12 de outubro de 2010

O empate de Fabio

Houve quem sonhasse com um gol de Vucinic após falha de Ferdinand. O provável desfile do montenegrino apenas de cueca, valorizando a façanha e ao mesmo tempo zombando dos ingleses, seria uma punição emblemática a Fabio Capello. Afinal, ele devolveu a faixa de capitão ao zagueiro do Manchester United, roubando-a de Gerrard.

Baseado no preceito de que líderes devem dar bons exemplos, Capello tirou a capitania de Terry antes da Copa e passou-a a Ferdinand, que perderia o torneio por lesão. Se o então capitão Gerrard, o terceiro de sua lista original, é o melhor inglês numa campanha desastrosa e, no primeiro jogo após o fiasco, salva sua pele ao marcar duas vezes na vitória por 2 a 1 sobre a Hungria, inspirando o resto do grupo como um autêntico líder, por que Capello tiraria a faixa dele? Apenas para respeitar uma hierarquia que parecia irrelevante diante do que Gerrard vinha fazendo.

Após a Copa de 2002, Parreira manteve Cafu como capitão da Seleção Brasileira. O lateral-direito do "Eu te amo, Regina" se transformou no líder do quinto título mundial do Brasil apenas porque Emerson, o antigo capitão de Scolari, foi cortado por conta de uma contusão. Mas, é claro, não seria prudente devolver a capitania ao Puma apenas em função de uma hierarquia prévia, que não havia sido estabelecida por Parreira, mas era conhecida por todo o elenco. Cafu foi conservado pelo bom exemplo. Gerrard também deveria ter sido.

Ainda assim, não se sabe se ou até que ponto a volta da faixa ao braço de Ferdinand teve impacto na ridícula exibição da Inglaterra contra a disciplinada seleção de Montenegro. Apesar da liderança montenegrina no grupo, o empate por 0 a 0 não foi tão desastroso porque os ingleses venceram - e muito bem - na Suíça. Entretanto, até pelo contraste entre as últimas atuações e a insossa tarde em Wembley, é preciso investigar o que aconteceu hoje. A apatia do sempre fundamental Gerrard, por exemplo, pode ter a ver com a perda da faixa, com a celeuma envolvendo o Liverpool ou mesmo ser uma simples extensão da fase não tão boa que vive em Anfield.

Mesmo assim, o erro de Capello não é apenas administrativo. Já não é novidade, aliás: o italiano, campeão no inútil quesito "aproveitamento como treinador da Inglaterra", equivocou-se na escalação e nas substituições. Se, enfim, acertou ao lançar os outrora desprezados Adam Johnson e Ashley Young (disparadamente, os melhores wingers à disposição) como titulares, Capello não os posicionou da melhor maneira.

No 4-4-2, a disposição do canhoto Johnson à direita e do destro Young à esquerda não funciona: eles jogam muito longe de gol, ao contrário do que aconteceria no 4-3-3. A menos que eles tenham muita liberdade, o ideal seria privilegiar as jogadas de fundo, que renderiam muito mais à Inglaterra, especialmente com um Crouch ocioso à frente. Johnson até dá certo no City pela direita, mas geralmente no 4-2-3-1, mais próximo da área adversária. Young, por sua vez, costuma se revezar com Downing no Aston Villa. Ora priorizam-se o corte e a finalização, ora priorizam-se as incursões à linha de fundo.

No segundo tempo, Capello resolveu sacar o melhor inglês, Ashley Young, que se virava como podia pela esquerda e distante do gol, para lançar Shaun Wright-Phillips, um dos maiores mistérios de seu trabalho. O rápido winger é reserva absoluto no Manchester City, mas segue ocupando um patamar inexplicável em sua hierarquia - agora a técnica, não a de liderança. É óbvio que ele, em péssima fase, errou quase tudo e minou as já escassas chances de a Inglaterra arrumar um gol. Wright-Phillips já é o Heskey do novo ciclo, em versão reduzida e ligeirinha.

Outro ponto diz respeito ao debutante Kevin Davies, que substituiu Crouch a 20 minutos do fim. Peter estava mal, é bem verdade. Mas... Kevin Davies? Aos 33 anos, ele até tem feito uma boa temporada pelo Bolton, mas os 43% de acerto nos passes, a ausência ofensiva, as três faltas cometidas e o cartão amarelo (para não perder o hábito) já explicam por que ele não deveria ter sido considerado, mesmo na convocação - é incrível, mas os não-lesionados Cameron Jerome, do Birmingham, e Andy Carroll, do Newcastle, mereciam mais (aliás, até Daniel Sturridge, do Chelsea, mas ele tinha compromisso importante com a seleção sub-21).

Capello também poderia ter aproveitado Wilshere para tentar surpreender Montenegro. Se Barry era tão inoperante e jogava em ritmo que nos fez esquecer seus primeiros anos de carreira, os quais ele gastou na lateral esquerda, não eram absurdos os clamores pelo jovem, que vem muito, muito bem no Arsenal. Pelo menos, alguém pensaria um jogo que, só de se pensar, já dava sono.

No fim das contas, o empate com Montenegro é mais de Capello que de qualquer outro, mas também deve ter parcela atribuída aos desempenhos individuais. Gerrard e Barry estavam mal, os laterais não compensavam os pés trocados dos wingers, Rooney perdia gols ridículos, e Crouch pouco contribuiu para vencer uma boa, porém desgastada defesa. Ademais, sem Terry, Lampard, Milner, Lennon e Defoe, as coisas ficariam mesmo um pouco mais complicadas. Ainda assim, a Inglaterra e os ingleses não estão bem. Mais uma vez.

Boa, garotos!
Se há quem tema pelo segundo revés consecutivo em Eliminatórias para a Euro no primeiro escalão, já existe a certeza da classificação para a competição sub-21, que será organizada pela Dinamarca no ano que vem. Após a vitória por 2 a 1 no primeiro jogo, a Inglaterra empatou por 0 a 0 com a Romênia em Botosani e garantiu seu posto. O sucesso ratifica o bom trabalho de Stuart Psycho Pearce, que levou os jovens ingleses à final da Euro 2009.

Imagens: Telegraph, BBC

8 de outubro de 2010

O rei dos empates

Até agora, Mark Hughes consegue fazer um bom trabalho no Fulham, mas vai sendo marcado pelo excessivo número de empates conquistados pela equipe

No final de julho, Mark Hughes foi contratado pelo Fulham para ser o sucessor de Roy Hodgson. Uma tarefa extremamente ingrata: além de levar um clube que parecia apenas fazer hora extra na Premier League à sua melhor posição na história da competição - os Cottagers terminaram a temporada 2008-09 em sétimo -, Hodgson conseguiu colocar o time na final da Liga Europa na campanha seguinte, após bater times como Juventus, Wolfsburg e Hamburgo. Logo, a missão do galês era bem clara: manter a equipe num posto respeitável no cenário inglês tendo em mãos um time composto por bons jogadores, como Dempsey, Zamora e Schwarzer, mas limitado e sem grandes talentos individuais.

Porém, após sete rodadas, pode-se dizer que Hughes vem fazendo um bom trabalho. Até agora, seus principais méritos foram manter a base vencedora de Hodgson - uma equipe coesa e extremamente trabalhadora e disciplinada - além de não ter perdido na Premier League (apenas o Manchester United também está invicto na competição). A princípio, um ótimo desempenho inicial, principalmente para quem vem de um fracasso no milionário Manchester City.

Mas nem tudo são flores: se é verdade que a equipe ainda não perdeu, também é verdade que o Fulham só venceu uma vez na competição; todos os seus outros seis jogos terminaram empatados. É devido a esse retrospecto que o clube está apenas na décima posição, atrás, por exemplo, de clubes que já perderam três vezes e que estão entre as defesas mais vazadas do campeonato, como Aston Villa e Blackpool.

Analisando a tabela, o desempenho, embora bizarro, é até compreensível. Dos sete jogos disputados até agora, os Cottagers jogaram fora quatro vezes, conseguindo empates contra clubes do mesmo nível: Bolton, Blackpool, Blackburn e West Ham. Em casa, um empate a ser comemorado contra o poderoso Manchester United e uma vitória - suada, é verdade, contra o Wolverhampton. O único resultado a ser lamentado é o empate sem gols contra o Everton em Craven Cottage: além do fator casa, era preciso tirar proveito da pressão que os Toffees sofriam para conseguir um resultado positivo. Porém, afora isso, todos os resultados até aqui foram aceitáveis.

É necessário também entender que Mark Hughes enfrenta dificuldades para montar o seu ataque. O galês tem seus três melhores atacantes (Bobby Zamora, Moussa Dembele e Andrew Johnson) no departamento médico, sendo obrigado a escalar o fraco e limitado Eddie Johnson entre os titulares. Se a equipe já tinha uma leve dificuldade para marcar gls tendo um dos três contundidos no ataque, imagine sem nenhum a disposição.

O problema é que a tabela não dá tréguas ao Fulham. Os próximos jogos em casa, onde a equipe parece ter bem mais chances de conseguir os três pontos, preveem encontros contra Tottenham, Aston Villa e Manchester City, sendo que entre essas partidas ainda há um clássico contra o Chelsea a ser disputado em Stamford Bridge. Ou Hughes leva seu time a vitórias em jogos complicados ou continua colecionando pontos provenientes de empates, o que não é nada bom: uma derrota após consecutivos empates pode ter um efeito devastador, jogando o time para a parte de baixo da tabela e colocando uma pressão enorme em cima dos jogadores por resultados positivos.

Imagem: Mirror Football

6 de outubro de 2010

Um novo tipo de paixão

Após seis meses de embaraços, a venda do Liverpool está prestes a ser concretizada. Em crise em campo e fora dele, os Reds têm sido comparados ao Leeds United de anos atrás, de modo que o terrível começo de temporada, associado ao flerte com o colapso financeiro, traz à tona a preocupação com o rebaixamento e, portanto, torna dramática a espera por novos investidores.

Os ainda donos Tom Hicks e George Gillet colocaram o clube à venda em abril. A condução do processo foi atribuída a Martin Broughton (presidente), Christian Purslow (diretor administrativo) e Ian Ayre (diretor comercial). Um semestre depois e ainda sob os descuidos de Hicks e Gillet, o Liverpool vê a dívida com o Royal Bank of Scotland chegar a 285 milhões de libras.

Agora, restam apenas nove dias para o encerramento do novo prazo para os Reds acertarem as contas com o RBS. Se não o fizerem, o banco escocês pode assumir o controle do clube e realizar uma espécie de leilão, ou mesmo colocá-lo em concordata, o que poderia representar a perda de nove pontos na tabela da Premier League, deixando a equipe com desesperadores três negativos.

Como não pretendem restringir o negócio à recuperação do investimento que fizeram no clube a partir de 2007, Hicks e Gillet dificultam ao máximo o processo de venda. Tão resistentes estão, que quiseram destituir os independentes Purslow e Ayre de seus cargos, alocando os apadrinhados Mack Hicks (filho de Tom) e Lori Kay McCutcheon, que passariam a controlar o processo de (não-)venda.

O imbróglio ganhou maiores proporções ontem, quando a diretoria autônoma aceitou a proposta de compra feita pelo New England Sports Ventures (NESV), grupo de investidores que, desde 2002, controla a bem sucedida franquia do beisebol ianque Boston Red Sox. O negócio gira em torno de 300 milhões de libras, garantiria a Hicks e Gillet o retorno do investimento e quitaria as dívidas do Liverpool.

A consumação da venda depende da batalha judicial envolvendo a última peripécia dos proprietários Hicks e Gillet e da aprovação da Premier League. O posicionamento da liga sai em 8 de outubro, enquanto a decisão do tribunal será tomada na próxima semana. O vasto histórico de vendas na Inglaterra, viabilizado pelo modelo de gestão, e o bom senso (no que se refere à tentativa disparatada de Hicks e Gillet) indicam que o negócio deve mesmo ser concluído.

Imediatamente, imagina-se que John W. Henry, principal proprietário do NESV, pode ser uma espécie de salvador do Liverpool. De certa forma, é mesmo. Por preceitos de mercado, a aproximação do vencimento do prazo para a quitação da dívida e a iminência do controle do clube pelo Royal Bank of Scotland poderiam fazer os interessados ficarem apenas na espreita, à espera da chance de comprar o clube por preço de banana, lógica contrariada por Henry. Ademais, o projeto do NESV é ambicioso, faz referência a solidez agora e títulos em médio prazo. Se não perder suas peças-chave e tiver um ambiente minimamente saudável, o Liverpool transformará as especulações de rebaixamento em piada pura.

Entretanto, não seria este mais um capítulo de um ciclo? O modelo de gestão na Inglaterra, que não impõe controle de contas e permite investimentos provenientes de qualquer canto, amplia as possibilidades dos clubes nas duas extremidades: mais fácil prosperar, mais fácil afundar. Essa gangorra pode, num intervalo de duas temporadas, transformar o Stoke City numa potência em nível continental, ou deixar gigantes à mercê de colapsos relativamente repentinos, de modo que sua tradição seja, sim, uma vantagem, mas não imune, por exemplo, a recessões.

É claro que a relevância do processo de administração é inerente a qualquer clube, e, naturalmente, os adeptos torcem por seus jogadores, mas também por boas decisões da cúpula. Ainda assim, o ponto a que chegou a lógica de gestão na Inglaterra, bem representada pelos exemplos de Portsmouth, Liverpool e Manchester United, parece demandar um maior controle das contas e da origem dos investimentos. A sobrevivência e/ou a manutenção do poder mesmo de um grande clube não deveriam ser completamente dependentes dos rumos da economia. Uma retração no mercado, e a tradição do Liverpool não seria suficiente para evitar a reedição da derrocada do Leeds.

Protestos como o dos cachecóis em alusão ao Newton Heath, time que deu origem ao Manchester United, são os reflexos de uma pergunta recorrente: para quem eu estou torcendo? Investidores sem nenhuma relação prévia com o clube o utilizam apenas para fins econômicos e, portanto, transformam-no num empreendimento comum, passível de repasse ou colapso. Os torcedores precisam, portanto, adaptar sua paixão à irrestrita liberdade dos magnatas, que brincam com verdadeiros sentimentos de identificação. Mesmo assim, continuamos nos emocionando, torcendo, agora também com a incerteza de como será o amanhã.

Imagens: AP, Telegraph, The First Post

2 de outubro de 2010

O novo Bergkamp?

Rafael van der Vaart e Harry Redknapp: compatíveis

A decisão precisava ser tomada rapidamente. O prazo para transferências estava se esgotando, e a melhor pechincha do mercado de verão, um poço de insatisfação em seu clube, fatalmente trocaria de patrão. A contratação de Rafael van der Vaart pelo Tottenham, pela bagatela de oito milhões de libras, foi o risco calculado de Harry Redknapp. Jogadores da estirpe do holandês costumam ser vistos com desconfiança por conservadores ingleses. Afinal, eles dificilmente se encaixam no 4-4-2 ortodoxo, que exige presença de área dos atacantes, combatividade e criatividade dos meias centrais e velocidade dos wingers. Van der Vaart não deve jogar regularmente em nenhuma dessas funções: é explosivo, tem ótima finalização de média distância e alguma criatividade. Rafael é meia-atacante. Assim, no Hamburgo, arrebentou.

No Real Madrid, pouco fez. Os seis jogos e quatro gols pelo Tottenham não são, portanto, um indício da reedição dos casos de Robben e Sneijder, cujas vendas martirizam os madridistas até hoje. Com a aposta em Özil, van der Vaart tinha de ser negociado mesmo. Melhor para os Spurs e para o tradicionalista Redknapp. Com uma visão conservadora do futebol e sem dar a mínima importância para variações táticas, o treinador do Tottenham raramente foge do 4-4-2 clássico. Com Rafael, porém, isso mudou um pouco. A formação predileta de Harry ainda é a tradicional, mas ele tem recorrido a alguns mecanismos para inserir van der Vaart em seu sistema.

Na vitória por 2 a 1 sobre o Aston Villa, por exemplo, o Tottenham foi inicialmente disposto com Crouch e Pavlyuchenko à frente. Van der Vaart fechou o meio-campo, ao lado de Jenas, Modric e Bale. Não deu muito certo. O conjunto de Gérard Houllier teve espaço para trabalhar, marcou primeiro através de Albrighton (com jogadaça de Emile Heskey, o Mr. Em), e o ex-madridista não foi tão eficiente, centralizado ou mais à direita. No fim do primeiro tempo, de cabeça, Rafael resgatou as chances dos Spurs no jogo. Após o intervalo, Redknapp trocou Pavlyuckenko por Lennon e adiantou o holandês. No suporte a Crouch, ele foi novamente decisivo. Aliás, Crouch foi quem esteve no suporte a van der Vaart. A jogada do primeiro gol se repetiu: o centroavante da seleção inglesa escorou de cabeça, e o temperamental meia-atacante finalizou uma sequência que pode se tornar rotineira em White Hart Lane.

Na Inglaterra, muitos têm associado van der Vaart a Bergkamp. Pensando taticamente, faz sentido. O grande Arsenal de 2001 a 2004, inesquecível em sua versão da última dessas temporadas, jogava numa espécie de 4-4-1-1, um 4-2-3-1 com a bola. Parlour (ou Gilberto Silva) recuperava a posse de bola, entregava-a Vieira, que abria o jogo, com Ljungberg à direita ou Pires à esquerda. Eles sempre sabiam a quem dar o passe: Dennis Bergkamp, já experiente, esperava, na entrada da área, para arrematar ou assistir Henry, que passava voando pela esquerda. Articulações como essa não eram raras e dependiam de Bergkamp.

São consensuais os fatos de que a comparação pode soar prematura e de que van der Vaart não tem a classe de Dennis. Mesmo assim, não é exagero dizer que, guardadas as apropriadas proporções, as funções dos holandeses são similares. Em jogos complicados da Champions ou mesmo em algumas circunstâncias na Premier League, parece muito possível que Redknapp ignore seu abundante elenco de atacantes e sacrifique um singelo aspecto de seu clássico sistema em benefício de Rafael - e do time. Com inúmeras opções no meio-campo, o Tottenham pode ser escalado com Huddlestone (ou Sandro) e Modric (ou Palacios) ligeiramente recuados, para dar liberdade a Lennon e Bale (este, por sinal, em forma absolutamente fantástica). Com van der Vaart na linha dos três meias, o único atacante - não importa quem - jamais estará isolado na prática.

Adaptados às necessidades de seus times e aos próprios repertórios, Bergkamp (no Arsenal de 1995 a 2006) e van der Vaart são diferentes. Este, aliás, será um excelente instrumento para, até dezembro, compensar a ausência do lesionado Defoe no que se refere à capacidade de finalização dos Spurs. Depois, não se sabe. Pode ser que o holandês não se revele tão eficaz ao lado de Defoe - e sem a assessoria de Crouch para aparar bolas de cabeça -, ou mesmo que seu temperamento o leve a cometer sandices. Por fim, Bergkamp era mais habilidoso, de jogo mais encantador e, no frigir dos ovos, melhor mesmo. Ainda assim, a inevitável associação, embora precoce por conta da curta experiência de Rafael pelo Tottenham, é muito lógica. E não apenas por palavras-chave - "Ajax", "Holanda", "Londres", "second striker", "attacking midfielder".

30 de setembro de 2010

Um grande futuro

Ao contrário de seus conterrâneos Carlos Vela e Giovanni dos Santos, Chicharito Hernández prova na Inglaterra que tem um grande futuro pela frente. Sorte do Manchester United, que ainda vê Federico Macheda no mesmo caminho

O Manchester United esteve longe de fazer uma boa partida ontem, na segunda rodada da Champions League. Não teve inspiração alguma na articulação de jogadas, deixou Berbatov completamente isolado no ataque e chegou a ser dominado pelo Valencia em certos momentos do jogo. Sorte que a qualidade da equipe espanhola não se equipara à vontade demonstrada em campo: o elenco atual está longe de ser comparado àquele perigoso do final da década passada e do começo do século XXI.

Porém, bastou uma jogada com um mínimo de qualidade para que os comandados de Sir Alex Ferguson vencessem a partida, mesmo que injustamente - pelo que foi produzido pelas equipes, o empate seria o resultado mais apropriado. Após jogada iniciada por Nani, o jovem ataque reserva dos ingleses decidiu a partida: Macheda tocou rapidamente para Chicharito Hernández, que finalizou muito bem, sem qualquer chances para o veterano goleiro César Sánchez (que já teve uma rápida passagem pelo Tottenham). Numa partida não mais que mediana, foi um dos únicos lances dignos de certa análise: além de possuir um bom ataque reserva, os Red Devils têm em mãos uma bela dupla para o futuro.

Algo que, na verdade, só foi realçado após este encontro internacional, pois ambos já mostraram isso há tempos: afinal, não é qualquer jovem que entra em momentos decisivos e consegue marcar gols fundamentais, como fez o italiano na temporada 08-09 num jogo importantíssimo contra o Aston Villa pela Premier League, ou o mexicano em quase todas as suas grandes atuações até agora - até mesmo um gol essencial pelo México em plena Copa do Mundo já marcou! Aliás, essa parece ser a marca registrada deles: parecerem incrivelmente predestinados para resolver jogos difíceis. Estrela? Pode até ser, mas certamente é mais do que isso: é prova de talento.

O curioso é que, dos quatro grandes da Inglaterra, o Manchester United é o único que possui um ótimo ataque a ser lapidado com muito cuidado. Na verdade, isso é algo que poderia até ser considerado normal; porém, não em um lugar que possui um clube grande que é conhecido por ser formado por muitos jovens e, consequentemente, revelar muitos talentos precoces - o Arsenal. Não deixa de ser estranho ver Arsène Wenger, um caçador de talentos nato, não ver Vela e Bendtner estourarem e substituírem Van Persie e Arshavin a altura quando preciso, enquanto Ferguson vê Hernández e Macheda se destacando e tendo grandes chances de vingarem.

O melhor de tudo é que, por ter um ataque formado por Rooney e Berbatov - que é um dos destaque da temporada até aqui - e Owen no banco, Ferguson não precisa depender necessariamente dos dois garotos em situações de emergência. Isso quer dizer que possuem menos chances de se queimarem ao serem "jogados na fogueira" e serem mal sucedidos. Entretanto, não deixa de ser curioso vê-los se destacando em momentos cruciais dos Red Devils, o que só prova o talento e o grande futuro que têm pela frente.

Imagem: BBC

27 de setembro de 2010

Voem, Baggies!

Acima de 14 times na tabela, o "Baggie Bird" tem surpreendido famosos transeuntes da Premier League

O primeiro jogo, o famigerado hábito de subir e, na temporada seguinte, descer e a indigesta tabela certamente deixaram o treinador Roberto Di Matteo preocupado. Mas o fato é que a derrota por 6 a 0 para o Chelsea, acompanhada de uma exibição horrorosa do goleiro Scott Carson, contraria tudo o que o West Bromwich Albion fez nas rodadas seguintes. As vitórias contra os teoricamente superiores Manchester City (pela Carling Cup), Sunderland e Birmingham e o empate diante do Tottenham no Hawthorns não são a melhor parte da história. As exibições seguras contra Liverpool e Arsenal em terrenos inimigos impressionam mais. Em Anfield, o revés por 1 a 0 foi o único golpe de sorte dos Reds na temporada, visto que os Baggies dominaram boa parcela do jogo. No Emirates, o fantástico triunfo por 3 a 2 - e o WBA abriu 3 a 0 - foi completamente merecido.

Não interessa se o goleiro do Arsenal consegue ser menos confiável do que Carson. Importa, sim, a facilidade do West Brom em articular suas jogadas. Facilidade que permitiu à equipe de Di Matteo criar inúmeras chances, ainda que com um esquema seguro, mas com forte chegada dos meias. Aliás, o 4-5-1 - com Odemwingie à frente -, que eventualmente transformava-se em 4-2-3-1, contou, durante todo o jogo, com cinco contratações fechadas no último mercado de transferências: o espanhol Pablo Ibáñez (ex-Atlético de Madrid), o irlandês Steven Reid (ex-Blackburn), o austríaco Paul Scharner (ex-Wigan), o inglês Nick Shorey (ex-Aston Villa) e o nigeriano Peter Odemwingie (ex-Lokomotiv Moscou). O raciocínio é meio reducionista, mas - vejam só - todos eles têm jogos pelas seleções de seus países. Os três primeiros chegaram ao Hawthorns sem custos. As capturas são ótimas.

O clube gastou menos de 10 milhões de libras com as nove aquisições no mercado de verão. Elas fortalecem um conjunto que vem de campanha muito sólida na segunda divisão. O West Brom, que perdeu Jonathan Greening e quatro coadjuvantes em relação à temporada passada, marcou 91 pontos e teve apenas sete derrotas em 46 jogos. A consistência durante um ano e dois meses de trabalho e o ínício de Premier League com dez pontos em seis partidas, todas contra adversários complicados, fazem-nos atribuir muito do esboço de sucesso dos Baggies ao treinador Roberto Di Matteo.

Após seis bons anos como jogador em Stamford Bridge, o comandante do West Brom integra, ao lado de Gianluca Vialli e Gianfranco Zola, uma família de treinadores italianos que coheceram o futebol inglês através do Chelsea. E Di Matteo dá toda a pinta de ser o melhor deles. A ótima campanha na League One com o Milton Keynes Dons, que, com a terceira posição na "temporada regular" em 2008-09, perdeu a vaga no Championship apenas nos playoffs, levou-o ao West Bromwich, equipe que quase sempre vai bem na segunda divisão, mas habitualmente não incomoda ninguém na Premier League. E é aí que a mentalidade de Di Matteo, que ascendeu à elite com muita facilidade, faz a diferença: "Sempre acreditei que podemos roubar pontos dos grandes. Temos a sensação de que podemos competir na liga", sentencia.

Balanceando-se entre o jogo atirado de Ian Holloway no Blackpool e a excessiva cautela - acompanhada do fatalismo contra o rebaixamento - de Mick McCarthy no Wolverhampton, Di Matteo conseguiu tornar o WBA competitivo. Apostando em uma defesa sólida (que sucumbiu apenas na primeira rodada) e na eficiente chegada dos wingers Chris Brunt e Jerome Thomas no suporte a Odemwingie, o italiano pode até sofrer goleadas, mas a tendência é que arranque muitos pontos fora do Hawthorns. Considerando que não precisa mais enfrentar Liverpool, Arsenal e Chelsea fora de casa, não é exagerada a tese de que os dez pontos conquistados já afastam o WBA do rebaixamento, único aspecto com que Di Matteo deve se preocupar.

Vale, portanto, esclarecer: os Baggies não têm bola para a primeira metade da tabela. Não parece haver, em longo prazo, maneiras de competir em pontuação com Everton, Birmingham e Sunderland, por exemplo. No entanto, a fase final da campanha não precisa assemelhar-se ao do Hull City de dois anos atrás. Com sagacidade no mercado, especialmente na captura de jogadores de outras ligas, que fatalmente aceitariam jogar no West Bromwich por conta do fator "Premier League", e correndo riscos na medida certa fora de casa, marcar mais de 40 pontos não é tarefa impossível.

Imagem: Site do WBA

23 de setembro de 2010

Desprezando a Carling Cup

A terceira rodada da Carling Cup (Copa da Liga Inglesa) reservou uma série de surpresas aos fãs do futebol da Terra da Rainha. Ao menos cinco times que estavam na lista de candidatos ao título da competição acabaram sendo eliminados precocemente: Liverpool, Manchester City, Tottenham, Everton e até mesmo o Chelsea já estão fora do torneio. Certamente um "fenômeno" curioso e que encontra respostas nas escalações iniciais de cada time.

Uma rápida olhada nos titulares das equipes citadas acima faz os mais desavisados acharem que a competição em questão era uma daquelas disputadas entre times formados por reservas, preteridos e juniores, e não a Carling Cup. Sobretudo Liverpool, City e Tottenham mandaram a campo times recheados de reservas e jovens desconhecidos, cheio de jogadores que seriam reconhecidos apenas por fanáticos pelos respectivos clubes ou por Football Manager. O resultado disso pode ser visto nos resultados finais. Resultado que evidencia um equívoco, se não um erro grosseiro, dos seus treinadores.

Contra o Northampton, da 4ª Divisão Inglesa, Roy Hogdson poupou todos os seus titulares e escalou um time com garotos como Kelly, Spearing, Wilson e Pacheco. A tarefa realmente parecia muito fácil, mas a verdade é que deixou Anfield com um improvável e amarga derrota

Tudo bem que a Copa da Liga não é a competição mais badalada da Inglaterra; aliás, de todas que um time inglês pode disputar, contando as europeias, é a que menos chama a atenção. Porém, ao final de fevereiro, oferece algo muito valioso: mais um título para a história do clube - coisa de que muitos treinadores se esqueceram ao arriscar colocando times praticamente reservas e inexperientes em campo, o que é muito diferente do que querer poupar somente alguns titulares para jogos mais importantes da Premier League.

E é justamente por isso que Liverpool, Man City e Tottenham foram destacados no segundo parágrafo, quando qualquer time que tivesse poupado seus principais jogadores poderia ter sido citado. Os três clubes figuram em qualquer lista que cite os clubes ingleses que podem conquistar algum título nessa temporada. Porém, analisando friamente, a chance de algum deles ganhar a Premier League é quase nula, e no momento somente os Citizens parecem ter capacidade de conquistar a Liga Europa - e mesmo assim poucos já colocariam a mão no fogo para apostar neles. Ou seja: a maior esperança de se conquistar algo teria de ser depositada justamente nas copas domésticas, sendo que uma chance agora já foi desperdiçada.

Roberto Mancini, querendo poupar jogadores para o próximo sábado, escalou um time cheio de nomes desconhecidos, como Mee, Vidal, Cunningham e Guidetti. Foi eliminado pelo West Brom, perdeu boa chance de conquistar um título e ainda não achou a derrota tão grave...

É nessas horas que não dá para entender o que se passa na cabeça de um treinador que dirige uma equipe que necessita urgentemente de títulos. Os Spurs pelo menos conquistaram a própria Copa da Liga em 2008, mas os Reds não conquistam nada desde 2006, quando abocanharam a Copa da Inglaterra, enquanto os Citizens, coitados, não festejam algo decente desde 1976! Além disso, a expectativa sobre todos para essa temporada é muito alta, e mesmo um título um tanto quanto menosprezado como a Carling Cup seria útil aos comandados de Roberto Mancini, que precisa provar que os milhares de euros não estão sendo gastos a toa, ou ao conjunto de Roy Hodgson, que está em queda livre e precisa se reerguer com alguma façanha. Enfim, uma eventual conquista seria pelo menos um prêmio de consolação.

As falhas nas escalações de certos treinadores agora é visto numa simulação de possíveis finais. O caminho está aberto a uma mais tradicional, contendo Manchester United, Arsenal, um embate entre os dois, ou até mesmo uma mais alternativa, entre clubes como Stoke, Birmingham e West Ham - o que até seria bem interessante...

E Chelsea e Everton? - Como dito antes, os dois clubes também poderiam estar entre os favoritos, mas já caíram. Porém, Carlo Ancelotti e David Moyes se saíram melhor, já que escalaram equipes mistas, misturando medalhões com alguns reservas. A derrota dos Blues até é desculpável, já que possuem grandes chances de conquistar um título mais expressivo na temporada; porém, a dos Toffees mostra apenas que as coisas não estão nada bem para os lados de Goodison Park. O elenco é muito bom, mas os resultados não aparecem e a má fase certamente já começa a preocupar.

Imagens: A Bola e Daily Mail