16 de setembro de 2009

Estilos e comportamentos

Nem seria necessário escrever: "vai ter volta, Adebayor!"

Futebol é coisa séria. A frase, óbvia para quem aprecia o esporte, é válida para campos profissionais, semi-profissionais e amadores. Entretanto, o comportamento de pessoas ligadas à modalidade nem sempre vai ao encontro da afirmação. Por exemplo, pensemos na conduta de alguns torcedores brasileiros na partida contra o Chile, realizada em Salvador.

Quando, com um jogador a menos, o Brasil sofreu o empate, o público passou a incentivar os estrangeiros com o grito de "olé" a cada toque de bola. Após os dois gols que decidiram o jogo, porém, os adeptos puseram-se a proclamar: "Adeus, Chile!". Ora, o que significa isso? Os chilenos não foram eliminados de nada, tampouco devem ficar fora da Copa. No máximo, pegariam o voo para Santiago. Ou seja, às vezes somos imediatistas e estamos por fora.

Esse tipo de comportamento alheio ao que está acontecendo no futebol acaba por influenciar as atitudes dos jogadores. Por aqui, muitos deles cavam faltas, ludibriam as arbitragens (que são cúmplices no processo) e agem de forma violenta sem que nada aconteça. Contudo, na Inglaterra a banda toca de forma diferente. Na Premier League (ou mesmo em outros campeonatos), cada movimento é analisado por torcedores e críticos com um nível ferrenho de fiscalização.

Os atentos olhares exigem pelo menos três características dos atletas: honestidade, não-violência e fair play - quase o mesmo que "jogo limpo". Eles não procuram por um Mahatma Gandhi, mas apenas por um jogo mais agradável. Por isso, adeptos e jornalistas chegam a exagerar nas reações a cada lance.

O atacante Eduardo da Silva, do Arsenal, é um exemplo de como as opiniões na Inglaterra são duras e dinâmicas. No início de 2008, o brasileiro naturalizado croata sofreu um grande golpe na carreira e na perna esquerda. O zagueiro Martin Taylor, do Birmingham City, fraturou-lhe a fíbula e produziu uma cena horrorosa. O centroavante, então, ganhou a simpatia de todos os clubes e torcedores no país. No retorno, após uma temporada longe da profissão, comoveu o Emirates Stadium ao marcar diante do Cardiff City.

Todavia, agora sua imagem está manchada. Há três semanas, Eduardo simulou ter sido derrubado dentro da área durante o jogo da volta contra o Celtic, pela quarta fase preliminar da Liga dos Campeões. O árbitro Manuel González apontou para a marca do pênalti, e o croata marcou o gol para os Gunners. Mas está muito claro que nada valeu a pena. Eduardo foi inicialmente punido por dois jogos pela UEFA (que acabou cancelando a sanção após pedido do Arsenal) e, muito pior do que isso, recebe até hoje caudalosas vaias sempre que domina a bola em jogos pela Premier League. O atacante, outrora admirado por conta de uma luta pessoal, passa a ser execrado por jornalistas e torcedores em virtude da malandragem.



A violência é outro ponto muito debatido na Inglaterra. Embora agressões como a de Martin Taylor a Eduardo habitualmente não gerem punições, a forma como o jogador ríspido passa a ser visto pela sociedade do futebol muda completamente. São os casos do próprio Taylor e do lateral-esquerdo/zagueiro austríaco Emanuel Pogatetz. Quanto atuava no Spartak de Moscou, o "Cachorro Louco" (um dos apelidos de Pogatetz) provocou fraturas nas duas pernas do russo Yaroslav Kharitonskiy. Por isso, ele foi afastado do futebol pela federação local por 24 semanas.

Essa figura nada agradável chegou ao Middlesbrough ainda em 2005. Steve McClaren, seu antigo treinador no Boro, rasgou elogios ao austríaco: "ele nunca dá menos de 300% de si nas partidas", afirmou o ex-técnico da seleção inglesa. Mas a opinião pública sobre Pogatetz piorou muito quando, no ano passado, numa partida pela Copa da Liga, ele poderia ter encerrado a carreira do brasileiro Rodrigo Possebon, do Manchester United, conforme você vê no vídeo abaixo. Felizmente, Possebon não teve nenhum osso da perna fraturado.

Contudo, a imensa repercussão do lance o fez ser "temido" por vários jogadores habilidosos da Premier League, entre os quais estava Cristiano Ronaldo. Medos à parte, a Premier League pode "respirar" aliviada por algum tempo. O Middlesbrough de Pogatetz foi rebaixado na temporada passada.



Nem só de malandragem e rispidez vive o futebol inglês, que fique bem claro. As boas ações também ganham muito espaço nos noticiários e nas memórias dos torcedores. Vez ou outra, grandes exemplos de fair play vêm à tona. Por exemplo, qual é o fanático torcedor do Liverpool que não sabe que o maior ídolo do clube nos anos 90, Robbie Fowler, assumiu não ter sofrido pênalti num jogo contra o Arsenal em 1997? Certamente, nenhum.

O atacante foi "obrigado" pelo árbitro a efetuar a cobrança. Desleixado, desperdiçou-a, embora Jason McAteer tenha feito o gol no rebote. Fowler garante que tentou marcar, mas muitos não se convenceram. Talvez por isso, ele seja chamado de "God" pelos torcedores do Liverpool. Isso mesmo: em Anfield Road, Fowler é "Deus". Outros episódios, como o protagonizado pelo italiano Paolo Di Canio, então no West Ham, ficaram muito famosos.

Em 2007, o Leicester City virou exemplo para o mundo ao permitir que o goleiro do Nottingham Forest marcasse um gol numa partida pela Copa da Liga. O lance, cujas circunstâncias são explicadas no vídeo abaixo, teve repercussão suficiente para virar uma nota coberta no brasileiro Jornal da Globo! Com raras exceções, só assim mesmo para assistirmos a demonstrações futebolísticas de gentileza nos telejornais locais.

14 de setembro de 2009

Jogo Rápido – Rodada 5

O confronto entre Adebayor e seu ex-clube, o Arsenal, e a derrota do ex-líder e 100% Tottenham foram os destaques da rodada. Yossi Benayoun foi o nome do fim de semana, marcando três gols na vitória da Liverpool sobre o Burnley (veja os gols no site da ESPN Brasil). A boa notícia da rodada foi a volta de Rosicky ao time do Arsenal após 19 meses parado. Tévez e Robinho fizeram falta apenas para a torcida. O brasileiro ainda ficará um mês fora dos gramados (mais em Globo.com). O líder Chelsea, por sua vez, manteve a campanha perfeita com uma vitória suada sobre o modesto Stoke City. O campeão Manchester United agora é o segundo e segue à caça dos Blues.

No City of Manchester Stadium, os
Sky Blues bateram o Arsenal por 4 a 2 e mantiveram os 100% de aproveitamento. Comandado por Adebayor, o time de Mark Hughes não sentiu as ausências de Robinho e Tévez (que se contundiram jogando pelas suas seleções) e atropelou a equipe do Mestre dos Magos. O time da casa saiu na frente com Micah Richards, de cabeça; van Persie empatou aos 17 do segundo tempo; o reserva Bellamy colocou o City de novo na frente ,e Adebayor ampliou; o quarto dos anfitriões foi de Wright-Phillips. Rosicky – o bom tcheco que estava fora há 19 meses – diminuiu no fim. O mau exemplo ficou por conta de Adebayor, que após o gol provocou a torcida do seu ex-clube quase provocando uma confusão (confira a discussao sobre Adebayor na comunidade do Arsenal do Orkut).

Fora de casa, o líder Chelsea teve um vitória sofrida sobre o Stoke City, de virada. O Stoke saiu na frente com Faye ,aos 32 da primeira etapa. Ainda no primeiro tempo, os Blues empataram, com de gol dele - sempre dele - Drogba. Nos acréscimos da segunda etapa, o questionável Malouda marcou o gol que garantiu a vitória e a liderança do Chelsea. O time de Ancelotti é seguido de perto pelos Manchesters e o Tottenham, todos três
pontos atrás.

O homem da rodada foi, sem dúvida, Yossi Benayoun, do L
iverpool. Com três gols ,o israelense ajudou a equipe de Anfield a garantir a terceira vitória em cinco jogos. O holandês Kuyt marcou o outro do Liverpool, fechando a conta dos 4 a 0 sobre o caçula Burnley. O brasileiro Lucas participou da partida e considerou importante a goleada antes da estréia na Liga dos Campeões.

Manchester e Tottenham fizeram uma boa
partida no White Hart Lane. A equipe da casa saiu na frente com um golaço de bicicleta do artilheiro Defoe. A virada veio com o inacabável Giggs, de falta, e com o elogiado Anderson (confira os elogios no Portal Terra). Scholes ainda foi expulso no segundo tempo, dando esperanças aos Spurs, que foram para cima. Mas o ímpeto do anfitrião foi freado por Rooney após contra-ataque rápido. As duas equipes terão vida dura na próxima rodada: o United enfrenta o rival City, em casa, e o Tottenham pega o líder Chelsea, fora. Mudanças significativas poderão ocorrer na tabela, e os Spurs terão mais uma chance de mostrar que são candidatos ao título.

Enquanto isso, a derrocada do Portsmouth continua. Dessa vez, o
Pompey foi derrotado pelo Bolton, em casa, por 3 a 2 e segue sem vencer, na lanterna da competição. Tudo indica que a equipe de Fratton Park cairá para a segunda divisão. Os gols da partida foram de Cohen, Taylor e Cahill, para os visitantes, e Kaboul e Boateng, descontando para os anfitriões.

O Sunderland, candidato a surpresa, conseguiu boa vitória sobre o Hull City. Com dois de Bent, um de Reid e um de Zayatte os
Black Cats venceram por 4 a 1. Zayatte marcou um gol-contra para os Tigers. Wigan e West Ham fizeram um fraco jogo. Com gol de Rodallega, o Wigan voltou às vitórias. Destaque também na partida para a boa atuação do goleiro da seleção inglesa Robert Green. Dessa vez, o bom atacante Carlton Cole, do West Ham, passou em branco.

O Blackburn conseguiu sua primeira vitória ao bater o Wolverhampton por 3 a 1. A equipe de Ewood Park está na 14º colocação, e os Wolves seguem na 16º. O Aston Villa segue com boa campanha: três vitórias em quatro jogos. Dessa vez os
Villans bateram o Birmingham por 1 a 0. O gol da equipe de Martin O'Neill foi marcado pelo jovem e bom jogador Gabriel Agbonlahor, que segue tendo ótimas atuações na Premier League.

Fechando a rodada, o Everton perdeu fora de casa, de virada, para o Fulham. A equipe de Liverpool saiu na frente com o australiano Tim Cahill. Paul Konchesky empatou aos 12 da segunda etapa, e o experiente Duff – autor do gol-contra que rebaixou o Newcastle – marcou o gol da vitória.

Fotos: Globo.com e The Guardian

11 de setembro de 2009

O funeral de uma polêmica

Steven George Gerrard, MBE, nasceu em Huyton (pertinho de Liverpool), aos 30 de maio de 1980. Em 2007, foi condecorado "Membro do Império Britânico" (por isso, MBE) pela rainha Elizabeth II. O motivo? Gerrard foi o líder da incrível recuperação do Liverpool na final da Liga dos Campeões da Europa de 2005, quando os Reds reverteram uma vantagem de três gols do Milan, heptacampeão continental.

Frank James Lampard Jr. conheceu o mundo aos 20 de junho de 1978, em Romford (pertinho de Londres). Lampard tem uma história curiosa como protagonista. Proveniente da frutífera Academia do West Ham, ele chegou ao Chelsea em 2001. O magnata russo Roman Abramovich assumiu o comando dos Blues em 2003. Com ele, foram a Londres os melhores jogadores do mundo. Depois de 50 anos de jejum, o simpático clube do oeste londrino conquistou um título inglês em 2005. E quem foram os principais nomes da conquista? Lampard e John Terry, na equipe muito antes de Abramovich pensar em sobrevoar o Stamford Bridge.

Este post, ao contrário do que alguns talvez pensem (com certo nível de razão), não pretende comparar os dois melhores médios centrais da Premier League, como fiz há algum tempo em meu blog pessoal. Como sabem os amantes do futebol britânico, esta semana foi muito especial para o English Team. A seleção de Fabio Capello conquistou seu bilhete para a Copa do Mundo de 2010 através de uma enfática vitória por 5 a 1 diante dos outrora algozes croatas. Gerrard e Lampard marcaram, cada um, dois gols.

Sendo assim, o Futebol Inglês: Ortodoxo e Moderno celebra o fim da polêmica que por muito tempo incomodou os treinadores que passaram pela Inglaterra: Lampard e Gerrard podem jogar juntos? Há dois anos, acreditava-se que não. A não-qualificação do English Team ao Euro 2008 parecia enterrar a possibilidade de uma parceria entre Gerrard e Lampard, dois organizadores que jogam com muita intensidade e, através de passes precisos, chutes fortes e muita técnica, lideram suas equipes. Mas, juntos, eles não funcionavam mesmo!

Até que, num dia ensolarado, a Inglaterra se libertou de figuras do nível de Sven-Göran Eriksson e Steve McClaren. A Football Association teve, sim, de abrir os cofres para contratar Fabio Capello. Mas não há dúvidas de que valeu a pena. Afinal, os ingleses têm uma campanha só de vitórias nas eliminatórias europeias para a Copa. Além dos números impressionantes (81,5% de aproveitamento, incluindo amistosos) e do futebol até certo ponto vistoso (ótima análise da era Capello no blog Futebol & Arte), o italiano proporcionou aos ingleses a grande alegria de ver Gerrard e Lampard jogando juntos de forma funcional e brilhante.

Aproveitando o que tem feito Rafael Benítez no Liverpool, Capello costuma deixar, com moderação, Gerrard um pouco mais solto. Lampard também assume função semelhante à que desempenha no Chelsea. Corajoso, o treinador italiano ainda coloca o excelente Gareth Barry, este um pouco mais atrelado a papéis defensivos, no time titular. Para que Gerrard e Lampard joguem juntos, é fundamental a movimentação da equipe pelos flancos. Por isso a importância de ter laterais tão bons - Johnson e Cole - e pontas tão participativos - Lennon e Rooney -, sendo que a joia do Manchester United é o mais dinâmico por cair muito pelos lados e também chegar à área adversária.

Gerrard e Lampard são os personagens desta sexta-feira porque, depois de muito tempo, provaram que, quando lado a lado, não se anulam. Este post também é uma homenagem a Fabio Capello, pois ele foi suficientemente ousado para aplicar na seleção inglesa um dos mais válidos princípios do futebol: não há esquema perfeito. A estratégia ideal deve ser montada de acordo com a disponibilidade de jogadores para cada posição. E, por serem craques, seguramente dois dos quatro melhores médios centrais do mundo, Gerrard e Lampard têm de jogar sempre!

Foto: StevenGerrard.net

9 de setembro de 2009

Um minuto de silêncio

Uma das maiores tragédias da história do futebol teve como vítima o Manchester United. No dia 6 de fevereiro de 1958, o avião que levava a equipe de volta à Inglaterra caiu em Berlim, Alemanha, provocando a morte de oito jogadores da excelente equipe.

Os Red Devils voltavam de Belgrado após uma partida frente ao Estrela Vermelha, válida pela Taça dos Campeões. O empate por 3 a 3 deu a classificação à equipe inglesa, que havia vencido a primeira partida em casa. A equipe comandada por Matt Busby era uma das favoritas ao título daquela temporada e era formada por jovens talentos, apelidados de Buzby Babes.

Após a classificação, a equipe de Manchester foi recebida juntamente com os adversários no Hotel Majestic, em Belgrado, para um banquete de confraternização. O capitão dos Diabos Vermelhos, Roger Byrne, liderou a equipe no canto da canção "We’ll Meet Again" (Voltaremos a nos encontrar), revelando o clima amistoso criado entre as equipes.

O que o capitão não sabia era que o destino não permitiria esse reencontro para ele e alguns de seus colegas de time. Na noite de 6 de fevereiro de 58, a bordo de um modesto BEA Elizabethan G-ALZU movido a hélice, o United partiria em um voo de Belgrado para Manchester, com escala em Berlim. Após a escala em solo alemão, o avião da equipe inglesa tentou alçar voo mesmo com o mau tempo. Sobre Munique, um dos motores do avião perdeu potência, fazendo com que o piloto perdesse o controle e fizesse a aeronave bater em uma casa abandonada e em várias árvores.

Estava desenhado o desastre! Dos 42 passageiros, 21 morreram. Entre as vitimas, 8 jogadores: o capitão (do Manchester e da Seleção Inglesa) Byrne, Geoff Bent, Eddie Colman, Mark Jones, David Pegg, Tommy Taylor e Liam Whelan e o craque da equipe, Duncan Edwards. Morreram ainda o secretário-geral, Walter Crickmer, com dois membros da tripulação, oito jornalistas e mais dois passageiros.

Entre os sobreviventes estavam o treinador Busby (um dos mais feridos no acidente), que ficou 24 anos no comando da equipe, e um jogador especial: Bobby Chalton, um dos maiores atletas ingleses de todos os tempos, artilheiro máximo da história do United e da Seleção da Inglaterra.

Mesmo possuindo várias equipes fortes em sua história, a de 58 tem um lugar especial: um museu em Old Trafford. Lá, podem-se ver diversas homenagens aos craques que perderam a vida defendendo o Manchester United.

13 dias depois da tragédia, 60 mil foram ao Old Trafford assistir ao primeiro jogo após o desastre: com dois sobreviventes em campo os Red Devills bateram o Sheffield Wednesday por 3 a 0, pela FA Cup. Renascia aí uma esquadra campeã. Com força e caráter, Busby e Manchester United foram cicatrizando as feridas e, em 1968, com dois gols de Bobby Charlton, conquistaram Taça dos Campeões Europeus, que, para muitos, chegou com 11 anos de atraso.

Com lições como essa do Manchester United podemos perceber a força e beleza do esporte, que é capaz de dar ao homem uma chance de apagar as tristezas e conquistar suas glórias.

Mais informações em: Wikipédia, Campeões do Futebol, Manchester United Portugal

7 de setembro de 2009

O vendaval do mercado

A crise econômica pode ter freado o ímpeto de algumas equipes. Mas, ao mesmo tempo, obrigou alguns clubes à venda de jogadores importantes. Por isso, o último período de transferências na Inglaterra foi tão movimentado quanto qualquer outro. Como neste final de semana não houve rodada na Premier League em virtude das partidas envolvendo seleções nacionais, o Futebol Inglês: Ortodoxo e Moderno aproveita a segunda-feira para eleger três destaques (positivos e negativos) da janela de contratações de agosto.

Equipe mais fortalecida: Manchester City. Os Sky Blues contrataram todos os que aceitaram a fortuna do investidor Mansour bin Zayed Al Nahyan e desfizeram-se de todos os que inchavam inutilmente o elenco - especialmente na parte ofensiva. O aspecto mais louvável da ação comercial do City foi o enfraquecimento de concorrentes. Arsenal, Everton, Aston Villa e Manchester United brigam com o conjunto de Mark Hughes na parte superior da tabela, correto? Então, os Citizens buscaram suas principais aquisições justamente em seus rivais. Adebayor, Touré (Arsenal), Lescott (Everton), Barry (foto, Aston Villa) e Tévez (Manchester United) agora jogam no City of Manchester Stadium.

A única perda significativa foi a de Daniel Sturridge, atacante inglês muito promissor. Ele recebeu uma proposta do Chelsea, aceitou, e o City foi obrigado a liberá-lo por conta de determinações da legislação inglesa. Um erro, sim. Mas que não apaga todos os acertos do clube no período de transferências. As contratações foram cirúrgicas (apesar de muitas) e estratégicas. A prova é o bom início na Premier League: três jogos, três vitórias. Time-base: Given; Richards, Touré, Lescott, Bridge; Barry, Wright-Phillips, Ireland; Tévez, Adebayor, Robinho.

Equipe mais enfraquecida: Portsmouth. A crise financeira chegou ao investidor francês Alexandre "Sacha" Gaydamak, antigo proprietário do Portsmouth. Endividado, ele teve de vender os principais jogadores, como Peter Crouch (foto) e Glen Johnson. Até que, num belo dia, Sacha resolveu aceitar a proposta de Sulaiman Al Fahim, que acabou por comprar o clube. Entretanto, nem o poderoso empresário do mundo árabe conseguiu montar um elenco forte, até pelo tempo escasso. Ao contrário, ele ainda vendeu o croata Niko Kranjcar, o mais lúcido de seus jogadores, ao Tottenham.

As contratações são muito modestas: Aaron Mokoena (capitão da África do Sul e, agora, também do Portsmouth), Steve Finnan, Tommy Smith, Tal Ben Haim (bem ruim, como sempre digo), Michael Brown e Anthony Vanden Borre (eterna promessa belga do Football Manager). O começo desastroso - quatro derrotas - e as perdas significativas indicam que o Portsmouth será rebaixado.

Time-base: James; Finnan, Kaboul, Ben Haim, Hreidarsson; Vanden Borre, Mokoena, Brown, Smith; Utaka, Piquionne.

Quem pode surpreender: Sunderland. Uma das boas mudanças nos Black Cats foi a chegada do treinador Steve Bruce, que teve ótimos anos no Wigan. Mas também é fato que, embora pouco destacado por grande parte da imprensa, o elenco do Sunderland melhorou muito em relação à última temporada. A única saída de maior impacto foi a de Djibril Cissé, que foi para o Panathinaikos, sendo que ele estava emprestado à equipe na época passada. As contratações, por sua vez, foram ótimas.

O ataque ganha Fraizer Campbell, ex-Manchester United, e o ótimo Darren Bent, que não conseguiu reeditar no Tottenham seus bons dias de Charlton Athletic. O meio-de-campo está muito, mas muito mais forte com o albanês Lorik Cana, que estava no Marseille, e Lee Cattermole (foto), que era comandado por Bruce no Wigan. A defesa também é superavitária em relação a 2008/09. Chegam ao Stadium of Light o excelente Michael Turner, antigo zagueiro do Hull City, o paraguaio Paulo da Silva, ex-Toluca, e o ganês John Mensah, emprestado pelo Lyon. O Sunderland tem, até aqui, duas vitórias e duas derrotas.

Time-base: Gordon; Bardsley, Anton Ferdinand, Turner, Mensah; Malbranque, Cattermole, Cana, Richardson; Kenwyne Jones, Bent.

E o Big Four (Liverpool, Man Utd, Arsenal e Chelsea)? Acredite: o único que não piorou seu elenco foi o Chelsea, que contratou Zhirkov e Sturridge e não teve perdas importantes. O Manchester United, mesmo com Owen, Valencia e Obertan, piora sem Cristiano Ronaldo e Tévez. Assim como o Arsenal, sem Touré e Adebayor, embora o conjunto tenha começado a temporada com o mais agradável futebol do país.

O Liverpool, por sua vez, não tem mais Xabi Alonso. O italiano Alberto Aquilani é bom substituto, mas tem características distintas, talvez não tão essenciais aos Reds quanto as de Xabi. O grande mérito de Rafa Benítez no mercado foi o acerto com Glen Johnson. Mas ainda é arriscado afirmar que a equipe não cai em relação à temporada passada.

Imagens: Zimbio, Team Talk, The Northern Echo

4 de setembro de 2009

O mestre dos magos

Francês de Strasbourg, Arsène Wenger foi um jogador de futebol apenas modesto. Atuou em equipes de pouca expressão no futebol francês, como o ASPV Strasbourg, por exemplo.

Foi como técnico de futebol que Wenger ganhou fama e respeito no mundo esportivo. No início da carreira como treinador, dirigiu Nancy e Mônaco ainda em solo francês, conquistando pela equipe do principado seu primeiro título: o Campeonato Francês da temporada 1987/88.

Já no extremo oriente, mais precisamente no Japão, ganhou prestígio e a alcunha de intelectual do futebol. Após duas conquistas com o Nagoya Grampus Eight em 1996, se transfere para o Arsenal, onde alcança o auge de sua carreira.

Na equipe da capital inglesa, Arsène implantou um jogo baseado no 4-4-2 ofensivo e sempre envolvente. Com uma estratégia de investir no lado mental de seus comandados, montou equipes fortes e capazes de devolver aos Gunners o orgulho e os títulos.

Arsène Wenger tem como característica não investir em contratações de jogadores caros e já consagrados. Assim como o velhinho simpático da famosa série estadunidense Caverna do Dragão, o “Mestre dos magos francês” opta pela contratação e lapidação de jovens talentos, formando seus próprios “craques heróis”. Possui hoje um elenco muito jovem, com revelações como Walcott (20 anos), Ramsey (18) e Wilshere (17). Até mesmo sua principal estrela, Cesc Fàbregas, é jovem, apenas 22 anos. Recentemente, Wenger surpreendeu a todos com a contratação da estrela russa Andrey Arshavin, então com 27 anos, praticamente um “ancião” para os padrões do treinador francês.

Conhecido por ser um o treinador cavalheiro, recebeu em 1998 o prêmio fair-play, contrastante com seu comportamento na última rodada da Premier League, em que foi expulso da partida e ainda acusou o Manchester United de praticar um “antifutebol”, abusando de faltas e encenações.

Com a renovação do seu contrato com Arsenal até o verão de 2011, se tornará o técnico com maior tempo no comando dos Gunners, marcando de vez seu nome na história do clube londrino.

Por tudo isso, Arsène Wenger é hoje uma unanimidade na lista dos maiores treinadores do mundo!

Fotos: Wordpress, Premier League

2 de setembro de 2009

A inveja de Sir Alex Ferguson

O Manchester United é, incontestavelmente, o vencedor do futebol inglês nas últimas duas décadas. Desde a criação da Premier League, em 1992, foram fantásticos 11 títulos conquistados pelo treinador Sir Alex Ferguson e por grandes nomes de uma geração inesquecível: Gary Neville, Roy Keane, Paul Scholes, Ryan Giggs, David Beckham e tantos outros sucessores.

Entretanto, as melhores campanhas da curta história da Premier League não pertencem aos Red Devils. Analisando friamente, os dois desempenhos mais impressionantes são do Chelsea de José Mourinho. Em 2004/05, temporada de estreia do treinador português, os Blues marcaram incríveis 95 pontos em 38 partidas (83,3% de aproveitamento). Logo na temporada seguinte, o clube de Stamford Bridge conquistou 91 pontos (79,8% de aproveitamento).

Ocorre que os cientistas do futebol não são matemáticos, mas passionais. Então, é impossível não incluir a campanha do Arsenal 2003/04 entre as melhores da Premier League. Arsène Wenger comandou um time de invencíveis. Os Gunners obtiveram 26 vitórias e 12 empates. Foram 90 pontos conquistados na campanha mais do que histórica. Antes deste Arsenal, apenas o Preston North End havia conseguido o título invicto no campeonato inglês. E isso foi na temporada 1888/89, quando o Preston jogou 16 vezes a menos do que o Arsenal.

Sendo assim, o Futebol Inglês: Ortodoxo e Moderno sente-se no direito de qualificar as campanhas do Arsenal em 2003/04 e do Chelsea em 2004/05 como as mais notáveis da Premier League. E nós não vamos parar por aí. É hora de dissecar as equipes, compará-las, ver qual foi a melhor.

Arsène Wenger armava o Arsenal no 4-4-2 ortodoxo inglês, conforme você pode observar na figura acima. O time era, sobretudo, muito técnico. O goleiro alemão Jens Lehmann foi bem sucedido na tarefa de substituir o lendário David Seaman. Os laterais - Lauren e Ashley Cole - tinham características ofensivas, e o zagueiro Kolo Touré tinha velocidade suficiente para fazer ótima dupla com o mais pesado Sol Campbell.

Os wingers eram muito bons. O francês Robert Pires e o sueco Fredrik Ljungberg davam velocidade e classe às laterais do Arsenal. Pela faixa central, o capitão Patrick Vieira viveu, ao lado do brasileiro Edu, o melhor ano da carreira. À frente, o holandês Dennis Bergkamp (que, na segunda metade da temporada, revezava-se com José Antonio Reyes) não precisava se esforçar. Era fácil demais jogar ao lado de Thierry Henry. O francês, em 2003/04, marcou 30 gols e distribuiu oito assistências. Henry viveu um ano fantástico e foi o melhor jogador do mundo em 2004 (opinião pessoal), embora a FIFA tenha escolhido Ronaldinho.

José Mourinho, que acabara de vencer a Champions League pelo Porto, chegou com tudo ao Chelsea em 2004. Seu time era posicionado no 4-3-3 (veja na figura ao lado). As laterais eram os pontos fracos. Paulo Ferreira, ex-jogador de Mourinho no Porto, não correspondeu às expectativas. Assim como o inglês Wayne Bridge, que, por várias vezes, viu o zagueiro William Gallas ocupar seu posto. A defesa central, porém, compensava qualquer limitação de outrem. John Terry e Ricardo Carvalho fizeram uma temporada excelente, de solidez ímpar.

À frente da zaga, jogava Claude Makelele, um dos melhores marcadores do início do século XXI. Joe Cole, por vezes, era utilizado ao lado de Frank Lampard na armação. Lampard, aliás, foi o comandante do bicampeonato inglês dos Blues. Era voluntarioso, técnico, preciso nos passes e letal nas finalizações Que jogador! Em última instância, as pontas faziam o time funcionar. O então jovem holandês Arjen Robben, de mais classe, e o irlandês Damien Duff, de mais explosão, eram o complemento perfeito ao matador Didier Drogba.

O veredicto
O Arsenal 2003/04 era mais agradável, mas o Chelsea 2004/05 era mais confiável. Era muito mais interessante ver Vieira, Pires, Ljungberg e Bergkamp tabelando rapidamente, e Henry ganhando jogos em solos magníficos. Entretanto, era muito mais seguro torcer pelo conjunto de Mourinho. Makelele, Terry e Carvalho limitaram os ataques adversários a 15 gols nas partidas contra os Blues. Isso mesmo: O time sofreu 15 gols em 38 jogos! No final das contas, o Chelsea era mais competitivo. Num eventual confronto, talvez vencesse por 2 a 1, tendo de conter o show de Henry. Mas isso é só chute, é só uma opinião. Queremos, agora, saber a sua.