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7 de outubro de 2009

Gillett não tem razão em criticar Rafa

O Liverpool começou mal a temporada 2009/10. O desempenho contestável nos amistosos, a derrota para a Fiorentina na Liga dos Campeões e os reveses na Inglaterra decepcionaram os torcedores dos Reds. O início na Premier League indica a queda de produção do conjunto em relação ao ano anterior: em oito jogos, o Liverpool já perdeu três vezes, para Tottenham, Aston Villa e Chelsea. Nas 38 partidas do campeonato anterior, foram apenas duas derrotas, para Tottenham e Middlesbrough.

A previsível onda de críticas à equipe já começou. Analistas ingleses discutem se o Liverpool ainda está na "corrida pelo título". O lateral John O'Shea, do Manchester United, prefere não excluir o rival da briga. O treinador do Liverpool, Rafa Benítez, pensa do mesmo modo. "Os líderes perderão pontos para os times do bloco intermediário", disse o espanhol ao site oficial da Premier League.

De certa forma, Benítez tem razão. Aston Villa, Everton e Sunderland, por exemplo, sempre serão adversários duros. Por outro lado, a história recente indica que é exatamente o Liverpool o gigante que mais sofre contra esses oponentes. Talvez pensando nisso, o co-proprietário do clube George Gillett culpou o treinador pela má performance da equipe em agosto, setembro e na partida contra o Chelsea.

Gillett e o sócio Tom Hicks têm sido criticados pela postura no mercado de transferências. Por isso, a reação da cúpula do Liverpool, que afirma ter gastado 128 milhões de libras nos últimos 18 meses. A partir dessa constatação, faz sentido jogar nas costas de Benítez a responsabilidade pelo mau início de temporada?

A resposta, ainda que subjetiva, precisa de embasamento. Rafa está na sexta temporada à frente do Liverpool. Em termos de Premier League, a pior foi a primeira delas, 2004/05. À época, os Reds terminaram apenas na quinta posição, atrás do Everton, com 58 pontos. O elenco era claramente limitado. E, mesmo assim, Benítez levou o clube à sua quinta conquista na Liga dos Campeões.

Quando o time voltou a ficar longe do título, em 2007, foi novamente para chegar à decisão do principal torneio europeu. Na temporada passada, o Liverpool esteve muito perto da conquista na Inglaterra, tendo marcado quatro pontos a menos do que o campeão Manchester United. Foram 86 pontos em 38 jogos, um aproveitamento de 75,4%. Índice de campeão, melhor do que em qualquer outra campanha dos Reds no período do jejum de títulos no campeonato nacional (desde 1990).

Esses dados servem para comprovar a capacidade de Rafa, que, há poucos meses, teve seu contrato renovado até 2014. Mas a irracionalidade de Gillett ao criticar o treinador só é confirmada a partir de outra análise. Não adianta dizer que gastou 128 milhões de libras em 18 meses se não o fez de forma criteriosa. Rafa tem culpa por Xabi Alonso ter decidido ir para o Real Madrid? Rafa tem culpa se o melhor atacante do elenco, além de Fernando Torres, é Andriy Voronin? Rafa tem culpa se Alberto Aquilani, contratado para substituir Xabi Alonso, está lesionado?

Os números e o tamanho dos feitos de Benítez mostram que, na "era da Premier League" (das vacas magras para o Liverpool), o espanhol é o melhor treinador do clube. Está acima de Graeme Souness (1991-94), Roy Evans (1994-98) e Gérard Houllier (1998-2004). Rafa contrata espanhóis de talento contestável, é bem verdade. Mas, mesmo assim, consegue fazer a equipe jogar de forma vistosa e eficiente, colocando-a no mesmo patamar de Manchester United, Chelsea e Arsenal, algo inimaginável há poucos anos.

O que está errado, então? O elenco do Liverpool não tem profundidade, e os defensores não estão em boa fase. Como o time se acertou no 4-2-3-1 desde a temporada passada, Rafa quer insistir no esquema. Mas, para que o sistema dê certo, precisa de um time completo e em harmonia. Se Martin Skrtel e Jamie Carragher resolverem voltar aos tempos de solidez, já ajudarão. Dirk Kuyt, que joga aberto pela direita, também pode render muito mais.

Alberto Aquilani precisa recuperar-se rapidamente, pois tem muito mais qualidades do que o brasileiro Lucas para ser o parceiro de Mascherano. O resto é por conta do show de Gerrard e Fernando Torres. E das orações para que ambos mantenham-se saudáveis.

Por outro lado, fica o alerta a Benítez: não é interessante colocar em prática a política do rodízio de jogadores em momentos importantes. Escalar sucessivamente na lateral-esquerda o argentino Emiliano Insúa - deixando Fábio Aurélio no banco - e fazer Benayoun descansar contra o Chelsea foram atitudes equivocadas. Embora sejam ações que não lhe tiram os méritos por tudo o que já fez e pode fazer. E não apagam a convicção de que George Gillett falou bobagem. Técnica e administrativamente.

Imagens: The Guardian e Sky Sports