19 de julho de 2010

A reinvenção do Villa

Martin O'Neill luta para evitar a reedição das últimas temporadas: baixa expectativa, primeiro turno empolgante, derrotas em março e fim decepcionante

Não fossem algumas circunstâncias, a temporada 2009-10 do sexto colocado Aston Villa teria sido extremamente positiva. Os 64 pontos acumulados pelo conjunto de Martin O'Neill superaram as expectativas de agosto passado. A defesa remontada, com as chegadas de Dunne, Collins e Warnock, a transferência de Barry para o Manchester City e a escassez de peças ofensivas não sugeriam que o treinador norte-irlandês conseguiria conduzir a equipe a um real desafio por um posto na Liga dos Campeões. No fim das contas, ele ficou a seis pontos da quarta posição, que, com um pouco mais de profundidade no elenco, poderia ter ficado com o time de Birmingham.

A contratação de Downing foi o estopim para a criatividade de Martin O'Neill. Após algumas rodadas, quando o reforço se recuperou de lesão, o ex-treinador do Celtic promoveu um poderoso revezamento pelas pontas entre o antigo winger do Middlesbrough e o excelente Ashley Young. Os dois foram abertos, sem que se fixassem em um dos lados, no meio-campo mais ousado da temporada passada. O novo capitão Petrov, homem de cofiança de O'Neill desde os tempos de Escócia, foi posicionado na meia central ao lado do deslocado Milner, que se adaptou rapidamente à nova função e foi o principal jogador do Villa no ano. Mesmo sem nenhum grande marcador e com dois wingers incisivos, o 4-4-2 foi mantido, com Carew - ou Heskey - e Agbonlahor à frente.

Incrivelmente, esse Aston Villa teve a grande defesa do campeonato até a 32ª rodada, quando o Chelsea lhes impôs uma pesada goleada por 7 a 1. O vexame em Stamford Bridge se juntou a mais um desastroso mês de março, o dos rotineiros fracassos da gestão O'Neill. Ainda que eliminados na fase preliminar da Liga Europa pelo Rapid Viena, os Lions tiveram de enfrentar uma dura sequência de jogos em virtude das ótimas campanhas nas Copas da Liga e da Inglaterra. O ponto fundamental dessa história é que a trajetória cíclica da equipe nos últimos anos não é apenas coincidência.

Sem tanto dinheiro, o clube não garimpa muitos grandes reforços e, eventualmente, perde jogadores importantes. Mesmo assim, O'Neill reinventa seu sistema e impressiona a maioria dos críticos. Que atire a primeira pedra quem, ao fim do primeiro turno da temporada passada, não colocaria o Aston Villa na lista dos três melhores times do campeonato. No primeiro turno, Chelsea, Manchester United (em Old Trafford) e Liverpool (em Anfield) caíram diante dos Villans. Mesmo os céticos, sejam os nefastos da corrente "a Espanha sempre 'amarela'" ou aqueles que previam o colapso do time, admitiam isso.

O problema é a falta de profundidade. Sem Ashley Young, por exemplo, Martin O'Neill teria de recorrer a um meia central, que pode ser Sidwell, e deslocar Milner a um dos flancos. Se Downing também se lesionasse, o jovem Marc Albrighton seria a única opção para a posição. Na defesa, não há grandes opções, sobretudo no banco. Dunne até surpreendeu muita gente e, em certa medida, fez uma temporada satisfatória. Mesmo assim, a parceria com Collins não é tão segura quanto parece, como sugeriram as últimas rodadas, que levaram o Villa da primeira à quarta posição entre as defesas do campeonato. Os bons desempenhos do defensivo Cuéllar, pela direita, e de Warnock, reserva de Ashley Cole na Copa, pela esquerda, também contribuíram muito para a solidez até a 32ª jornada.

Praticamente sem reservas de boa qualidade, o time e o esquema se desgastam a certa altura, que geralmente coincide com março. O mês impôs à equipe, entre 2006 e 2010, 16 jogos sem vitória. Maldição à parte, será possível mensurar a ambição da cúpula do Aston Villa para 2010-11 através da resistência a eventuais novas investidas por Milner. Ao recusar uma proposta de 20 milhões de libras do Manchester City pelo meia, a diretoria estabelece que o clube não está disposto a perder terreno em troca dos sedutores cheques mancunianos. No entanto, apenas a manutenção do elenco não será suficiente na luta pelo quarto lugar, objetivo ousado, porém acessível se pensarmos nas últimas temporadas. O Villa precisa de peças de reposição para possíveis lesões e, especialmente, de atacantes mais eficazes.

Por ora, sem esses jogadores, parece fundamental que Martin O'Neill reinvente, mais uma vez, seu sistema de jogo. Assim como Milner, Fabian Delph é cria do Leeds United. Após ser preparado pelo norte-irlandês durante um ano, talvez seja o momento de sua promoção ao time titular. No 4-3-3, o meio-campo, sem marcadores inatos, ficaria mais seguro, Young e Downing teriam mais liberdade, e o time conviveria com as limitações de apenas um atacante. Se O'Neill adotar o esquema, o time ficará mais leve e terá, novamente, boas chances de surpreender no primeiro turno. Entretanto, o mês de março e o fim da temporada só serão agradáveis se o clube gastar bastante até 31 de agosto.

Possível formação titular: Friedel; Cuéllar, Dunne, Collins, Warnock; Petrov, Delph, Milner; Ashley Young, Agbonlahor, Downing.

Imagem: The Guardian

17 de julho de 2010

A responsabilidade de Hodgson

Baixo padrão de exigência e experiência em grandes jogos devem facilitar a vida de Milan Jovanovic em seus primeiros meses de Liverpool

Nos próximos dias, as atividades do blog ficam por conta da apresentação dos perfis das sete principais equipes da Premier League para a temporada 2010-11. Os recursos financeiros ou mesmo o trabalho consistente dos clubes em questão criam um abismo prévio entre eles e os outros 13 conjuntos que jogarão a divisão superior do futebol inglês. Ainda que não ignoremos nenhum time, Chelsea, Manchester United, Arsenal, Tottenham, Manchester City, Aston Villa e Liverpool justificam postagens exclusivamente dedicadas a eles. A série começa com o sétimo colocado de 2009-10, o novo clube de Roy Hodgson:

Quando Yossi Benayoun atribuiu a Rafa Benítez a responsabilidade por sua saída do Liverpool, um grande problema da gestão do espanhol veio à tona. Ainda que seja um treinador excepcional, o estudioso comandante se notabilizou, nos últimos anos em Anfield, pelas apostas controversas. Uma delas, diziam em 2007, teria sido o próprio Benayoun. Entretanto, o israelense surpreendeu os mais céticos e teve três temporadas muito positivas em Merseyside. Mesmo assim, segundo o novo jogador do Chelsea, Benítez minava sua confiança. Com Riera, que não foi exatamente um sucesso no clube, a relação teve o mesmo teor. A questão é que Rafa não compensava suas extravagâncias no mercado com um bom ambiente: após seis anos, quase ninguém o aguentava.

Por isso, sua mudança para Milão soa interessante. Após doze anos de comando estrangeiro, o Liverpool volta a ter um treinador britânico. Nesse grupo, não havia muitos nomes melhores do que Roy Hodgson, o maestro da incrível recuperação do Fulham, que tinha sua queda ao Championship anunciada há quatro temporadas. Por outro lado, a característica mais notável do trabalho de Hodgson no Craven Cottage, quando interpretada de modo pessimista, causa choro e ranger de dentes em Anfield: ele se notabilizou por fazer muito com muito pouco. A sétima posição na temporada passada, as incertezas quanto à direção do clube e a opção por Roy implicariam um redimensionamento?

Duas temporadas depois de o time se aproximar efetivamente do primeiro título na Premier League, essa é uma realidade que precisa ser afastada imediatamente. E aqui aparece a grande responsabilidade de Hodgson. Mesmo que o futuro do Liverpool dependa mais dos recursos liberados pela nova cúpula do que de qualquer outra coisa, é o treinador quem vai determinar as indicações, os vetos, a mentalidade do grupo. Nesse sentido, ele parece ter começado bem. Ao conter o ímpeto dos clubes interessados em Gerrard e Torres, o treinador começa a cumprir o mais essencial pré-requisito para pretensões mais ousadas.

A temporada patética não exige revolução. Afinal, os grandes fracassos recentes ficam restritos a ela. Sob novos gestores em todas as vertentes, o Liverpool precisa de reparos e de profundidade. Se Gerrard e Torres seguirem mesmo em Anfield, o clube mantém intocável o status imponente. A partir daí, Hodgson tem de agir de forma cirúrgica. Por exemplo, a venda de Insúa para a Fiorentina deixa o elenco sem laterais-esquerdos. Assim, a negociação pelo bom hondurenho Maynor Figueroa, do Wigan, precisa ser acelerada. Além disso, caso não possa garimpar outro jogador para a posição nas categorias de base (a princípio, não há nenhum claro destaque), o novo manager tem a obrigação de procurar uma alternativa economicamente viável.

Assim, uma etapa importante são as capturas de free agents. Até certo ponto, o Liverpool pode conservar os 10 milhões de libras oriundos das transferências de Benayoun e Insúa se agir habilmente, como na contratação sem custos do left winger Milan Jovanovic, ex-Standard Liège. Este, por sinal, chega para ser a primeira opção para a banda esquerda do meio-campo. Acostumados a Harry Kewell, Sebástian Leto, Albert Riera e Ryan Babel, os torcedores recebem de braços abertos o sérvio, um dos principais nomes de sua seleção nacional no último ciclo. Incisivo, Jovanovic deve marcar muitos gols e representar um apoio ofensivo que permita a Hodgson a disposição do time no 4-4-2 com Gerrard efetivamente no ataque, opção que, embora ignorada, ganhou muitos entusiastas até para a seleção.

O Liverpool precisa de cinco aquisições: um lateral esquerdo, um lateral versátil (sim, Arbeloa faz falta), um winger (Joe Cole é free agent, vale lembrar) e dois atacantes (especula-se Loic Remy, bom jovem francês do Nice). É fundamental que se compreenda que Torres não é uma panaceia, a solução para todos os problemas. Ele se machuca com frequência e precisa de uma cobertura decente, o que não se vê desde a infeliz venda de Robbie Keane. Outro ponto importante é a utilização dos excelentes Pacheco e Nemeth, atacantes que se destacam na base há muito tempo e não foram aproveitados por Benítez. Se Hodgson tiver essa mentalidade e os recursos para executá-la, a tendência é que o conjunto seja equilibrado e retorne à Liga dos Campeões em 2011.

Possível formação titular: Reina; Johnson, Carragher, Skrtel, Figueroa; Kuyt, Mascherano, Aquilani, Jovanovic; Gerrard, Torres.

Atualização: Com a contratação de Joe Cole, Hodgson ganha um meia extremamente habilidoso, porém fisicamente instável. Uma de suas melhores características é a versatilidade, que dará várias opções ao treinador do Liverpool. Cole pode ser um winger tradicional ou um dos três meias - em qualquer posição - de um eventual 4-2-3-1.

Imagem: A Bola

10 de julho de 2010

O mês das distorções

Discretamente, Kevin-Prince Boateng eliminava um concorrente

A seleção Ortodoxo e Moderno da Copa do Mundo tem um teor bem distinto em relação àquele que esperávamos. A confiança em um desempenho digno do conjunto de Fabio Capello anunciava que os melhores dos 117 jogadores de clubes ingleses na África do Sul seriam os próprios ingleses. As exceções, pensávamos, ficariam por conta de futebolistas de classe mundial, como Vidic, Evra, Fernando Torres e Drogba. Contudo, o naufrágio da - novamente - mais promissora Inglaterra das últimas décadas e as tímidas atuações de várias das grandes estrelas da Premier League implicam uma seleção um tanto estranha. Esteja à vontade para discordar destas 11 escolhas, feitas antes da final para evitar falsos entusiasmos e dispostas no 4-2-3-1:

Tim Howard, Estados Unidos, Everton. Embora pudesse ter feito mais contra a Eslovênia, Howard foi um goleiro seguro nos quatro jogos dos ianques. Os pequenos equívocos foram, nesse sentido, mais do que compensados pelas defesas difíceis. Eleito o melhor jogador da partida contra os ingleses, o arqueiro do Everton fez o suficiente para superar, por exemplo, o ganês Richard Kingson e o australiano Mark Schwarzer.

Glen Johnson, Inglaterra, Liverpool. A Copa do ofensivo lateral não foi exatamente um primor, mas agradou mais do que a média de suas atuações na primeira temporada em Anfield. Ainda que não tenha feito muito para evitar a avalanche alemã nas oitavas-de-final, Johnson teve uma primeira fase segura e menos burocrática do que a do precocemente eliminado sérvio Branislav Ivanovic.

Paulo da Silva, Paraguai, Sunderland. Quando John Terry anulou todas as alternativas de ataque da Eslovênia, acreditava-se que o ex-capitão inglês faria uma Copa decente. No entanto, a desastrosa atuação contra a Alemanha abriu uma vaga na defesa desta seleção. Quem merece ocupá-la é Paulo da Silva. Ao lado de Antolín Alcaraz, que vai jogar no Wigan a partir de agosto, o zagueiro paraguaio do Sunderland formou uma das mais sólidas duplas defensivas da Copa. A expectativa é de que ele estenda esse desempenho à próxima temporada para atribuir mais segurança ao falho sistema de marcação dos Black Cats.

John Heitinga, Holanda, Everton. David Moyes deixou sua marca na Copa. Os holandeses Bert van Marwijk e Pim Verbeek recorreram a adaptações propostas pelo escocês: a de Heitinga à defesa central e a do australiano Tim Cahill ao ataque. Criatividade do treinador do Everton à parte, o ex-volante do Ajax, de 1,80m, faz, como zagueiro, uma Copa segura para seus padrões. Pelo menos até as semifinais.

Maynor Figueroa, Honduras, Wigan. Ashley Cole começou razoavalmente e terminou muito mal. Patrice Evra, por sua vez, fez apenas dois jogos e foi um dos protagonistas do colapso psicológico francês. A lateral esquerda sobrou, então, para o hondurenho Figueroa, sacrificado na defesa central durante a Copa. Apesar das fraquezas de sua seleção, o lateral do Wigan se destacou e continua despertando a cobiça de alguns grandes clubes ingleses.

Nigel de Jong, Holanda, Manchester City. Principal peça do sistema de marcação holandês, de Jong foi, durante a temporada passada, o único contraponto positivo ao ofensivo conjunto do Manchester City - assim como na Copa, Barry não foi bem em 2009/10. Suas boas atuações e a falta que fez à seleção holandesa no apertado cotejo contra o Uruguai explicam boa parte do sucesso do time de van Marwijk na Copa e sua presença nesta seleção.

Javier Mascherano, Argentina, Liverpool. Sacrificado no estranho sistema de Diego Maradona, Mascherano merece uma menção honrosa. Apesar de não ter feito o bastante para conter os alemães, o capitão argentino foi o grande responsável, como o único jogador realmente combativo do meio-campo, pelo equilíbrio do time nos quatro primeiros jogos. Se foi privado da companhia de Cambiasso na Copa, o Jefito tem, nesta seleção, um prêmio de consolação: a "ajuda" de Nigel de Jong.

Park Ji-Sung, Coreia do Sul, Manchester United. O capitão sul-coreano certamente deixou a África do Sul com a sensação de que poderia ter levado os Red Devils (não os de Manchester) às semifinais. Após o gol na memorável estreia contra a Grécia, Park registrou seu nome na história como o único jogador asiático a marcar em três Copas consecutivas. Apesar da eliminação nas oitavas-de-final, o meia do United cumpriu as expectativas e foi o líder da melhor campanha da Coreia do Sul fora de casa.

Kevin-Prince Boateng, Gana, Portsmouth. Nascido em Berlin, Boateng jogou em todas as seleções de base da Alemanha. No entanto, foi a opção futebolística pelo país de seu pai que lhe rendeu reputação internacional. Após passagens por Hertha Berlin, Tottenham e Borussia Dortmund, Boateng pode ter encerrado sua curta trajetória no Portsmouth com a polêmica decisão da FA Cup, quando desperdiçou um pênalti e tirou Ballack da Copa. Isso porque suas atuações na África do Sul e o belo gol contra os Estados Unidos o afastam do Fratton Park para a próxima temporada.

Steven Gerrard, Inglaterra, Liverpool. O melhor jogador inglês na Copa fez jus à capitania, que herdou de Terry e Ferdinand. Apesar da discrição na fatídica derrota para os alemães, Gerrard fez bons jogos contra Estados Unidos e Eslovênia e, ao contrário da maior parte dos titulares de Capello, não teve desempenho inferior ao da temporada. Nesta seleção, o líder do Liverpool também é escalado à esquerda.

Dirk Kuyt, Holanda, Liverpool. As atuações discretas (em alguns casos, pífias) de Rooney, Drogba, Fernando Torres e van Persie dão ao empenhado meia-atacante o direito de comandar o ataque deste grupo. Kuyt tem sido taticamente fundamental, versátil e eficiente. Com participação direta em vários gols holandeses, o jogador do Liverpool atrapalha os laterais adversários e já jogou deslocado às duas pontas, dependendo da presença de Robben.

Imagens: The Guardian, Euronews, Telegraph

27 de junho de 2010

Circunstancial, porém lamentável

Como todo jovem inglês, Lampard sonhava em reeditar Geoff Hurst

Ser eliminado nas oitavas-de-final da Copa mais promissora pós-Jules Rimet - e isso não é mero clichê -, pela Alemanha, com goleada e com erro abissal da arbitragem é o maior pesadelo que os ingleses poderiam viver na África do Sul. O primeiro passo para entender o que aconteceu é o estabelecimento de algo muito simples: a goleada - não a eliminação - diante dos alemães foi circunstancial. Não quero tocar no velho debate sobre a exploração de recursos tecnológicos no futebol, uma vez que me parecem óbvias sua viabilidade e sua potencial eficácia. Mas vale dizer que, quando a Inglaterra empatou por 2 a 2 e o gol de Lampard lhe foi tirado, havia duas possibilidades claras: Capello utilizar o evento para enfurecer, no melhor sentido, os jogadores, ou estes sucumbirem definitivamente.

A segunda opção foi estampada na atuação ridícula da equipe na meia-hora final. Sim, a Inglaterra manteve a bola em seus pés durante a maior parte do tempo, mas a postura estabanada e, por vezes, pouco interessada assustou. Após uma série de toques laterais, a Alemanha recuperava a bola com facilidade e partia, com a habitual eficiência na execução de tarefas (e, nesse aspecto, nenhum germânico é melhor do que Thomas Müller), para sempre ameaçar a desastrosa defesa (des)armada por Fabio Capello. Ao fim do jogo, o fato de nenhum inglês ter demonstrado sofrimento com o fracasso também chamou a atenção. Lampard, o menos pior do English Team na partida de hoje, conversava com Schweinsteiger como se estivesse deixando o campo após uma tranquila vitória do Chelsea sobre o Stoke City.

O aspecto físico também foi decisivo. Na jogada do quarto gol alemão, a Hispania de Gareth Barry foi pulverizada pela Red Bull de Özil, que não precisou fazer nada além de correr e controlar a bola, sem resistência, para dar a alegria a Müller. Com Rooney a fazer sua pior partida nos últimos tempos e Capello a ignorar o despedaçado Lennon, são computadas mais duas peças que seriam absolutamente fundamentais a qualquer pretensão de sucesso da Inglaterra.

No fim do cotejo, Capello ratificou sua confusa Copa ao substituir o pendurado Glen Johnson por Wright-Phillips. Daí, surgem algumas perguntas: (1) Qual era a intenção do atrapalhado italiano ao recorrer ao reserva do ignorado Adam Johnson no Manchester City para atuar na lateral-direita, a quatro minutos do fim da tragédia? (2) O que Wright-Phillips, Heskey, Carragher e Warnock faziam na África do Sul? (3) O que Ashley Young, Adam Johnson, Richards e Bent (ou Walcott, Agbonlahor, whoever) fazem na Inglaterra? (4) Foi cogitada a possibilidade de implementação de esquemas alternativos. Se o time estava tão mal nos dois primeiros jogos, por que ele não fez nada para evitar o fracasso?

Não obstante, a Inglaterra fez um jogo razoável contra a Eslovênia, com alguns momentos muito positivos. Diante da Alemanha, os tais momentos positivos ficaram restritos a cinco minutos, quando a equipe marcou, de fato (não de direito), dois gols. Os grandes problemas da fatídica eliminação foram a parca atenção prestada à movimentação alemã e o ridículo posicionamento que permitiu a Klose, Podolski (aquele pessoal que joga a cada quatro anos), Müller e Özil (esse pessoal que deve jogar demais nos próximos dez) fazerem a festa. Não tacharia o trabalho feito nos últimos dois anos de equivocado. Faltou compreender que o planejamento ajuda, mas não garante uma Copa decente. Trabalha-se bem em 24 meses, mas uma sucessão de falhas em 15 dias é suficiente para alimentar o desastre.

Assim, o cansaço e a má fase de alguns jogadores dão razão a Tim Vickery, colunista da BBC no Brasil: "a Copa, para a Inglaterra, chegou com um ano de atraso". Afirmação que, por sua vez, não anula o potencial que esse time tinha para explodir durante o torneio. Por outro lado, os níveis de concentração e gana de alguns jogadores decepcionaram. A única das principais peças que fez jus às expectativas foi o capitão Gerrard, aquele de quem, curiosamente, menos se esperava por conta da fraca temporada. Com ou sem Jorge Larrionda e Mauricio Espinosa, o destino da Inglaterra, com a maior parte dos minutos a que assistimos, seria o mesmo.

Foto: Divulgação

26 de junho de 2010

Sim, é possível

Principal peça inglesa na Copa, Gerrard foi destaque também em Alemanha 1 x 5 Inglaterra, em 2001

Soa um tanto reducionista, mas um simples exercício seria interessante para mensurar o que a Inglaterra pode fazer contra a Alemanha. Pense na formação principal de Joachim Löw. Quantos dos alemães seriam titulares com Fabio Capello, no English Team? Você pode divergir, mas a lógica aponta, no máximo, para Neuer, Lahm, Schweinsteiger e Özil. Ainda assim, o jovem conjunto de Löw, com alguns dos campeões europeus sub-20 de 2009 (o placar da decisão, por sinal, foi 4 a 0 sobre a Inglaterra), fez primeira fase superior à dos ingleses - o que, convenhamos, não exigiu tanta inspiração.

Fato é que o empate contra a Argélia produziu um desequilíbrio das forças do universo. A Inglaterra, que, se primeira colocada do grupo, seria clara favorita para chegar às semifinais, meteu-se em um covil ao lado de Alemanha, Argentina, Espanha e Portugal na corrida por um posto na final. Contudo, a sólida exibição contra a Eslovênia, inspirada pelas óbvias soluções implementadas por Fabio Capello, dão combustível à crença dos ingleses. A morosidade na primeira fase não provocou uma tragédia anunciada. Se repetir, estendendo a todo o jogo, os melhores momentos do triunfo contra os eslovenos, a Inglaterra pode vencer a Alemanha, sim.

Se não escalou Hart, pelo menos Capello sacou Green, que, claramente, não estava minimamente confiante. E existe aquele outro fator, negligenciado por vários treinadores: o desempenho na temporada. Com quatro falhas decisivas, o goleiro do West Ham foi o jogador que mais concedeu gols aos adversários durante a edição 2009/10 da Premier League. A atitude, por ora, deu muito certo: James está seguro. Nas laterais, Johnson melhorou muito e já rende mais do que em qualquer momento da temporada no Liverpool, enquanto Cole demonstra a consistência de sempre. Ambos terão papel fundamental na marcação a Müller e Podolski. Assim como Terry, que, após um jogo sensacional contra a Eslovênia, deve ser suficiente para conter Klose.

No meio, o retorno de Barry não acrescentou tanto por conta de seu parco ritmo de jogo. Mesmo assim, ele vai precisar retormar sua melhor forma contra os alemães e ajudar a dupla de zagueiros na árdua tarefa de acompanhar Özil, que deve jogar entre ele e Terry-Upson (ou, infelizmente, Carragher). Entretanto, a simples presença de Gerrard na esquerda já fez Lampard jogar mais. Ainda que deslocado, o capitão, por sinal, é o melhor jogador inglês na Copa. A herança da faixa lhe roubou a habitual timidez pelo English Team. Ao lado de Ashley Cole, Gerrard será fundamental no duelo, nas duas extremidades do campo, contra Lahm, o capitão e peça mais regular da engrenagem germânica. Os meias ingleses também podem levar vantagem no confronto com os volantes Khedira e Schweinsteiger, que não têm tanta vocação defensiva.

Do outro lado, ao mesmo tempo, a infortuna e o trunfo ingleses. Se estivesse em forma, a velocidade de Lennon seria fundamental para explorar as fraquezas de Badstuber. Entretanto, sua ausência não é motivo para tantas lamentações. Ainda que mais acostumado à faixa central e ao lado esquerdo, Milner foi muito bem como right winger, e sua habilidade e precisão nos cruzamentos compensam o problema. À frente, Defoe deve perder todos os duelos aéreos contra Mertesacker e Friedrich, mas pode vencê-los, por baixo, através da capacidade de antecipação, como no gol diante dos eslovenos. Rooney, por sua vez, é suficientemente forte para brigar com a dupla defensiva alemã.

Não compro o pessimismo disseminado por aí no que se refere à seleção inglesa. Os dois primeiros jogos nada tiveram a ver com o excelente trabalho dos últimos dois anos. Apesar de equívocos na convocação e em escalações, Capello tem capacidade suficiente para perceber as falhas e fazer o time aprimorar a qualidade de seu jogo, mesmo em relação ao triunfo diante da Eslovênia - insistentemente citado neste post. A batalha contra os alemães será complicadíssima, especialmente porque alguns de seus jogadores - Podolski e Klose, notadamente - têm a incrível propriedade de crescer assustadoramente na Copa do Mundo. Mas a Inglaterra pode vencer, sim.

Imagem: The Mirror

12 de junho de 2010

Punido pelas escolhas

Capello prefere a experiência à segurança

A Inglaterra tinha um adversário extremamente familiar. Cinco dos titulares norte-americanos atuaram em clubes ingleses na última temporada. A presença de jogadores de Fulham, Hull City, Everton e Watford dava a sensação de que o conjunto de Capello, cujos atletas jogam no mais alto escalão do país, enfrentava um time médio da Premier League. Apesar da habitual disciplina ianque e dos bons resultados na Copa das Confederações do ano passado, não haveria motivos para a seleção inglesa fazer uma partida tão equilibrada contra os comandados de Bob Bradley. Capello os criou.

O italiano é, seguramente, o maior responsável pela ressurreição inglesa pós-McClaren. Mas é evidente que tem feito escolhas infelizes. A primeira delas foi a não-convocação de Ashley Young, o segundo melhor winger inglês. O peso da ausência de um dos principais jogadores do Aston Villa foi sentido ainda no primeiro tempo de Inglaterra 1 x 1 Estados Unidos. Escalado pelo lado esquerdo por conta da ausência de Barry e do deslocamento de Gerrard ao meio, Milner dava sinais de que a indisposição estomacal havia retornado, atrapalhava-se na marcação de Cherundolo e corria risco de ser expulso. Capello lançou mão de Wright-Phillips, reserva do Manchester City durante a maior parte da temporada.

A formação do meio-campo com Lennon e Wright-Phillips nas pontas já havia sido testada no amistoso contra o Japão. Foi um desastre. Quem jogava à esquerda tinha muitas dificuldades, e o time ficava demasiadamente exposto. Além do ignorado Young, Adam Johnson (excluído na lista definitiva) e até Joe Cole fariam melhor figura. No entanto, uma questão tática indica que a melhor opção seria a escalação de Carrick. Com Barry lesionado, o volante do Manchester United seria fundamental para afastar Gerrard de Lampard, de modo que os meias, de características similares, pudessem jogar à vontade. Com o velho esquema, que fracassa há quase uma década, Lampard simplesmente desapareceu do jogo. A provável volta de Barry e o deslocamento de Gerrard ao lado esquerdo devem melhorar a Inglaterra já contra a Argélia.

Outro problema é a estranha desconfiança em Joe Hart. Com dois goleiros tão propensos a falhas patéticas, é inadmissível que Capello mantenha no banco o mehor goleiro inglês. O fato de ele ter apenas 23 anos não inviabiliza sua escalação. Green é um goleiro de defesas fantásticas, surgiu de forma espetacular no Norwich City, mas erra quase periodicamente - à moda Heurelho Gomes na primeira temporada em White Hart Lane. Hart é seguro e faz defesas com o mesmo grau de dificuldade. O gol de Dempsey foi emblemático. Não para explicar o crônico problema inglês com goleiros, mas para punir Capello por, neste caso, pensar como Dunga e ignorar solenemente o desempenho dos jogadores na temporada e a melhor opção à disposição.

É justamente a esse quadro que pertence a decisão de escalar Heskey, reserva de John Carew no Aston Villa. O ex-atacante do Leicester City não foi exatamente um desastre, uma vez que serviu Gerrard na jogada do gol inglês. Contudo, a finalização dele quando se viu diante de Howard no segundo tempo resume sua temporada. O britânico Martin O'Neill poderia até ficar constrangido ao, sistematicamente, enviá-lo ao banco. Mas não poderia sustentar a campanha do Villa com um atacante tão ineficaz. Defoe é o melhor dos três que disputavam um posto ao lado de Rooney. Crouch, mostraram os amistosos, foi o que produziu a mais interessante combinação com o Shrek. Um esquema com Gerrard mais avançado, como no Liverpool, aproveitaria melhor as qualidades do capitão. Havia alternativas em demasia para aceitarmos a escalação de Heskey sem resistência.

No segundo tempo, com a contusão de King (fora do encontro com a Argélia), Capello escolheu Carragher, de temporada desastrosa no Liverpool. Aos 59 minutos, o zagueiro-lateral poderia (não deveria) ter sido expulso por entrada pesada em Michael Bradley. Cinco minutos após a tensa troca de olhares com Simon, Carragher simplesmente não conseguiu acompanhar Altidore, uma das decepções da temporada da Premier League. O atacante do Hull City obrigou Green a uma defesa quase compensatória. Contra os africanos, veremos se Capello insiste no zagueiro do Liverpool ou resolve apostar em Dawson, que fez temporada mais convincente do que Upson e o próprio Carragher, as outras opções.

Apesar de tantos pontos falhos, a Inglaterra teve boas notícias. Ainda que Rooney tenha mostrado certa dificuldade física durante o jogo, a ótima participação de Lennon é um alento, visto que a velocidade e a eficiência do winger do Tottenham são fundamentais para as pretensões inglesas. Além disso, Gerrard foi o melhor do jogo. Com a faixa de capitão herdada de Terry e Ferdinand, o líder do Liverpool parece ter perdido a habitual timidez na seleção. O autor do gol foi fundamental na cobertura pelo lado esquerdo, organizou o time e chegou à frente de modo eficaz.

Imagem: The Mirror

11 de junho de 2010

Com a palavra, os torcedores

Após algum tempo de folga, o Ortodoxo e Moderno retorna com uma série de reportagens produzida em parceria com meus colegas de Rádio Universitária FM e veiculada durante a semana passada. Aqui, apresentamos as considerações de estrangeiros que vivem em Viçosa (cidade onde moram também os editores deste blog) sobre experiências pessoais e expectativas para a Copa do Mundo. No dia em que a ansiedade pelos jogos é expulsa pelo rolar da Jabulani, você fica com as reportagens, que, evidentemente, foram produzidas com a intenção de atender ao público local, por vezes com perfil divergente daquele dos que visitam este blog. Assim que o intenso ritmo de atividades acadêmicas permitir, voltamos para acompanhar a trajetória da Inglaterra na Copa.

Espanha:


Coreia do Sul:


Estados Unidos:


Portugal:


França: