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9 de dezembro de 2010

Não houve injustiça

Para Wayne Rooney, a Copa do Mundo, além de minar suas chances de ser indicado à Bola de Ouro, só serviu para que entrasse em atrito com os torcedores ingleses

Não deixou de ser injusta a escolha dos finalistas a Bola de Ouro, divulgada na última segunda-feira. Nada contra Xavi e Iniesta, que foram muito bem durante o ano com o Barcelona e ainda levaram a Espanha ao inédito título mundial. Também nada contra Messi, que continuou jogando em alto nível, embora não tenha sido sensacional durante a Copa do Mundo, como se esperava. Porém, Sneijder não poderia ter sido esquecido: o meia holandês foi fundamental na fantástica temporada vivida pela Inter de Milão, assim como foi um dos pilares de sua seleção na África do Sul. Outro que poderia ter sido lembrado era Forlan, melhor jogador da Copa, comandante da Celeste em solo africano e consertador das besteiras feitas por Muslera no gol.

Porém, ninguém se lembra de Rooney. Com justiça, no entanto: o ano que teve, com diversos problemas dentro e fora do campo, foi para ser esquecido. Mas é cruel pensar que, até abril, no fatídico jogo contra o Bayern de Munique em que se machucou e viu sua equipe ser eliminada da Champions League, o camisa 10 do Manchester United era um dos favoritos ao prêmio de melhor do mundo.

Até então, sua fase era realmente sensacional. Era o dono do time, ofuscava qualquer jogador que tentasse ser o destaque da equipe e havia marcado tantos gols que, mesmo sem jogar a reta final da temporada, teve o seu recorde de gols na carreira; aliás, só não foi o artilheiro da Premier League porque Drogba marcou impressionantes 29 gols.

Porém, o que se viu depois daí foi um filme de horror. Como quase todos os jogadores do English Team, fez uma péssima Copa: embora tentasse ser voluntarioso, estava completamente fora de ritmo e teve atuações pífias. Na verdade, suas chances de ganhar o prêmio de melhor do mundo acabaram ali: não havia como conseguir tal feito com uma Copa ruim nas costas e vendo outros jogadores sendo mais decisivos na Champions League. E como se não as coisas não pudessem piorar, ainda viu problemas pessoais e uma novela para renovar seu contrato com os Red Devils minarem sua recuperação no começo da atual temporada. Dessa maneira, só seria finalista à Bola de Ouro se pagasse a todos da Fifa.

Rooney tem talento de sobra para reverter esse quadro e, um dia, concorrer ao prêmio dado pela Fifa. Se repetir o que fez na temporada passada - quando quase carregava seu time nas costas -, mas desta vez conquistar títulos, ficará muito perto do feito. Porém, ganhar a Champions League será quase fundamental: em anos em que não há Copa, geralmente o melhor do ano é algum jogador que se destacou na competição européia, como aconteceu com Kaká, Cristiano Ronaldo e Messi recentemente.

Mas para isso, Shrek precisa melhorar seu desempenho em campo. Rooney, embora não venha jogando mal, ainda está longe de reeditar suas grandes atuações do passado recente. Até agora, em dez jogos na temporada, marcou apenas duas vezes; no Manchester United, ainda não voltou a ser o destaque do time, posto que atualmente pertence a Nani. Porém, depois de tantos problemas e contusões, até é compreensível que não volte jogando em alto nível como antes. O que não pode acontecer é se acomodar com essa condição.

Balanço positivo - Pode-se dizer que o desempenho inglês na Champions League, até agora, é muito bom. Todos os times da Terra da Rainha passaram de fase: enquanto o Arsenal ficou em segundo no Grupo H, Chelsea e Manchester United, mesmo sem brilharem, ficaram em primeiro nos seus respectivos grupos, assim como o Tottenham. Um rendimento já melhor do que no ano passado, quando a Inglaterra viu um de seus "filhotes", o Liverpool, cair na fase de grupos.

Até o momento, é impossível relacionar Champions League e Inglaterra sem citar o Tottenham. Os Spurs são a sensação da competição: foram líderes de um grupo que tinha a Inter de Milão, bateram os italianos em White Hart Lane e ainda mostraram a toda Europa quem é Gareth Bale, destaque inicial do torneio, depois do winger atordoar o lado direito da defesa nerazzurra em ambos os confrontos. O time de Harry Redknapp pode até mesmo chegar às quartas-de-final, já que provavelmente terá um adversário mais tranquilo nas oitavas. O que não pode se dizer do Arsenal, que, por ter conseguido a proeza de ser o segundo no grupo mais fácil, provavelmente terá pela frente um dos grandes clubes europeus na próxima fase. Por isso, foi o destaque inglês negativo até aqui.

Imagem: The Guardian

10 de julho de 2010

O mês das distorções

Discretamente, Kevin-Prince Boateng eliminava um concorrente

A seleção Ortodoxo e Moderno da Copa do Mundo tem um teor bem distinto em relação àquele que esperávamos. A confiança em um desempenho digno do conjunto de Fabio Capello anunciava que os melhores dos 117 jogadores de clubes ingleses na África do Sul seriam os próprios ingleses. As exceções, pensávamos, ficariam por conta de futebolistas de classe mundial, como Vidic, Evra, Fernando Torres e Drogba. Contudo, o naufrágio da - novamente - mais promissora Inglaterra das últimas décadas e as tímidas atuações de várias das grandes estrelas da Premier League implicam uma seleção um tanto estranha. Esteja à vontade para discordar destas 11 escolhas, feitas antes da final para evitar falsos entusiasmos e dispostas no 4-2-3-1:

Tim Howard, Estados Unidos, Everton. Embora pudesse ter feito mais contra a Eslovênia, Howard foi um goleiro seguro nos quatro jogos dos ianques. Os pequenos equívocos foram, nesse sentido, mais do que compensados pelas defesas difíceis. Eleito o melhor jogador da partida contra os ingleses, o arqueiro do Everton fez o suficiente para superar, por exemplo, o ganês Richard Kingson e o australiano Mark Schwarzer.

Glen Johnson, Inglaterra, Liverpool. A Copa do ofensivo lateral não foi exatamente um primor, mas agradou mais do que a média de suas atuações na primeira temporada em Anfield. Ainda que não tenha feito muito para evitar a avalanche alemã nas oitavas-de-final, Johnson teve uma primeira fase segura e menos burocrática do que a do precocemente eliminado sérvio Branislav Ivanovic.

Paulo da Silva, Paraguai, Sunderland. Quando John Terry anulou todas as alternativas de ataque da Eslovênia, acreditava-se que o ex-capitão inglês faria uma Copa decente. No entanto, a desastrosa atuação contra a Alemanha abriu uma vaga na defesa desta seleção. Quem merece ocupá-la é Paulo da Silva. Ao lado de Antolín Alcaraz, que vai jogar no Wigan a partir de agosto, o zagueiro paraguaio do Sunderland formou uma das mais sólidas duplas defensivas da Copa. A expectativa é de que ele estenda esse desempenho à próxima temporada para atribuir mais segurança ao falho sistema de marcação dos Black Cats.

John Heitinga, Holanda, Everton. David Moyes deixou sua marca na Copa. Os holandeses Bert van Marwijk e Pim Verbeek recorreram a adaptações propostas pelo escocês: a de Heitinga à defesa central e a do australiano Tim Cahill ao ataque. Criatividade do treinador do Everton à parte, o ex-volante do Ajax, de 1,80m, faz, como zagueiro, uma Copa segura para seus padrões. Pelo menos até as semifinais.

Maynor Figueroa, Honduras, Wigan. Ashley Cole começou razoavalmente e terminou muito mal. Patrice Evra, por sua vez, fez apenas dois jogos e foi um dos protagonistas do colapso psicológico francês. A lateral esquerda sobrou, então, para o hondurenho Figueroa, sacrificado na defesa central durante a Copa. Apesar das fraquezas de sua seleção, o lateral do Wigan se destacou e continua despertando a cobiça de alguns grandes clubes ingleses.

Nigel de Jong, Holanda, Manchester City. Principal peça do sistema de marcação holandês, de Jong foi, durante a temporada passada, o único contraponto positivo ao ofensivo conjunto do Manchester City - assim como na Copa, Barry não foi bem em 2009/10. Suas boas atuações e a falta que fez à seleção holandesa no apertado cotejo contra o Uruguai explicam boa parte do sucesso do time de van Marwijk na Copa e sua presença nesta seleção.

Javier Mascherano, Argentina, Liverpool. Sacrificado no estranho sistema de Diego Maradona, Mascherano merece uma menção honrosa. Apesar de não ter feito o bastante para conter os alemães, o capitão argentino foi o grande responsável, como o único jogador realmente combativo do meio-campo, pelo equilíbrio do time nos quatro primeiros jogos. Se foi privado da companhia de Cambiasso na Copa, o Jefito tem, nesta seleção, um prêmio de consolação: a "ajuda" de Nigel de Jong.

Park Ji-Sung, Coreia do Sul, Manchester United. O capitão sul-coreano certamente deixou a África do Sul com a sensação de que poderia ter levado os Red Devils (não os de Manchester) às semifinais. Após o gol na memorável estreia contra a Grécia, Park registrou seu nome na história como o único jogador asiático a marcar em três Copas consecutivas. Apesar da eliminação nas oitavas-de-final, o meia do United cumpriu as expectativas e foi o líder da melhor campanha da Coreia do Sul fora de casa.

Kevin-Prince Boateng, Gana, Portsmouth. Nascido em Berlin, Boateng jogou em todas as seleções de base da Alemanha. No entanto, foi a opção futebolística pelo país de seu pai que lhe rendeu reputação internacional. Após passagens por Hertha Berlin, Tottenham e Borussia Dortmund, Boateng pode ter encerrado sua curta trajetória no Portsmouth com a polêmica decisão da FA Cup, quando desperdiçou um pênalti e tirou Ballack da Copa. Isso porque suas atuações na África do Sul e o belo gol contra os Estados Unidos o afastam do Fratton Park para a próxima temporada.

Steven Gerrard, Inglaterra, Liverpool. O melhor jogador inglês na Copa fez jus à capitania, que herdou de Terry e Ferdinand. Apesar da discrição na fatídica derrota para os alemães, Gerrard fez bons jogos contra Estados Unidos e Eslovênia e, ao contrário da maior parte dos titulares de Capello, não teve desempenho inferior ao da temporada. Nesta seleção, o líder do Liverpool também é escalado à esquerda.

Dirk Kuyt, Holanda, Liverpool. As atuações discretas (em alguns casos, pífias) de Rooney, Drogba, Fernando Torres e van Persie dão ao empenhado meia-atacante o direito de comandar o ataque deste grupo. Kuyt tem sido taticamente fundamental, versátil e eficiente. Com participação direta em vários gols holandeses, o jogador do Liverpool atrapalha os laterais adversários e já jogou deslocado às duas pontas, dependendo da presença de Robben.

Imagens: The Guardian, Euronews, Telegraph

27 de junho de 2010

Circunstancial, porém lamentável

Como todo jovem inglês, Lampard sonhava em reeditar Geoff Hurst

Ser eliminado nas oitavas-de-final da Copa mais promissora pós-Jules Rimet - e isso não é mero clichê -, pela Alemanha, com goleada e com erro abissal da arbitragem é o maior pesadelo que os ingleses poderiam viver na África do Sul. O primeiro passo para entender o que aconteceu é o estabelecimento de algo muito simples: a goleada - não a eliminação - diante dos alemães foi circunstancial. Não quero tocar no velho debate sobre a exploração de recursos tecnológicos no futebol, uma vez que me parecem óbvias sua viabilidade e sua potencial eficácia. Mas vale dizer que, quando a Inglaterra empatou por 2 a 2 e o gol de Lampard lhe foi tirado, havia duas possibilidades claras: Capello utilizar o evento para enfurecer, no melhor sentido, os jogadores, ou estes sucumbirem definitivamente.

A segunda opção foi estampada na atuação ridícula da equipe na meia-hora final. Sim, a Inglaterra manteve a bola em seus pés durante a maior parte do tempo, mas a postura estabanada e, por vezes, pouco interessada assustou. Após uma série de toques laterais, a Alemanha recuperava a bola com facilidade e partia, com a habitual eficiência na execução de tarefas (e, nesse aspecto, nenhum germânico é melhor do que Thomas Müller), para sempre ameaçar a desastrosa defesa (des)armada por Fabio Capello. Ao fim do jogo, o fato de nenhum inglês ter demonstrado sofrimento com o fracasso também chamou a atenção. Lampard, o menos pior do English Team na partida de hoje, conversava com Schweinsteiger como se estivesse deixando o campo após uma tranquila vitória do Chelsea sobre o Stoke City.

O aspecto físico também foi decisivo. Na jogada do quarto gol alemão, a Hispania de Gareth Barry foi pulverizada pela Red Bull de Özil, que não precisou fazer nada além de correr e controlar a bola, sem resistência, para dar a alegria a Müller. Com Rooney a fazer sua pior partida nos últimos tempos e Capello a ignorar o despedaçado Lennon, são computadas mais duas peças que seriam absolutamente fundamentais a qualquer pretensão de sucesso da Inglaterra.

No fim do cotejo, Capello ratificou sua confusa Copa ao substituir o pendurado Glen Johnson por Wright-Phillips. Daí, surgem algumas perguntas: (1) Qual era a intenção do atrapalhado italiano ao recorrer ao reserva do ignorado Adam Johnson no Manchester City para atuar na lateral-direita, a quatro minutos do fim da tragédia? (2) O que Wright-Phillips, Heskey, Carragher e Warnock faziam na África do Sul? (3) O que Ashley Young, Adam Johnson, Richards e Bent (ou Walcott, Agbonlahor, whoever) fazem na Inglaterra? (4) Foi cogitada a possibilidade de implementação de esquemas alternativos. Se o time estava tão mal nos dois primeiros jogos, por que ele não fez nada para evitar o fracasso?

Não obstante, a Inglaterra fez um jogo razoável contra a Eslovênia, com alguns momentos muito positivos. Diante da Alemanha, os tais momentos positivos ficaram restritos a cinco minutos, quando a equipe marcou, de fato (não de direito), dois gols. Os grandes problemas da fatídica eliminação foram a parca atenção prestada à movimentação alemã e o ridículo posicionamento que permitiu a Klose, Podolski (aquele pessoal que joga a cada quatro anos), Müller e Özil (esse pessoal que deve jogar demais nos próximos dez) fazerem a festa. Não tacharia o trabalho feito nos últimos dois anos de equivocado. Faltou compreender que o planejamento ajuda, mas não garante uma Copa decente. Trabalha-se bem em 24 meses, mas uma sucessão de falhas em 15 dias é suficiente para alimentar o desastre.

Assim, o cansaço e a má fase de alguns jogadores dão razão a Tim Vickery, colunista da BBC no Brasil: "a Copa, para a Inglaterra, chegou com um ano de atraso". Afirmação que, por sua vez, não anula o potencial que esse time tinha para explodir durante o torneio. Por outro lado, os níveis de concentração e gana de alguns jogadores decepcionaram. A única das principais peças que fez jus às expectativas foi o capitão Gerrard, aquele de quem, curiosamente, menos se esperava por conta da fraca temporada. Com ou sem Jorge Larrionda e Mauricio Espinosa, o destino da Inglaterra, com a maior parte dos minutos a que assistimos, seria o mesmo.

Foto: Divulgação

26 de junho de 2010

Sim, é possível

Principal peça inglesa na Copa, Gerrard foi destaque também em Alemanha 1 x 5 Inglaterra, em 2001

Soa um tanto reducionista, mas um simples exercício seria interessante para mensurar o que a Inglaterra pode fazer contra a Alemanha. Pense na formação principal de Joachim Löw. Quantos dos alemães seriam titulares com Fabio Capello, no English Team? Você pode divergir, mas a lógica aponta, no máximo, para Neuer, Lahm, Schweinsteiger e Özil. Ainda assim, o jovem conjunto de Löw, com alguns dos campeões europeus sub-20 de 2009 (o placar da decisão, por sinal, foi 4 a 0 sobre a Inglaterra), fez primeira fase superior à dos ingleses - o que, convenhamos, não exigiu tanta inspiração.

Fato é que o empate contra a Argélia produziu um desequilíbrio das forças do universo. A Inglaterra, que, se primeira colocada do grupo, seria clara favorita para chegar às semifinais, meteu-se em um covil ao lado de Alemanha, Argentina, Espanha e Portugal na corrida por um posto na final. Contudo, a sólida exibição contra a Eslovênia, inspirada pelas óbvias soluções implementadas por Fabio Capello, dão combustível à crença dos ingleses. A morosidade na primeira fase não provocou uma tragédia anunciada. Se repetir, estendendo a todo o jogo, os melhores momentos do triunfo contra os eslovenos, a Inglaterra pode vencer a Alemanha, sim.

Se não escalou Hart, pelo menos Capello sacou Green, que, claramente, não estava minimamente confiante. E existe aquele outro fator, negligenciado por vários treinadores: o desempenho na temporada. Com quatro falhas decisivas, o goleiro do West Ham foi o jogador que mais concedeu gols aos adversários durante a edição 2009/10 da Premier League. A atitude, por ora, deu muito certo: James está seguro. Nas laterais, Johnson melhorou muito e já rende mais do que em qualquer momento da temporada no Liverpool, enquanto Cole demonstra a consistência de sempre. Ambos terão papel fundamental na marcação a Müller e Podolski. Assim como Terry, que, após um jogo sensacional contra a Eslovênia, deve ser suficiente para conter Klose.

No meio, o retorno de Barry não acrescentou tanto por conta de seu parco ritmo de jogo. Mesmo assim, ele vai precisar retormar sua melhor forma contra os alemães e ajudar a dupla de zagueiros na árdua tarefa de acompanhar Özil, que deve jogar entre ele e Terry-Upson (ou, infelizmente, Carragher). Entretanto, a simples presença de Gerrard na esquerda já fez Lampard jogar mais. Ainda que deslocado, o capitão, por sinal, é o melhor jogador inglês na Copa. A herança da faixa lhe roubou a habitual timidez pelo English Team. Ao lado de Ashley Cole, Gerrard será fundamental no duelo, nas duas extremidades do campo, contra Lahm, o capitão e peça mais regular da engrenagem germânica. Os meias ingleses também podem levar vantagem no confronto com os volantes Khedira e Schweinsteiger, que não têm tanta vocação defensiva.

Do outro lado, ao mesmo tempo, a infortuna e o trunfo ingleses. Se estivesse em forma, a velocidade de Lennon seria fundamental para explorar as fraquezas de Badstuber. Entretanto, sua ausência não é motivo para tantas lamentações. Ainda que mais acostumado à faixa central e ao lado esquerdo, Milner foi muito bem como right winger, e sua habilidade e precisão nos cruzamentos compensam o problema. À frente, Defoe deve perder todos os duelos aéreos contra Mertesacker e Friedrich, mas pode vencê-los, por baixo, através da capacidade de antecipação, como no gol diante dos eslovenos. Rooney, por sua vez, é suficientemente forte para brigar com a dupla defensiva alemã.

Não compro o pessimismo disseminado por aí no que se refere à seleção inglesa. Os dois primeiros jogos nada tiveram a ver com o excelente trabalho dos últimos dois anos. Apesar de equívocos na convocação e em escalações, Capello tem capacidade suficiente para perceber as falhas e fazer o time aprimorar a qualidade de seu jogo, mesmo em relação ao triunfo diante da Eslovênia - insistentemente citado neste post. A batalha contra os alemães será complicadíssima, especialmente porque alguns de seus jogadores - Podolski e Klose, notadamente - têm a incrível propriedade de crescer assustadoramente na Copa do Mundo. Mas a Inglaterra pode vencer, sim.

Imagem: The Mirror

12 de junho de 2010

Punido pelas escolhas

Capello prefere a experiência à segurança

A Inglaterra tinha um adversário extremamente familiar. Cinco dos titulares norte-americanos atuaram em clubes ingleses na última temporada. A presença de jogadores de Fulham, Hull City, Everton e Watford dava a sensação de que o conjunto de Capello, cujos atletas jogam no mais alto escalão do país, enfrentava um time médio da Premier League. Apesar da habitual disciplina ianque e dos bons resultados na Copa das Confederações do ano passado, não haveria motivos para a seleção inglesa fazer uma partida tão equilibrada contra os comandados de Bob Bradley. Capello os criou.

O italiano é, seguramente, o maior responsável pela ressurreição inglesa pós-McClaren. Mas é evidente que tem feito escolhas infelizes. A primeira delas foi a não-convocação de Ashley Young, o segundo melhor winger inglês. O peso da ausência de um dos principais jogadores do Aston Villa foi sentido ainda no primeiro tempo de Inglaterra 1 x 1 Estados Unidos. Escalado pelo lado esquerdo por conta da ausência de Barry e do deslocamento de Gerrard ao meio, Milner dava sinais de que a indisposição estomacal havia retornado, atrapalhava-se na marcação de Cherundolo e corria risco de ser expulso. Capello lançou mão de Wright-Phillips, reserva do Manchester City durante a maior parte da temporada.

A formação do meio-campo com Lennon e Wright-Phillips nas pontas já havia sido testada no amistoso contra o Japão. Foi um desastre. Quem jogava à esquerda tinha muitas dificuldades, e o time ficava demasiadamente exposto. Além do ignorado Young, Adam Johnson (excluído na lista definitiva) e até Joe Cole fariam melhor figura. No entanto, uma questão tática indica que a melhor opção seria a escalação de Carrick. Com Barry lesionado, o volante do Manchester United seria fundamental para afastar Gerrard de Lampard, de modo que os meias, de características similares, pudessem jogar à vontade. Com o velho esquema, que fracassa há quase uma década, Lampard simplesmente desapareceu do jogo. A provável volta de Barry e o deslocamento de Gerrard ao lado esquerdo devem melhorar a Inglaterra já contra a Argélia.

Outro problema é a estranha desconfiança em Joe Hart. Com dois goleiros tão propensos a falhas patéticas, é inadmissível que Capello mantenha no banco o mehor goleiro inglês. O fato de ele ter apenas 23 anos não inviabiliza sua escalação. Green é um goleiro de defesas fantásticas, surgiu de forma espetacular no Norwich City, mas erra quase periodicamente - à moda Heurelho Gomes na primeira temporada em White Hart Lane. Hart é seguro e faz defesas com o mesmo grau de dificuldade. O gol de Dempsey foi emblemático. Não para explicar o crônico problema inglês com goleiros, mas para punir Capello por, neste caso, pensar como Dunga e ignorar solenemente o desempenho dos jogadores na temporada e a melhor opção à disposição.

É justamente a esse quadro que pertence a decisão de escalar Heskey, reserva de John Carew no Aston Villa. O ex-atacante do Leicester City não foi exatamente um desastre, uma vez que serviu Gerrard na jogada do gol inglês. Contudo, a finalização dele quando se viu diante de Howard no segundo tempo resume sua temporada. O britânico Martin O'Neill poderia até ficar constrangido ao, sistematicamente, enviá-lo ao banco. Mas não poderia sustentar a campanha do Villa com um atacante tão ineficaz. Defoe é o melhor dos três que disputavam um posto ao lado de Rooney. Crouch, mostraram os amistosos, foi o que produziu a mais interessante combinação com o Shrek. Um esquema com Gerrard mais avançado, como no Liverpool, aproveitaria melhor as qualidades do capitão. Havia alternativas em demasia para aceitarmos a escalação de Heskey sem resistência.

No segundo tempo, com a contusão de King (fora do encontro com a Argélia), Capello escolheu Carragher, de temporada desastrosa no Liverpool. Aos 59 minutos, o zagueiro-lateral poderia (não deveria) ter sido expulso por entrada pesada em Michael Bradley. Cinco minutos após a tensa troca de olhares com Simon, Carragher simplesmente não conseguiu acompanhar Altidore, uma das decepções da temporada da Premier League. O atacante do Hull City obrigou Green a uma defesa quase compensatória. Contra os africanos, veremos se Capello insiste no zagueiro do Liverpool ou resolve apostar em Dawson, que fez temporada mais convincente do que Upson e o próprio Carragher, as outras opções.

Apesar de tantos pontos falhos, a Inglaterra teve boas notícias. Ainda que Rooney tenha mostrado certa dificuldade física durante o jogo, a ótima participação de Lennon é um alento, visto que a velocidade e a eficiência do winger do Tottenham são fundamentais para as pretensões inglesas. Além disso, Gerrard foi o melhor do jogo. Com a faixa de capitão herdada de Terry e Ferdinand, o líder do Liverpool parece ter perdido a habitual timidez na seleção. O autor do gol foi fundamental na cobertura pelo lado esquerdo, organizou o time e chegou à frente de modo eficaz.

Imagem: The Mirror

11 de junho de 2010

Com a palavra, os torcedores

Após algum tempo de folga, o Ortodoxo e Moderno retorna com uma série de reportagens produzida em parceria com meus colegas de Rádio Universitária FM e veiculada durante a semana passada. Aqui, apresentamos as considerações de estrangeiros que vivem em Viçosa (cidade onde moram também os editores deste blog) sobre experiências pessoais e expectativas para a Copa do Mundo. No dia em que a ansiedade pelos jogos é expulsa pelo rolar da Jabulani, você fica com as reportagens, que, evidentemente, foram produzidas com a intenção de atender ao público local, por vezes com perfil divergente daquele dos que visitam este blog. Assim que o intenso ritmo de atividades acadêmicas permitir, voltamos para acompanhar a trajetória da Inglaterra na Copa.

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Estados Unidos:


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