração pela de Fabregas, van Persie e Nasri manteve o futebol vistoso. Porém, havia uma grande crítica a ela: a falta de títulos e uma enorme incapacidade de decidir grandes jogos. O momento atual do Arsenal, entretanto, dava sinais de mudanças no clube, que se mantem a caça do Manchester United na Premier League, sobrevive na disputa contra o Barcelona na Champions League e teria pela frente um inferior Birmingham na final da Carling Cup. Mas a situação pode reverter novamente.

Não vamos desmerecer o Birmingham: a vitória por 2 a 1 em cima dos Gunners e o título foram merecidos. Os Blues conseguiram jogar de igual para igual com o Arsenal durante a maior parte do tempo, tiveram em Foster um goleiro muito confiável e aproveitaram muito bem suas chances. Porém, é inegável que o revés dos londrinos foi decepcionante. Mais do que isso, no entanto, ele reabre antigas feridas, gerando discussões sobre antigos defeitos que persistem em rondar Emirates Stadium.

O maior deles é, obviamente, a extrema dificuldade do Arsenal em ter sucesso em jogos decisivos. E, com a derrota no último domingo, defender o time dessa acusação se torna uma tarefa ainda mais difícil. A derrota para o Birmingham, uma equipe com maiores limitações e menos recursos, prova que há um grave problema enfrentado pelos jogadores da equipe em partidas importantes. Até porque isso não é de hoje, como mostram eliminações recentes para Barcelona, Manchester United e Liverpool na Champions League e a perda da mesma Carling Cup para o Chelsea em 2007.

Há também o problema da defesa. A falha tremenda de Koscielny no gol do título e o equívoco de Djorou no primeiro gol (deixou Zigic livre na área ao esquecer de marca-lo) mostra que este é realmente o setor mais fraco do Arsenal, ainda mais fragilizado com a contusão do belga Vermaelen. Não que o francês seja ruim e que o suíço não tenha evoluído nessa temporada, mas as pretensões dos Gunners realmente sugerem uma contratação impactante para o miolo da zaga há um tempo – até porque a aquisição de Squillaci vem se mostrando um mal negócio.

O erro de Koscielny, no entanto, não foi o único que determinou o segundo gol dos Blues; o do jovem goleiro Szczesny, numa falha de comunicação com o seu zagueiro, também pesou, obviamente. Essa falha veio em péssima hora: o Arsenal, que tem sérios problemas no gol desde que Lehmann não atua em bom nível, parecia ter encontrado no polonês seu homem certo para o gol; porém, errou justo na partida em que tinha tudo para se firmar na posição. O caso aqui, porém, é de muita calma, já que ele demonstrou que tem um enorme potencial para se consagrar na equipe – tanto que vinha sendo um dos melhores debaixo das traves em atividade na Terra da Rainha. Logo, seria inoportuno criticá-lo somente por causa da má tradição dos goleiros recentes dos Gunners, agravada por Almunia, Fabianski e Mannone.

Tudo o que Szczesny precisa no momento é de força e ajuda para superar o momento difícil. O que não é exclusividade dele: isso deverá acontecer com todo o elenco. A vitória em cima do Birmingham, o título que não vem há seis anos e a oportunidade de quebrar os tabus que insistem em seguir o clube pareciam tão certos que o insucesso do domingo pode ter efeitos catastróficos justo numa fase extremamente importante para a equipe. Arsene Wenger terá de ter uma habilidade de recuperar seus jogadores maior do que a de revelar jovens talentos, para que a pressão que virá misturada ao trauma da perda recente não estrague o restante da temporada dos londrinos.

Imagem: The Guardian

27 de janeiro de 2011

Sob pressão


Alex McLeish e Arsène Wenger veem na Copa da Liga Inglesa a grande oportunidade de tirar a pressão que paira sobre suas cabeças

Sem vencer um título de expressão sequer desde a conquista da Copa da Inglaterra em 2005, o trabalho com jovens promessas de Arsène Wenger começou a ser questionado nos últimos tempos, especialmente por não conseguir converter talento em eficiência nas horas mais importantes. Nos duelos com os outros três clubes do Big Four nesta edição da Premier League, os Gunners não tiveram um bom aproveitamento: uma vitória e uma derrota para o Chelsea, uma derrota para o Manchester United e um empate com o Liverpool. Todavia, os três clássicos restantes serão disputados no Emirates e o quadro ainda pode melhorar.

Na Copa da Liga Inglesa, os norte-londrinos utilizaram times mistos e passaram com facilidade por Tottenham, Newcastle, Wigan e tiveram uma relativa dificuldade para eliminar o Ipswich Town nas semi-finais. O adversário do Arsenal na decisão é o Birmingham City, que briga para não cair na Premier League após surpreender a todos na temporada passada, com uma ótima nona colocação. O elenco é limitadíssimo e por alguma razão - que não parece ser financeira -, não consegue reforçar seu plantel, com inúmeros casos de propostas rejeitadas pelos próprios jogadores que interessavam o clube. O ataque é ineficiente - o segundo pior do campeonato inglês, com 22 gols marcados em 21 jogos.

Um título na Carling Cup - conquistado pela última vez pelos Blues em 1963 - é a carta na manga do técnico Alex McLeish para aliviar a tensão da fanática torcida. O clube das West Midlands eliminou Rochdale, Milton Keynes Dons, Brentford, Aston Villa (no clássico local conhecido como Second City's derby) para chegar a semi-final, onde enfrentou o igualmente desesperado West Ham, lanterna do campeonato. Após um 2 a 1 para os Hammers no Boleyn Ground, o Brum reverteu dramaticamente a situação no St. Andrew's, vencendo por 3 a 1 na prorrogação. Coincidência ou não, nenhum dos (raros) três gols dos Blues foi marcado por um atacante - Lee Bowyer, Craig Gardner e Roger Johnson, dois meias e um zagueiro, respectivamente, marcaram os tentos da classificação.

A final será disputada no dia 27 de fevereiro, no lendário Wembley, em Londres.

13 de janeiro de 2011

Muito mais do que uma mudança: um recomeço

David Bentley terá no Birmingham sua (provável) última chance de brilhar

Após meses agonizando com a reserva no Tottenham Hotspur, David Bentley acertou seu empréstimo para o Birmingham City. Revelado nas categorias de base do Arsenal, o inglês de 26 anos busca na cidade de Birmingham uma estabilidade que só foi encontrada no Blackburn Rovers, o qual defendeu 102 vezes e marcou 13 gols.

Apontado como o novo "David Beckham", o ego de Bentley sempre esteve acima de seu rendimento dentro das quatro linhas. Desde muito cedo, foi preparado por seus empresários para se tornar um astro do futebol - tendo inclusive aulas de media training, onde submetia-se a falsas entrevistas - e sempre se achou digno de estar entre os titulares. Brincalhão, poucas vezes se empenhou nos treinamentos, e foi criticado pelos diversos treinadores com os quais trabalhou.

David Platt, hoje assistente técnico de Roberto Mancini no Manchester City e na época (2004) técnico da seleção Sub-21, deu a seguinte declaração: "Eu quero que ele seja bom jogador por representar uma ameaça ao adversário, ao invés de querer ser um bom jogador que só visa seu benefício próprio". Paul Ince, ex-técnico do Blackburn e hoje treinador do Notts County, foi mais longe em uma coluna no The Sun em 2009: "Em sua mente, ele era o próximo David Beckham. Na realidade, ele não tem a atitude ou a capacidade de chegar perto".

No Brum, o meia encontrará o espaço que tanto requisitou para poder brilhar. O meio-campo do Birmingham, pelo menos até o fim da temporada, terá boas opções daqui em diante. Sebastian Larsson, Aleksandar Hleb e David Bentley são os principais destaques do setor, que também conta com os esforçados Craig Gardner e Barry Ferguson e o oportunista Lee Bowyer. Jean Beausejour, James McFadden e Keith Fahey correm por fora na briga pela titularidade. Potencial para reverter o estagnado quadro em que se encontra, Bentley tem de sobra. Resta-nos esperar para saber se este empréstimo marcará o recomeço de sua carreira ou apenas mais uma (e talvez a última) mudança.

15 de dezembro de 2010

De mãos dadas no fundo do poço

Tudo o que Birmingham e Aston Villa tem feito até agora é brigar para sair da parte de baixo da tabela

A cidade de Birmingham é certamente uma das mais importantes da história do heavy metal. Afinal, de lá saíram grandes medalhões do estilo - o Black Sabbath, talvez a banda mais importante do gênero, e o Judas Priest -, além de outras bandas importantes, como o Napalm Death, precursor do grindcore. As soturnas e macabras letras e músicas da banda de Ozzy Osbourne e Toni Iommi, aliás, representam muito bem o atual momento de certos times da gloriosa cidade que atuam na Premier League.

A tabela não mente: Aston Villa e Birmingham não fazem boas campanhas na competição nacional. Após terem tido um bom desempenho na temporada passada (terminaram em 6º e 9º, respectivamente), ambos os clubes namoram a zona de rebaixamento: enquanto o Villa está na 14ª posição e com quatro pontos a mais do que o Wigan, 18º colocado, os Blues estão apenas em 16º e a dois pontos dos Latics. E pela forma atual, terão de melhorar muito se quiserem se livrar dessa incômoda posição.

Antes de tudo, é preciso reconhecer que a briga por boas posições na atual temporada é muito complicada. O fato de dois clubes - mais precisamente Tottenham e Manchester City - terem se fortalecido e estarem brigando de igual para igual com o chamado Big Four (quase reduzido a um Big Three) praticamente monopolizou a briga pelos quatro primeiros lugares. O crescimento de equipes como Bolton e Sunderland dificultou a disputa por vagas na Liga Europa. E a surpreendente resistência dos emergentes West Bromwich e Blackpool torna mais árdua a luta no bloco intermediário.

Porém, os rivais da cidade de Birmingham possuem totais condições de ao menos se localizarem no bloco intermediário. O Aston Villa, mesmo perdendo Milner para os Citizens, mantiveram a boa base dos últimos anos. E o Birmingham, que tinha um time visivelmente limitado, conquistou profundidade dentro de seu elenco com os reforços de Zigic, Beausejour e Hleb. Visto por esse lado, não era de se esperar uma queda tão brusca de ambas as equipes.

É justamente aí que entra a imprevisibilidade. Foi ela que, por exemplo, começou a minar as chances dos Lions na competição e terminou de afundar o clube mais adiante: antes do começo do campeonato, o ótimo Martin O'Neill inesperadamente deixou vago o cargo de técnico do clube; tempos depois, enquanto o Villa fazia uma campanha razoável mesmo sem o norte-irlandês no comando, uma terrível sequência de lesões assolou o elenco do time. O cenário chegou a ser tão desolador e macabro que nem Black Sabbath e bandas por eles influenciadas conseguiriam escrever letras para retratar a dramática e esquisita situação.

Brincadeiras a parte, a verdade é que o mais do que lotado departamento médico do Villa ajuda a prejudicar a campanha da equipe na competição. Se Gerard Houllier tinha suas dificuldades para montar sua formação ideal - que já não são poucas tendo que escalar Heskey ou Carew no ataque -, elas foram extremamente escancaradas a partir do momento em que o treinador se viu sem quase todos os seus meias titulares e reservas, tendo que apelar para jogadores jovens e inexperientes. Isso ajudou o time a ficar quatro jogos sem vencer, conquistando apenas um de doze pontos possíveis até que os Lions batessem o West Brom por 2 a 1 no último sábado.

Não seria exagero dizer que o Birmingham também foi atingido pela imprevisibilidade. Tendo consciência de suas limitações, os Blues foram ao mercado durante o verão. Contrataram muito bem; porém, muito tarde: Hleb, Beausejour, Derbyshire r Jiránek se juntaram a Zigic e Foster já nos últimos dias, se não no último, em que a janela estava aberta, tendo que entrar em sintonia com o clube quando a Premier League já havia começado.

E para tristeza de seus torcedores, além do outrora sólido time não ter se encontrado na competição, os reforços não vingaram. Zigic, por exemplo, entrou em campo em quase todas as partidas, mas marcou apenas duas vezes; e Hleb, um dos destaques do Arsenal anos atrás, quando não está lesionado, está longe de reeditar suas grandes atuações pelos Gunners. O fato do talentoso bielorrusso não ter se reencontrado talvez seja um dos grandes problemas da equipe, que perde a chance de tirar proveito de um jogador que talvez tenha potencial para estar em clubes muito melhores do que o Birmingham. De qualquer maneira, o meia - que está novamente machucado - vai afundando com os Blues até agora, que só conseguiram três vitórias na Premier League e conseguiram até mesmo a proeza de perder para os Wolves na última rodada.

A esperança do Birmingham é se agarrar no passado e tentar repetir o que aconteceu na temporada passada, quando, após um começo titubeante, acumulou uma série de resultados positivos durante o meio do campeonato, o que rendeu uma boa posição final ao time. Porém, tal retrospecto é tudo o que o Aston Villa não precisa: afinal, o clube é conhecido por, nas últimas temporadas, ter uma sequência incrível de resultados negativos no período entre janeiro e março. Se a tendência se confirmar, Houllier terá muito trabalho tentando tirar a equipe de uma antes improvável estadia na zona de rebaixamento.

Imagem: Birmingham Mail

6 de novembro de 2010

A importância do padrão

O escocês Alex McLeish treinou o conterrâneo Owen Coyle no Motherwell em 1997-98. Agora no Bolton, o ex-atacante segue as lições do mestre.

Martin Petrov, free agent até há pouco, teve o direito de definir seu destino no mercado de verão. Com boa reputação na Inglaterra por conta das três temporadas no Manchester City, o búlgaro preferiu a transferência para o Bolton. A decisão suscitou diferentes impressões. Petrov poderia estar em um time melhor. Petrov escolheu o Reebok Stadium apenas porque queria ser protagonista. Petrov, aos 31 anos e sem utilização regular no último deles em Manchester, estava, na verdade, em franca decadência.

Qualquer que seja a menos mentirosa dessas teses, a visão quase consensual era a de que o left winger poderia inspirar seu novo clube a um estilo distante do chamado futebolton. Mesmo assim, não parecia fácil comprar a ideia de que uma equipe já habituada à medíocre e dura luta contra o rebaixamento apresentaria grandes novidades. Hoje, o Bolton é o quinto colocado da Premier League, com 15 pontos. Petrov pode ter acertado. A substituição de Gary Megson por Owen Coyle no comando técnico explica muito. A despeito de sua polêmica decisão de deixar o Turf Moor no meio da temporada passada, o ex-treinador do Burnley, carismático e emocionalmente vinculado ao Bolton, construiu uma espécie de família Coyle no Reebok.

Com Owen, o Bolton é mais agressivo e, especialmente, adquiriu automatismos. A escalação pode até não se repetir, por conta de um ou outro empecilho, mas não há dúvidas sobre o time e o esquema preferenciais dos Trotters: (4-4-2) Jaaskelainen; Steinsson, Knight, Cahill, Robinson; Lee, Muamba, Holden, Petrov; Davies, Elmander. Mesmo o ponto fraco, os laterais, vão bem. Steinsson, mais cedo, superou Bale no excelente triunfo por 4 a 2 sobre o Tottenham. Os wingers Lee e Petrov (ou mesmo o reserva Matthew Taylor, quando necessário) aceleram o jogo com qualidade, e os atacantes Elmander e Kevin Davies participam muito e têm número satisfatório de gols no campeonato. Mais do que pela pontuação, que não salta aos olhos, o Bolton impressiona pela demonstração de força diante dos grandes.

O padrão que já parece garantir a confortável permanência dos Trotters na Premier League - e até abre espaço a objetivos um tanto mais ousados - é similar ao que levantou o Birmingham na temporada passada. O conjunto de Alex McLeish jogava quase sempre da mesma forma: Hart; Carr, Johnson, Dann, Ridgewell; Larsson, Bowyer, Ferguson (Gardner), McFadden; Chucho Benítez, Jerome. A limitação ofensiva era compensada pela firmeza do time, que sofreu apenas 47 gols em 38 jogos (média de 1,24 por jogo). Nesta temporada, Ben Foster foi vazado 14 vezes em 11 partidas (média de 1,27). A retaguarda, dos ótimos Dann e Roger Johnson, manteve-se forte, mas, ao contrário do que se esperava, o ataque continuou marcando um gol por jogo.

No papel, o Birmingham é bem melhor hoje. McLeish tem as opções de Hleb para a meia e Zigic para o ataque. O elenco é mais profundo, e um simples desfalque (como o de McFadden, que retorna só em fevereiro) não é, em tese, suficiente para desmontar o time. Mas as escalações diferentes são. Agora, o treinador escocês não mantém sequer o 4-4-2. Ora isola Jerome, ora isola Zigic. Ou escala os dois. A presença constante e aparentemente injustificada de jogadores limitados, como Keith Fahey e Garry O'Connor, parece anular o ganho de qualidade do Birmingham no último verão. Além de Hleb e Zigic, chegaram ao St Andrew's Foster (para substituir Hart, é bem verdade), Beausejour, Jiranek, Valles e Derbyshire. Com tantas alternativas ofensivas - e sem precisar depender de Chucho, que retornou ao Santos Laguna -, não é aceitável a marca de um gol por partida.

E não se pode sofrer dois do West Ham, que, antes dessa rodada, havia marcado tantos gols na Premier League quanto Malouda ou Kevin Nolan. O empate por 2 a 2 deixou os Blues na 14ª posição, cinco postos abaixo em relação à classificação final na temporada passada. O aproveitamento do Birmingham despencou de 44% em 2009-10, quando começou mal, para 36% em 2010-11. É claro que a amostra desta edição do campeonato ainda é pequena, de 11 jogos. Entretanto, parece evidente que a perda dos automatismos daquele time quase imutável, o mesmo por nove rodadas consecutivas e imbatível por doze (na divisão de elite, a maior sequência da história do clube), tem tudo a ver com a instabilidade.

Em menos de um ano, o Birmingham deixou de ser a sensação da Inglaterra para se preocupar com a queda. O Bolton, por sua vez, foge ao estereótipo do jogo feio - embora ainda use bastante a bola longa - e passa a ser respeitado mesmo pelos grandes, que, no Reebok Stadium, jamais terão facilidade. Você sabe, hoje, qual o time titular do Birmingham? E o do Bolton? O simples exercício ajuda a entender o que tem acontecido aos dois clubes. Como os treinadores têm competência comprovada e os elencos contam com bons recursos, é mais fácil o Birmingham se achar do que o Bolton se perder.

Imagens: Breaking Football News, Telegraph, Sporting Life

25 de janeiro de 2010

Improvável reedição

Alex McLeish, treinador do semestre na Inglaterra, tenta desafiar a lógica

A Copa da Inglaterra chega às oitavas-de-final com contornos peculiares. As precoces eliminações de Liverpool, Manchester United e Arsenal poderiam indicar a possibilidade de a competição reeditar as chocantes semifinais de duas temporadas atrás. A chance de haver surpresas e desequilíbrio nos futuros emparelhamentos é, conforme ensina a história, considerável. Entretanto, os favoritos ainda são Chelsea, Manchester City e Aston Villa. Não apenas por conta da natural superioridade dos conjuntos, mas também em virtude do favorável sorteio do último domingo.

Pensemos em 2007/08. Na ocasião, as quatro melhores equipes da FA Cup foram Barnsley, West Bromwich, Cardiff City e Portsmouth. O Barnsley, por sinal, merece ser tratado como o principal responsável pelo surpreendente cenário. Antes das semifinais, os Tykes eliminaram Liverpool e Chelsea. Sob a batuta de Harry Redknapp, o campeão Portsmouth venceu o Manchester United, em Old Trafford, nas quartas-de-final. O Arsenal fora expulso da competição pelo próprio United com uma goleada por 4 a 0.

O imponderável depende, portanto, de pequenos algozes e precoces confrontos entre os, em tese, concorrentes ao título. Por ora, apenas o primeiro fator entrou em cena nesta temporada. Longe de casa, com consistência defensiva e boas peças ofensivas, Leeds United - líder por aproveitamento da League One, a terceira divisão - e Reading eliminaram, respectivamente, Manchester United e Liverpool. Menos surpreendentemente, o Stoke City e sua inconfundível forma de jogar futebol derrotaram o Arsenal no último fim de semana.

Contudo, nenhum dos três carrascos é favorito para chegar às quartas. O Leeds ainda precisa passar por Tottenham (casa), no replay, e Bolton (fora), nas oitavas. O Reading, na 22ª posição do Championship, recebe o West Bromwich, terceiro colocado. O Stoke visita o Manchester City, para quem perdeu por 2 a 0 na estreia de Roberto Mancini em Eastlands. Outras três equipes da segunda divisão também enfrentarão muitas dificuldades. Cardiff City, Derby County e Crystal Palace têm desafios extremamente complicados contra clubes da Premier League. A contraposição fica por conta do Southampton, que, mesmo na 16ª posição da terceira divisão, deve dar trabalho ao Portsmouth no St. Mary's.

Apesar da desconfortável situação, é preciso destacar o trabalho de Simon Grayson à frente do Leeds United. O treinador atribui solidez à limitada equipe através do 4-4-1-1 e da exploração de seus grandes valores. Sim, o Leeds os tem. Um deles é Jonathan Howson, de 21 anos, produto das categorias de base dos Peacocks, que revelaram recentemente James Milner, Aaron Lennon e Fabian Delph, por exemplo. Howson já é vice-capitão do clube e foi uma das peças fundamentais na vitória contra o Manchester United e no empate diante do Tottenham. O outro é Jermaine Beckford, de 26 anos, artilheiro em escala industrial desde que chegou a Elland Road e extremamente decisivo nas eliminatórias recentes.

Infelizmente, o Leeds deve ser eliminado da FA Cup em breve, e a dupla "acima de média" tem potencial e moral para requisitar transferência para um clube em melhor patamar. Aliás, Jermaine Beckford já o fez. Por outro lado, o provável acesso à segunda divisão e o legado dessa temporada devem ser encarados de maneira muito otimista. Ademais, os Pavões já ignoraram a lógica duas vezes nesta Copa da Inglaterra. Se o fizerem novamente contra Tottenham no Elland e Bolton no Reebok, talvez as bolinhas dos sorteios sejam menos cruéis do que têm sido desde a terceira fase.

Potencial surpresa, de fato, é o Birmingham City. Possivelmente não mais nessa categoria, é bem verdade. A equipe de Alex McLeish não perde há impressionantes 15 jogos por todas as competições e, após um início fraco, ocupa a oitava posição na Premier League. Na FA Cup, os Blues superaram a excelente fase do Everton no Goodison Park: 2 a 1. O sorteio para as oitavas ajudou, e o time enfrenta, fora de casa, o Derby County. Os Rams não devem oferecer resistência à conhecida e insistentemente repetida formação, com Hart; Carr, Johnson, Dann, Ridgewell; Larsson, Ferguson, Bowyer, McFadden; Chucho, Jerome. O time do melhor goleiro inglês pode, apesar da forte tendência à lógica, repetir o Portsmouth de 2008.

Imagem: Telegraph

15 de dezembro de 2009

Mestre do improviso em apuros

O diretor de teatro David Moyes perdeu seus melhores atores do fundo do palco

Antes de a temporada começar, havia expectativas muito distintas para as cidades de Liverpool e Birmingham. O Liverpool, atual vice-campeão inglês, era apontado por muitos como o grande favorito para a conquista desta edição da Premier League. O Everton, que chegou à quinta colocação em 2008/09, tinha boas perspectivas para repetir a campanha. Por outro lado, do segundo maior aglomerado urbano inglês não chegavam visões otimistas. O Birmingham City voltava da divisão de acesso, e o Aston Villa perdia seu organizador: Gareth Barry.

No entanto, a real situação é completamente diferente. A cidade de Liverpool "conquistou" até agora 41 pontos em 32 jogos contra incríveis 59 pontos em 34 partidas de Birmingham. No próximo domingo, o Everton recebe o Birmingham num jogo em que não pode ser considerado favorito. Afinal, o conjunto de Alex McLeish chegou hoje à quinta vitória consecutiva e saltou para a fantástica sexta posição. Além disso, ainda que após empates diante de Tottenham e Chelsea, o momento dos Toffees é terrível, digno de uma postagem dedicada exclusivamente a ele.

Aquele time da temporada passada que fez excelente campanha na Premier League e disputou a final da Copa da Inglaterra não existe mais. O prestigiado treinador David Moyes fez o conjunto funcionar por muito tempo sem nenhum atacante. Com Fellaini e Cahill se revezando à frente em virtude das contusões de Saha e Yakubu, Moyes apostou num autêntico 4-6-0, que, com muito esforço, transformava-se num 4-5-1. O esquema fez da defesa azul uma muralha, e o ataque, de certa forma, conseguia se arrumar à custa da força física dos meias belga e australiano.

David Moyes provava em 2008/09 que sabe lidar com profundas limitações. Neste campeonato, porém, ele se atrapalhou. O Everton é hoje o 15º colocado com vergonhosos 17 pontos em 16 partidas. Na Liga Europa, os Toffees levaram um banho do Benfica na fase de grupos: 7 a 0 no placar agregado. A explicação para a péssima fase passa por números fundamentais: na temporada anterior, o time levou 37 gols em 38 jogos. Nesta, Tim Howard já foi 30 vezes vazado em apenas 16 partidas. Na média, a equipe concede aos adversários o dobro dos gols que costumava sofrer.

Tudo está bem claro. O Everton perdeu Joleon Lescott, seu principal defensor, para o Manchester City. Neste momento, todos os zagueiros centrais do elenco principal estão contundidos. Sem contar com Jagielka, Distin e Yobo, Moyes precisa apelar para combinações indigestas. Diante do Tottenham, a equipe atuou em 70% do tempo com dois laterais-direitos no miolo da zaga: Tony Hibbert (que é fraco até na lateral) e Lucas Neill. Contra o Chelsea, Heitinga foi adaptado na posição e jogou ao lado de Neill.

A solidez caiu por terra, e Moyes teve de abandonar sua mentalidade defensiva, visto que precisava de gols para compensar o peneirão em que se converteu sua zaga. Curiosamente, a equipe conquistou melhores resultados - os dois últimos empates, em jogos difíceis - quando se arriscou mais. Louis Saha já marcou dez gols na Premier League, está em ótima fase e, acompanhado por Jô ou Yakubu, tem conseguido incomodar os adversários.

Mesmo sendo uma espécie de mestre do improviso, um estrategista que sabe contornar falhas no elenco, Moyes não pode fazer Neill ou Hibbert virarem zagueiros centrais competentes. Ele soube superar dificuldades ofensivas, mas as defensivas lhe saem muito caro. Fellaini e Cahill são ótimos trombadores, ganham jogadas no aspecto físico, mas não têm tanto talento para marcar e, pior do que isso, enfrentam dificuldades quando precisam assumir a responsabilidade da criação.

O conjunto se perde com os dois pelo meio e, sem Osman e o eternamente lesionado Arteta, não consegue ser efetivo na distribuição de bolas mais agudas. Como o sistema de marcação está falho, o time entra em colapso. Infelizmente para David Moyes, a solução é abrir o time e tentar superar a constante avalanche de gols dos adversários. O treinador dos Toffees vive um pesadelo por ter de se adaptar a sua nova realidade e adotar filosofia semelhante à de Jair Picerni.

Imagem: Daily Mail