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10 de agosto de 2010

As duas missões de Ancelotti

O atacante Daniel Sturridge será importante nos dois processos que devem nortear a temporada do Chelsea: a corrida por títulos e a renovação

Pense no suposto time titular do Chelsea e em quais dos onze jogadores podem manter seu status durante os próximos quatro anos. Com certa dose de pessimismo, não deve haver muitos nomes além de Cech, Ivanovic, Essien e Ramires (imaginando o importante papel que Ancelotti provavelmente atribuirá ao brasileiro).

Os novos tempos em Stamford Bridge, de gastos restritos às necessidades imediatas, são agradáveis sob determinado ponto de vista. Afinal, após sete anos sob os cuidados de Roman Abramovich, os Blues já têm aquilo a que o Manchester City ainda não tem acesso: identidade, mentalidade vencedora, um padrão estabelecido. Contudo, um elenco com sete peças-chave que, em janeiro de 2011, terão 30 anos ou mais exige cuidados e um trabalho gradual de renovação.

Assim, a temporada 2010-11 não impõe ao Chelsea apenas a missão de reeditar ou Double ou tentar o primeiro título da Champions. Carlo Ancelotti tem, ainda, a obrigação de começar a utilizar os jovens com frequência. Notadamente, existe muito potencial a ser explorado. O time sub-21 que pode ser formado apresenta boas revelações: Delac; Bruma, Rajkovic, van Aanholt, Bertrand; Cork, Mellis, Woods; Sturridge, Borini, Kakuta.

Todos esses garotos integram ou já integraram seleções de base de seus países. Oito deles jogaram pelo menos uma vez no estágio sub-21. O lateral-direito/zagueiro Jeffrey Bruma acaba de ser convocado por Bert van Marwijk para a seleção holandesa. O zagueiro Slobodan Rajkovic, que esteve emprestado ao PSV e ao Twente nas últimas três temporadas, já defendeu o conjunto principal da Sérvia. Também sérvio, o ótimo meia central Nemanja Matic, de 22 anos, deve se juntar ao processo de renovação.

É interessante, aliás, que haja nomes talhados para utilização imediata na retaguarda. Se, por um lado, o Chelsea tem pelo menos sete defensores com boa reputação internacional, por outro é justamente esse setor que apresenta mais jogadores em decadência. Terry e Ashley Cole, por exemplo, não conseguem se apresentar bem de modo regular. O capitão dos Blues contina capaz de produzir grandes exibições, como na vitória da Inglaterra sobre a Eslovênia, na fase de grupos da Copa do Mundo, mas também pode falhar sucessivamente, como na goleada imposta pelos alemães nas oitavas-de-final.

Ashley, por sua vez, viveu grandes momentos na temporada passada, mas os erros esporádicos (que se converteram em constantes na Community Shield, contra o Manchester United) e os problemas psicológicos, bem sintetizados por algumas de suas declarações, colocam em xeque o valor do lateral-esquerdo no elenco. Se ele se mantiver mal, o reserva Zhirkov pode ser eventualmente escalado, mas não é confiável do ponto de vista defensivo.

A armação da defesa ainda suscita dúvidas. Para este blog, Ivanovic foi o melhor lateral-direito da Premier League 2009-10, mas o retorno de Bosingwa e a fase instável dos zagueiros - técnica de Ricardo Carvalho e física de Alex - podem convencer Ancelotti a escalá-lo ao lado de Terry. Mais à frente, parece interessante que a formação à italiana, implementada na primeira metade da temporada passada, volte à tona.

Com o rápido e técnico Ramires, Carletto ganha uma ótima opção de saída pela direita, o que deixaria o time "simétrico", visto que Malouda, ponta no eventual 4-3-3, foi instrumental no vértice esquerdo do losango durante a temporada passada. A versatilidade de Essien, o melhor jogador da estranha pré-temporada (três derrotas em quatro jogos), permitirá sua escalação à frente dos zagueiros, enquanto Lampard (mesmo aos 32 anos, ele ainda será essencial) pode dar conta da ligação com os atacantes.

Atacantes que podem, sim, ser Drogba e Anelka. Não há incertezas quanto à importância do marfinense, artilheiro da Premier League na temporada passada. No que se refere ao amigo de Raymond Domenech, tudo dependerá de seu desempenho imediato, posto que o francês parece em decadência. Ademais, o crescimento do abusado canhoto Daniel Sturridge deve produzir uma ameaça constante aos titulares e às defesas adversárias, além de uma opção mais imediata para a renovação ofensiva.

Salomon Kalou pode até ser titular quando o time for armado no 4-3-3. De toda maneira, o ex-atacante do Feyenoord ganhou moral com as boas exibições no fim da temporada passada. O francês Kakuta, aquele cuja transferência provocara a já impugnada determinação de que o Chelsea não poderia contratar até 2011, também é boa alternativa, pelo meio ou pelas pontas. De volta do empréstimo ao Blackburn, o argentino Franco di Santo aparentemente larga bem atrás.

Envelhecido por um lado e com algumas ótimas possibilidades de regeneração por outro, o Chelsea tem, por enquanto, um elenco menos farto do que na temporada passada. As saídas de Belletti e Deco empobrecem justamente a faixa que não conta com tantas opções. Os potenciais reservas para o meio-campo são Mikel (com a chegada e o papel de Ramires a serem confirmados), Matic e Benayoun, que cobre o posto e o número 10 deixados por Joe Cole, agora no Liverpool. Mesmo assim, com o ótimo Ancelotti a dividir-se entre as responsabilidades de vencer e renovar, o Chelsea pode repetir o sucesso da temporada passada.

Possível formação titular: Cech; Bosingwa, Ivanovic, Terry, Cole; Essien, Ramires, Malouda, Lampard; Drogba, Anelka.

Bem-vindos ao Liverpool
É o recado da imprensa inglesa a muitos, mas muitos jogadores. Com carências específicas em algumas posições, os Reds motivam especulações de todas as naturezas. É claro que Hodgson pretende reforçar o elenco. Mas será que demonstrou mesmo interesse por Brad Jones, Otamendi, Hangeland, Figueroa, Salcido, Konchesky, Luke Young, Jansen, Ziegler, Drenthe, Gilberto Silva, van der Vaart, Poulsen, Murphy, Defour, Wright-Phillips, Krhin, Duff, Scharner, Endo, Hleb, Gera, Crouch, Remy, Connor Wickham, Okaka Chuka e Trezeguet? Sim, amigos, esses 27 nomes já foram vinculados ao Liverpool em algum momento da pré-temporada. A chegada de Christian Poulsen, da Juventus, é iminente. A lateral esquerda, provavelmente sem Insúa (agora, deve ter sua venda ao Genoa consumada), também precisa de reparos. Mesmo assim, a grande maioria dessas especulações, por ora, é pura cascata. Naturalmente, o número de contratações jamais é equivalente ao de sondagens. Contudo, estão claros o exagero e o achismo na conduta de lançar aos ares as mais diversas e inusitadas possibilidades de transferências.

A decisão de Martin O'Neill
Após quatro anos de excelentes serviços prestados, Martin O'Neill decidiu deixar o Aston Villa. O competente treinador norte-irlandês, por sinal, jamais foi demitido. Ele mesmo escolheu sair dos cinco clubes para os quais trabalhou. Desta vez, a opção parece ter sido motivada pelas possíveis vendas de Milner e Ashley Young, que representariam um déficit de ambição, e pelo evidente desgaste com a cúpula do clube. O'Neill, que já foi vinculado ao Manchester United - como possível substituto de Ferguson daqui a algum tempo - e ao Liverpool (mais um!), terá, se quiser, um bom emprego em breve. Só não deve ser nesta temporada, posto que a decisão de deixar o Villa Park foi tomada tardiamente. Vários treinadores podem ocupar o posto vago. Apesar de relativamente arriscada, a possível aposta em Bob Bradley, da seleção estadunidense, parece ser a melhor delas.

Imagens: Soccerati e Metro

7 de agosto de 2010

Invejável equilíbrio

Ofuscado pela chegada de Chicharito, o zagueiro Chris Smalling também deve causar impacto em Old Trafford

Entre 2006 e 2008, o Manchester United gastou 101 milhões de libras somente com as aquisições de Berbatov, Hargreaves, Carrick, Nani e Anderson. Todos eles despertaram a cobiça de Alex Ferguson quando assumiram papéis importantes em seus clubes ou seleções. Esse perfil de contratações costuma equilibrar as noções de time promissor e equipe talhada ao sucesso imediato. Assim, despejando muito dinheiro, é bem verdade, o interminável manager cuidava do futuro sem se esquecer do presente. No entanto, o fracasso de algumas de suas capturas e os gastos exorbitantes provavelmente o fizeram repensar o método.

Com um elenco repleto de opções, Ferguson sabe que só precisa investir para reparar eventuais defeitos, provenientes de decepções ou perdas. As duas novas peças para esta temporada, Smalling e Hernández, seguem a lógica. As constantes lesões de Ferdinand e Vidic têm obrigado o escocês a escalar Evans (ainda não tão seguro como se previa), Brown ou mesmo De Laet na defesa central de forma mais frequente do que seria aceitável.

Ainda que tenha custado caro (potenciais 14 milhões de libras), o zagueiro Chris Smalling, ex-Fulham, parece representar um bom negócio para resolver o problema. Após passar por um período de testes no Chelsea em 2008, Smalling provou seu valor no Craven Cottage e na seleção sub-21 da Inglaterra. Aos 20 anos, mesmo que não tenha jogado regularmente no Fulham de Hodgson, ele certamente é uma das melhores apostas que Ferguson poderia fazer.

E se o assunto é aposta, Javier "Chicharito" Hernández tem de ser protagonista na conversa. Antes da Copa do Mundo, o United já havia fechado, por sete milhões de libras, o acordo com o Chivas pelo atacante mexicano. Como Ferguson já disse, os olheiros "pouparam vários milhões de libras" para o clube ao observarem e relatarem as grandes exibições de Hernández na distante Guadalajara. Mais do que isso, eles evitaram uma forte concorrência pelo valor de 22 anos.

Por mais que Javier Aguirre tenha tentado esconder o talento de Chicharito ao, incrivelmente, atribuir-lhe o papel de alternativa a Blanco e Guille Franco durante a Copa, seus dois gols na África do Sul seriam suficientes para criar uma ferrenha disputa pelo habilidoso centroavante. Lamentam o Chivas, que não conseguiu um grande negócio, e os rivais do United, que perderam boa chance de fazê-lo. Comemoram Ferguson e Celso Roth.

A versão de 2010-11 do Manchester United é melhor que a de 09-10 não apenas por conta de suas capturas. Os retornos também são importantes. Após o período de empréstimo ao Preston no terceiro quarto da temporada passada e um de estaleiro no último, Danny Welbeck está de volta. Convocado para a seleção sub-21 da Inglaterra, ele pode ser utilizado como left winger ou atacante. Possivelmente, Welbeck é um dos substitutos de Giggs a longo prazo.

Outro nome lembrado por Stuart Pearce foi o de Tom Cleverley. Técnico, ágil e habilidoso, ele está acostumado a atuar na meia central. Seus incríveis 11 gols em 33 partidas durante o empréstimo ao Watford na temporada passada lhe atribuem muitas credenciais. Um dos destaques da pré-temporada mancuniana, o "Iniesta inglês", de 20 anos, já pode, sim, ser bastante utilizado por Ferguson na rotação com Carrick, Fletcher, Scholes, Gibson e Anderson.

Pensando em cada posição, veremos que é difícil contestar a ideia de que o elenco está pronto para ser exigido ao extremo. Ainda assim, é possível identificar pequenos problemas. Por exemplo, Ferguson tem várias opções para a lateral direita, mas nenhuma delas é plenamente confiável. A solução pode ser o desenvolvimento defensivo de Rafael. A versatilidade de Brown, O'Shea e De Laet também pode auxiliar em momentos de desespero.

Ademais, a carência nas asas pós-Cristiano Ronaldo foi amenizada ao longo da temporada passada, por meio da impressionante e repentina evolução de Nani e da ambientação de Valencia a Old Trafford. Com Giggs a ficar mais velho, já está na hora de o treinador escocês estabilizar novos titulares nos setores. À frente, após duas temporadas, Berbatov realmente não entusiasma mais ninguém. Se a adaptação de Chicharito for rápida e Owen se mantiver saudável, a chance de o búlgaro (que pode até deixar o clube, dizem) virar alternativa aos dois não é desprezível.

Em suma, o Manchester United tem à disposição os recursos de que precisa para fazer uma temporada melhor do que a passada. Amanhã, na Community Shield contra o Chelsea, e nas primeiras rodadas da Premier League, o time não terá os contundidos Ferdinand e Anderson. Quanto a Hargreaves, novamente sem data prevista para o retorno, a preocupação é muito maior, uma vez que envolve uma carreira em risco.

Mesmo assim, o segundo clube com mais jogadores lesionados para começar a temporada ("perde" apenas para o Sunderland, com sete peças indisponíveis) deve largar muito bem. Não chega a ser favorito contra o Chelsea, mas é um dos claros candidatos a liderar a liga nas primeiras rodadas. Muito depende dos protagonistas da temporada passada: se Fletcher continuar mandando prender e soltar no meio-campo e Rooney se recuperar da horrorosa jornada na África e voltar a marcar gols em profusão, Ferguson e seus amigos devem disputar títulos em todos os níveis até os últimos dias da temporada.

Possível formação titular: van der Sar; Rafael, Vidic, Ferdinand, Evra; Valencia, Fletcher, Carrick, Nani; Rooney, Berbatov.

Imagem: Telegraph

1 de agosto de 2010

A profundidade pode salvar o Arsenal

Não importa a camisa: em Londres ou Barcelona, Fàbregas será fundamental para as pretensões dos Gunners

As expectativas que cercam o Arsenal para esta temporada não são animadoras. O conjunto é, novamente, muito habilidoso e competente, mas ainda bastante jovem e, especialmente, com vários dos principais jogadores propensos a lesões. A versão 2010-11 dos Gunners, que hoje conquistou a Emirates Cup, é semelhante demais à de 09-10 para que alguém dissemine otimismo por aí. Ainda assim, é justamente uma eventual venda que pode marcar a diferença e permitir um improvável, mas necessário processo de re-construção, que não seria abrupto, mas serviria para corrigir alguns problemas.

Esta talvez não seja uma teoria que arrebanhe muitos adeptos, mas a iminente mudança de Fàbregas para o Barcelona pode ser positiva, apesar da postura de Wenger, contrária ao negócio. O primeiro ponto é que o espanhol quer retornar ao Camp Nou. Manter um jogador insatisfeito, ainda que com conduta irrepreensível, não é uma decisão inteligente. Especialmente porque a transferência dele para o clube catalão parece mera questão de tempo. Além disso, o negócio, stricto sensu, seria bom. Um hipotético montante de 45 milhões de euros é mais do que suficiente para provocar um sorriso após uma captura quase gratuita e sete temporadas de excelentes serviços prestados.

A temporada passada de Fàbregas foi indubitavelmente sensacional. Em apenas 27 jogos na Premier League, foram 15 gols e 15 assistências. Contudo, a extensão das especulações e a obsessão do Barcelona pelo capitão do Arsenal podem levar a negociação a valores ainda mais exorbitantes e, portanto, vantajosos para os londrinos. De todo modo, o modelo centrado em três jogadores de primeira classe (Fàbregas, Arshavin e van Persie, todos amigos do Departamento Médico), complementado por alguns jogadores medianos, outros flops (Rosicky, alguém?) e um tonel de jovens promissores, não parece o mais adequado, dizem-nos os últimos anos.

Com um elenco leve, o Arsenal precisa de profundidade para se prevenir. O problema mais esdrúxulo da temporada passada foi resolvido, é bem verdade. A contratação de Marouane Chamakh, ex-Bordeaux, já será o bastante para Bendtner não ser titular absoluto e evitar a utilização de Arshavin, de 1.73m, como centroavante, conforme aconteceu durante grande parte de 2009-10. Para a defesa, chega o francês Laurent Koscielny, ex-Lorient. O propósito é substituir Gallas, agora free agent. A saída de Campbell, por sua vez, é compensada pela presença de Djourou, que, em forma, deve ser escalado com frequência.

Para o time ganhar mais força, Wenger tenta acelerar o processo de desenvolvimento de seus pupilos. Alguns deles, como Song e Nasri, demonstraram evolução notável na temporada passada. A expectativa é de que cresçam ainda mais, de forma que o camaronês seja, definitivamente, o "dono" da volância e o francês represente uma alternativa confiável a Fàbregas, especialmente se a enfática vontade do treinador for contrariada com a venda do espanhol. Walcott, Denílson e Vela estão no grupo daqueles que praticamente não melhoraram nos últimos anos e terão, provavelmente, a última chance de provarem que podem ser grandes. Há ainda a categoria de Jack Wilshere, Jay Simpson e Emmanuel Frimpong, que devem ter a primeira temporada de utilização constante no Emirates.

Contudo, mesmo se os garotos cumprirem os prognósticos, o time continuará tendo problemas sérios. Almunia, Fabianski e Mannone não são goleiros seguros. Wenger deveria, nesse sentido, tentar tirar Stekelenburg do Ajax ou, melhor ainda, Frey da Fiorentina. No meio, o Arsenal sente falta de um volante experiente, que possa coordenar as ações na saída de bola e o posicionamento defensivo. Para piorar, não há, novamente, um definidor comparável a Adebayor, Rooney, Torres ou Drogba, os dos concorrentes. Se Chamakh corrige uma das graves deficiências do elenco, provavelmente não será a solução definitiva para o ataque. Por essas e outras, a conversão da categoria de Fàbregas em (muito, muito) dinheiro seria importante.

Com ou sem ele, um esquema interessante para os Gunners pode ser o 4-2-1-3. Adotada por Leonardo no Milan 2009-10, a formação permitiu a exploração das excelentes qualidades ofensivas do time, que, de um jeito ou de outro, sempre se defendia mal. Apesar de Vermaelen, a situação do Arsenal é parecida. Com Pirlo avançado e protegido por dois volantes e Pato e Ronaldinho abertos, os rossoneri salvaram uma temporada que parecia fadada ao fracasso. Apenas mais uma hipótese, mais uma sugestão daquelas que fazemos a Wenger há pelo menos cinco temporadas, as do completo jejum de títulos.

Possível formação titular: Almunia; Sagna, Djourou, Vermaelen, Clichy; Song, Diaby; Fàbregas (Nasri); van Persie, Chamakh, Arshavin.

Imagem: ESPN Brasil

26 de julho de 2010

O paradoxo de Levy

Se o Tottenham não perder a timidez no mercado, Gareth Bale, o sucessor de Giggs na seleção, pode ser sacrificado na lateral esquerda

O conjunto do Tottenham que conseguiu a primeira qualificação do clube para o maior torneio continental em 49 anos não é claramente melhor que os dos fracassos recentes. Com elencos equivalentes, a gestão do presidente Daniel Levy, sempre propensa a gastos exorbitantes, atingiu o fundo do poço e o ápice num intervalo de um ano e meio. A falta de traquejo para campeonatos nacionais do ex-treinador do clube Juande Ramos fez os Spurs marcarem ridículos dois pontos nos oito primeiros jogos da Premier League 2008-09. Em 2010, Harry Redknapp alcançou, na mais difícil temporada dos últimos tempos na Inglaterra, o objetivo a que o clube se propõe há pelo menos uma década.

A relação é tão paradoxal quanto a política de contratações. Não exatamente no tocante à adoração por resgastes, como os de Kaboul, Defoe, Crouch e Keane. A questão é que, justamente após a tão esperada ascensão à Champions, o Tottenham está estranhamente tímido no mercado. Por ora, a postura de Daniel Levy sugere o abandono da política que levou figuras da estirpe de Edgar Davids e Dimitar Berbatov a White Hart Lane. Ainda que o atual elenco seja bom e relativamente equilibrado, existem claras carências para um time que vai ser extremamente exigido durante a temporada.

A única aquisição confirmada é a de Sandro, ainda no Internacional. A aposta é ótima, mas não deve ter efeito imediato, uma vez que Huddlestone e Palacios, titulares na última temporada, são jogadores com características similares: fortes, combativos e com recursos técnicos para atacar. Os Lilywhites precisam de mais algumas contratações para reparar falhas e de uma captura ousada, que seria a injeção de ânimo no elenco para uma temporada que se adivinha complicada. São pontos de análise a lateral esquerda, o ataque e, considerando eventuais (ou já certos) problemas físicos, a defesa central.

Hoje, o lateral-esquerdo titular do Tottenham tem de ser Gareth Bale. É um deseperdício de qualidade, dirá você. De certa forma, é mesmo. Rápido, técnico e perito em bater na bola, o galês tem peculiaridades interessantes para jogar como left winger. Contudo, se Bale não fechar a defesa, o fraco camaronês Assou-Ekotto o fará. Por enquanto, sem outro jogador confiável para a posição, a solução é apostar no jovem de 21 anos e reeditar o sistema que deu certo na seleção inglesa durante as eliminatórias para a Copa. Com Gerrard inicialmente escalado pela esquerda mas frequentemente centralizando o jogo, abria-se o corredor para Ashley Cole. Bale e o excelente Modric podem fazer esses papéis em White Hart Lane.

Quanto ao ataque, a volta de Robbie Keane deve mesmo ser definitiva. Espera-se que o período no Celtic tenha sido positivo não apenas para, diante de adversários fracos, o irlandês aumentar sua média de gols, mas também para se refazer mentalmente. Se de fato estiver bem, Keane parece ser a melhor companhia para o artilheiro Defoe. O prêmio de melhor jogador do Barclays New York Challenge é um bom indício. Apesar do decisivo gol contra o Manchester City no fim da temporada passada, Crouch não vive exatamente uma grande fase. Assim como Pavlyuchenko, ainda que tenha alcançado uma sequência interessante nas copas nacionais de 2009-10. O grande incremento, a tal "captura ousada" de que falamos, seria muito bem-vinda nesse setor.

Outra discussão envolve a condição física dos zagueiros. Mais uma vez, Woodgate acompanha seu amigo mancuniano Hargreaves e, com seu antigo problema na virilha, está fora dos planos de Redknapp para a metade inicial da temporada. King, por sua vez, não oferece ao treinador a segurança de que poderá ser utilizado regularme
nte durante todo o ano. Assim, as três opções realmente certas são Dawson, Kaboul e Bassong. Seria suficiente para administrar uma temporada doméstica, mas, na Champions, o Tottenham pode e deve correr atrás de mais um zagueiro.

Em suma, dois fatores vão definir o teor da temporada dos Spurs: as necessárias contratações e o preenchimento do potencial do time. Se Lennon voltar a atuar como em 2009, a equipe já contará com um jogador espetacular, capaz de decidir confrontos amarrados somente com suas investidas pela faixa direita. Outro ponto interessante é o desenvolvimento de jovens. O já consolidado meia Jamie O'Hara, o winger Danny Rose, o atacante Jonathan Obika (um dos destaques do New York Challenge) e o filho pródigo Giovani dos Santos (um dos melhores jogadores jovens da Copa) têm as perspectivas mais interessantes. Nomes como o lateral-direito escocês Alan Hutton, o meia Jermaine Jenas e o winger David Bentley podem ser importantes se enfim retornarem às formas de Rangers, Newcastle e Blackburn, respectivamente.

Possível formação titular: Gomes; Corluka, Dawson, King, Bale; Lennon, Huddlestone, Palacios, Modric; Defoe, Keane.

Imagem: The Sun

23 de julho de 2010

Reparos pela Champions

Após a recuperação de Shay Given, o excelente Joe Hart deve ser reserva no abastado elenco do Manchester City

A repentina compra do Manchester City pelo Abu Dhabi United Group, ao fim da janela de transferências do verão europeu de 2008, criou a impressão de que os gastos da nova força mancuniana seriam completamente descabidos. O emblema dessa ideia foi a contratação de Robinho, jogador de rotação do Real Madrid, por incríveis 32.5 milhões de libras. No entanto, a lógica do negócio com o sonhador atacante não ditou o ritmo das operações seguintes dos Citizens. Embora algumas capturas tenham validade discutível, a verdade é que, a partir da última temporada, o clube se fortaleceu com investimentos criteriosos. Os intermináveis recursos e a política de transferências são inegavelmente semelhantes aos do Chelsea de Roman Abramovich.

Aliás, o clube de Stamford Bridge conquistou a Premier League em duas das três primeiras temporadas da nova gestão. A trajetória recente do Manchester City, por sua vez, nem sequer se aproxima do sucesso londrino nos anos iniciais de Abramovich. E nem poderia. Para ilustrar: qualquer eleição dos jogadores da década em Bridge passaria, necessariamente, por John Terry e Frank Lampard. A dupla já integrava o elenco dos Blues muito antes de o helicóptero de Roman sobrevoar os estádios londrinos, conforme diz a lenda. O Chelsea já era um clube de sucesso antes dos gastos megalomaníacos. Nas sete temporadas que antecederam a chegada do magnata russo, a equipe do oeste de Londres nunca deixou de ocupar um dos seis primeiros postos da Premier League. O City, vale lembrar, estava na segunda divisão em 2001-02.

O processo de redimensionamento dos Sky Blues continuará firme nesta temporada. Gradualmente, ainda que em ritmo acelerado sob certo ponto de vista, o clube agrega ótimos valores técnicos e cria uma nova mentalidade, direcionada a objetivos mais ambiciosos. Na temporada passada, ainda sob a tutela de Mark Hughes, o time promovia um festival ofensivo, mas não conseguia se defender com eficiência. Com Roberto Mancini, veio o equilíbrio, que permitiu aos mancunianos o real desafio por uma vaga na Champions, para a qual eram favoritos a algumas rodadas do fim. Mesmo assim, o fracasso na corrida pela quarta posição não deve ser atribuído a equívocos pontuais.

Apesar das numerosas contratações, alguns problemas ficaram evidentes: a lateral direita, a falta de alternativa (ou mesmo auxílio) a de Jong e a ausência de wingers realmente bons - especialmente antes da chegada de Adam Johnson. Com a missão de realizar esses reparos, Mansour bin Zayed Al Nahyan não economizou. Abaixo, uma análise dos reforços já confirmados e de um possível problema no elenco:

Jerome Boateng, ex-Hamburgo, por 10.5 milhões de libras. Reforço interessantíssimo, o melhor até agora na relação entre o investimento e a potencial contribuição. Boateng é zagueiro central, e a tendência é que, em algum tempo, seja utilizado nessa posição. Contudo, a ausência de um lateral-direito seguro e a versatilidade do alemão (no setor em questão, ele foi um dos melhores da disputa pelo terceiro lugar da Copa) abrem outra possibilidade para a primeira temporada. Se Lescott estiver bem, o irmão de Kevin-Prince pode não ter espaço pelo meio, mas será muito útil na posição de Richards e Zabaleta.

Yaya Touré, ex-Barcelona, por 24 milhões de libras. Apesar do preço inadequado, o ex-reserva de Sergio Busquets também é uma aquisição interessante. Barry esteve mal durante quase toda a temporada e, fora de forma, teve uma Copa tenebrosa. Assim, o único jogador realmente combativo do meio-campo dos Citizens era de Jong. Se evitar as constantes aparições do insano Zabaleta no setor e permitir a Mancini, com segurança, a adoção de um eventual 4-2-3-1, o marfinense terá justificado pelo menos metade dos trocados transferidos ao Barça.

David Silva, ex-Valencia, 25 milhões de libras. Investimento aceitável. Silva ainda tem 24 anos e, portanto, perspectivas interessantes. O espanhol deve oferecer ao time a possibilidade de jogar pelos lados com qualidade e sem remanejamentos. Em grande parte da temporada passada, o left winger do City foi Bellamy. O atacante galês até fez bom papel, mas a presença do habilidoso campeão do mundo representa um ganho importante na posição. Sua versatilidade dá a Mancini o direito de escalá-lo em qualquer setor da meia, mas os bons desempenhos de Tevez pelo meio e do canhoto Adam Johnson pela direita sugerem que Silva deve mesmo incomodar o lateral-direito adversário.

O Caso (expressão já banalizada pelo uso) Robinho. Apesar de algumas atuações notáveis pelo Santos, o atacante não fez o que precisava para alterar seu status. Assim, não há boas opções para o Manchester City. A única forma de disfarçar o fracasso desse investimento seria envolvê-lo numa troca, que representaria, por exemplo, capturar Alexandre Pato por 25 milhões de euros, em vez de 35. De toda forma, isso ainda parece improvável, uma vez que o clube deve lhe atribuir um valor que ninguém está disposto a pagar (ou descontar). Assim, se não quiser prorrogar o inútil empréstimo ao Santos, é possível que os Sky Blues recebam e mantenham no elenco um Robinho desmotivado, com tendência praticamente irreversível ao banco de reservas. Neste caso, ou Mancini faz um trabalho psicológico revolucionário, ou o City espera o melancólico fim do contrato, em 2012.

Roberto Mancini terá a desagradável obrigação de levar o tecnicamente abastado Manchester City à Champions 2011-12. Apesar das evidentes dificuldades impostas pelo alto nível dos concorrentes, os sólidos investimentos durante duas temporadas implicam uma pressão com a qual os antigos membros da Sampdoria (Mancini e seu auxiliar Attilio Lombardo) terão de conviver. Vale lembrar que o clube ainda pode anunciar outras contratações em breve: além da avançada negociação pelo ótimo lateral-esquerdo Aleksandar Kolarov, da Lazio, existe a expectativa de que um meio-campista e um atacante sejam capturados. Potencialmente, o City já tem o terceiro melhor conjunto da Premier League. A partir de agora, muito dependerá da gestão de Mancini.

Possível formação titular: Given; Boateng, Kolo Touré, Lescott, Kolarov; de Jong, Yaya Touré; Johnson, Tevez, Silva; Adebayor.

19 de julho de 2010

A reinvenção do Villa

Martin O'Neill luta para evitar a reedição das últimas temporadas: baixa expectativa, primeiro turno empolgante, derrotas em março e fim decepcionante

Não fossem algumas circunstâncias, a temporada 2009-10 do sexto colocado Aston Villa teria sido extremamente positiva. Os 64 pontos acumulados pelo conjunto de Martin O'Neill superaram as expectativas de agosto passado. A defesa remontada, com as chegadas de Dunne, Collins e Warnock, a transferência de Barry para o Manchester City e a escassez de peças ofensivas não sugeriam que o treinador norte-irlandês conseguiria conduzir a equipe a um real desafio por um posto na Liga dos Campeões. No fim das contas, ele ficou a seis pontos da quarta posição, que, com um pouco mais de profundidade no elenco, poderia ter ficado com o time de Birmingham.

A contratação de Downing foi o estopim para a criatividade de Martin O'Neill. Após algumas rodadas, quando o reforço se recuperou de lesão, o ex-treinador do Celtic promoveu um poderoso revezamento pelas pontas entre o antigo winger do Middlesbrough e o excelente Ashley Young. Os dois foram abertos, sem que se fixassem em um dos lados, no meio-campo mais ousado da temporada passada. O novo capitão Petrov, homem de cofiança de O'Neill desde os tempos de Escócia, foi posicionado na meia central ao lado do deslocado Milner, que se adaptou rapidamente à nova função e foi o principal jogador do Villa no ano. Mesmo sem nenhum grande marcador e com dois wingers incisivos, o 4-4-2 foi mantido, com Carew - ou Heskey - e Agbonlahor à frente.

Incrivelmente, esse Aston Villa teve a grande defesa do campeonato até a 32ª rodada, quando o Chelsea lhes impôs uma pesada goleada por 7 a 1. O vexame em Stamford Bridge se juntou a mais um desastroso mês de março, o dos rotineiros fracassos da gestão O'Neill. Ainda que eliminados na fase preliminar da Liga Europa pelo Rapid Viena, os Lions tiveram de enfrentar uma dura sequência de jogos em virtude das ótimas campanhas nas Copas da Liga e da Inglaterra. O ponto fundamental dessa história é que a trajetória cíclica da equipe nos últimos anos não é apenas coincidência.

Sem tanto dinheiro, o clube não garimpa muitos grandes reforços e, eventualmente, perde jogadores importantes. Mesmo assim, O'Neill reinventa seu sistema e impressiona a maioria dos críticos. Que atire a primeira pedra quem, ao fim do primeiro turno da temporada passada, não colocaria o Aston Villa na lista dos três melhores times do campeonato. No primeiro turno, Chelsea, Manchester United (em Old Trafford) e Liverpool (em Anfield) caíram diante dos Villans. Mesmo os céticos, sejam os nefastos da corrente "a Espanha sempre 'amarela'" ou aqueles que previam o colapso do time, admitiam isso.

O problema é a falta de profundidade. Sem Ashley Young, por exemplo, Martin O'Neill teria de recorrer a um meia central, que pode ser Sidwell, e deslocar Milner a um dos flancos. Se Downing também se lesionasse, o jovem Marc Albrighton seria a única opção para a posição. Na defesa, não há grandes opções, sobretudo no banco. Dunne até surpreendeu muita gente e, em certa medida, fez uma temporada satisfatória. Mesmo assim, a parceria com Collins não é tão segura quanto parece, como sugeriram as últimas rodadas, que levaram o Villa da primeira à quarta posição entre as defesas do campeonato. Os bons desempenhos do defensivo Cuéllar, pela direita, e de Warnock, reserva de Ashley Cole na Copa, pela esquerda, também contribuíram muito para a solidez até a 32ª jornada.

Praticamente sem reservas de boa qualidade, o time e o esquema se desgastam a certa altura, que geralmente coincide com março. O mês impôs à equipe, entre 2006 e 2010, 16 jogos sem vitória. Maldição à parte, será possível mensurar a ambição da cúpula do Aston Villa para 2010-11 através da resistência a eventuais novas investidas por Milner. Ao recusar uma proposta de 20 milhões de libras do Manchester City pelo meia, a diretoria estabelece que o clube não está disposto a perder terreno em troca dos sedutores cheques mancunianos. No entanto, apenas a manutenção do elenco não será suficiente na luta pelo quarto lugar, objetivo ousado, porém acessível se pensarmos nas últimas temporadas. O Villa precisa de peças de reposição para possíveis lesões e, especialmente, de atacantes mais eficazes.

Por ora, sem esses jogadores, parece fundamental que Martin O'Neill reinvente, mais uma vez, seu sistema de jogo. Assim como Milner, Fabian Delph é cria do Leeds United. Após ser preparado pelo norte-irlandês durante um ano, talvez seja o momento de sua promoção ao time titular. No 4-3-3, o meio-campo, sem marcadores inatos, ficaria mais seguro, Young e Downing teriam mais liberdade, e o time conviveria com as limitações de apenas um atacante. Se O'Neill adotar o esquema, o time ficará mais leve e terá, novamente, boas chances de surpreender no primeiro turno. Entretanto, o mês de março e o fim da temporada só serão agradáveis se o clube gastar bastante até 31 de agosto.

Possível formação titular: Friedel; Cuéllar, Dunne, Collins, Warnock; Petrov, Delph, Milner; Ashley Young, Agbonlahor, Downing.

Imagem: The Guardian

17 de julho de 2010

A responsabilidade de Hodgson

Baixo padrão de exigência e experiência em grandes jogos devem facilitar a vida de Milan Jovanovic em seus primeiros meses de Liverpool

Nos próximos dias, as atividades do blog ficam por conta da apresentação dos perfis das sete principais equipes da Premier League para a temporada 2010-11. Os recursos financeiros ou mesmo o trabalho consistente dos clubes em questão criam um abismo prévio entre eles e os outros 13 conjuntos que jogarão a divisão superior do futebol inglês. Ainda que não ignoremos nenhum time, Chelsea, Manchester United, Arsenal, Tottenham, Manchester City, Aston Villa e Liverpool justificam postagens exclusivamente dedicadas a eles. A série começa com o sétimo colocado de 2009-10, o novo clube de Roy Hodgson:

Quando Yossi Benayoun atribuiu a Rafa Benítez a responsabilidade por sua saída do Liverpool, um grande problema da gestão do espanhol veio à tona. Ainda que seja um treinador excepcional, o estudioso comandante se notabilizou, nos últimos anos em Anfield, pelas apostas controversas. Uma delas, diziam em 2007, teria sido o próprio Benayoun. Entretanto, o israelense surpreendeu os mais céticos e teve três temporadas muito positivas em Merseyside. Mesmo assim, segundo o novo jogador do Chelsea, Benítez minava sua confiança. Com Riera, que não foi exatamente um sucesso no clube, a relação teve o mesmo teor. A questão é que Rafa não compensava suas extravagâncias no mercado com um bom ambiente: após seis anos, quase ninguém o aguentava.

Por isso, sua mudança para Milão soa interessante. Após doze anos de comando estrangeiro, o Liverpool volta a ter um treinador britânico. Nesse grupo, não havia muitos nomes melhores do que Roy Hodgson, o maestro da incrível recuperação do Fulham, que tinha sua queda ao Championship anunciada há quatro temporadas. Por outro lado, a característica mais notável do trabalho de Hodgson no Craven Cottage, quando interpretada de modo pessimista, causa choro e ranger de dentes em Anfield: ele se notabilizou por fazer muito com muito pouco. A sétima posição na temporada passada, as incertezas quanto à direção do clube e a opção por Roy implicariam um redimensionamento?

Duas temporadas depois de o time se aproximar efetivamente do primeiro título na Premier League, essa é uma realidade que precisa ser afastada imediatamente. E aqui aparece a grande responsabilidade de Hodgson. Mesmo que o futuro do Liverpool dependa mais dos recursos liberados pela nova cúpula do que de qualquer outra coisa, é o treinador quem vai determinar as indicações, os vetos, a mentalidade do grupo. Nesse sentido, ele parece ter começado bem. Ao conter o ímpeto dos clubes interessados em Gerrard e Torres, o treinador começa a cumprir o mais essencial pré-requisito para pretensões mais ousadas.

A temporada patética não exige revolução. Afinal, os grandes fracassos recentes ficam restritos a ela. Sob novos gestores em todas as vertentes, o Liverpool precisa de reparos e de profundidade. Se Gerrard e Torres seguirem mesmo em Anfield, o clube mantém intocável o status imponente. A partir daí, Hodgson tem de agir de forma cirúrgica. Por exemplo, a venda de Insúa para a Fiorentina deixa o elenco sem laterais-esquerdos. Assim, a negociação pelo bom hondurenho Maynor Figueroa, do Wigan, precisa ser acelerada. Além disso, caso não possa garimpar outro jogador para a posição nas categorias de base (a princípio, não há nenhum claro destaque), o novo manager tem a obrigação de procurar uma alternativa economicamente viável.

Assim, uma etapa importante são as capturas de free agents. Até certo ponto, o Liverpool pode conservar os 10 milhões de libras oriundos das transferências de Benayoun e Insúa se agir habilmente, como na contratação sem custos do left winger Milan Jovanovic, ex-Standard Liège. Este, por sinal, chega para ser a primeira opção para a banda esquerda do meio-campo. Acostumados a Harry Kewell, Sebástian Leto, Albert Riera e Ryan Babel, os torcedores recebem de braços abertos o sérvio, um dos principais nomes de sua seleção nacional no último ciclo. Incisivo, Jovanovic deve marcar muitos gols e representar um apoio ofensivo que permita a Hodgson a disposição do time no 4-4-2 com Gerrard efetivamente no ataque, opção que, embora ignorada, ganhou muitos entusiastas até para a seleção.

O Liverpool precisa de cinco aquisições: um lateral esquerdo, um lateral versátil (sim, Arbeloa faz falta), um winger (Joe Cole é free agent, vale lembrar) e dois atacantes (especula-se Loic Remy, bom jovem francês do Nice). É fundamental que se compreenda que Torres não é uma panaceia, a solução para todos os problemas. Ele se machuca com frequência e precisa de uma cobertura decente, o que não se vê desde a infeliz venda de Robbie Keane. Outro ponto importante é a utilização dos excelentes Pacheco e Nemeth, atacantes que se destacam na base há muito tempo e não foram aproveitados por Benítez. Se Hodgson tiver essa mentalidade e os recursos para executá-la, a tendência é que o conjunto seja equilibrado e retorne à Liga dos Campeões em 2011.

Possível formação titular: Reina; Johnson, Carragher, Skrtel, Figueroa; Kuyt, Mascherano, Aquilani, Jovanovic; Gerrard, Torres.

Atualização: Com a contratação de Joe Cole, Hodgson ganha um meia extremamente habilidoso, porém fisicamente instável. Uma de suas melhores características é a versatilidade, que dará várias opções ao treinador do Liverpool. Cole pode ser um winger tradicional ou um dos três meias - em qualquer posição - de um eventual 4-2-3-1.

Imagem: A Bola