13 de dezembro de 2010

Terra de instabilidade

Sam Allardyce, no começo do trabalho no Bolton: saudade de um tempo de estabilidade, ainda que sem abundância

Os proprietários indianos do Blackburn surtaram. Se Raj Koothrappali precisa ingerir bebida alcoólica para conversar com mulheres em The Big Bang Theory, os novos mandatários dos Rovers demitiram Sam Allardyce plenamente conscientes. Até por isso, a atitude soa incompreensível. Big Sam chegou ao Ewood Park na metade final de 2008-09. Salvou do rebaixamento uma equipe que parecia perdida a certa altura da temporada. Na seguinte, levou o Blackburn à ótima 10ª posição. Agora, na 13ª, cai sem nenhuma explicação. Sete a zero em Old Trafford e jogo feio, com esse orçamento, não são argumentos.

A demissão de Big Sam dos Rovers vem alguns dias depois da de Chris Hughton do Newcastle. Allardyce, vale lembrar, foi dispensado do Newcastle, há três anos, também por Mike Ashley, algoz de Hughton. Na temporada passada, Steve Bruce, do Sunderland, reagiu com desgosto à atitude da cúpula do Manchester City de mandar Mark Hughes embora: "os treinadores britânicos não têm estabilidade!". Hughton é futebolisticamente irlandês, mas também se enquadra no grupo dos caseiros. Não há, porém, perseguição aos treinadores locais. Por exemplo, Bruce, mal na temporada passada, ganhou muito tempo - talvez mais que o normal - para arrumar o Sunderland. Há certa tendência à instabilidade, um tanto maior que em outros tempos, mas tudo depende do comportamento de cada diretoria.

A do Manchester City, endinheirada, não costuma hesitar na hora de se desfazer de alguém. No entanto, a pendência atual exige muita calma. De onde vem o pedido de transferência de Tévez? Oficialmente, trata-se da antiga insatisfação com o mundo, que tem sido frequentemente manifestada há muitos anos: saudade das filhas, da cumbia. Está claro, contudo, que pode haver conselhos descabidos de seu agente, Kia Jooraabchian. Afinal, o que tem a ver uma requisição de transferência com um eventual retorno à Argentina? Tévez, no máximo, sairia para Itália ou Espanha, mais calientes, porém quase igualmente distantes de Florencia e Katie.

Kia à parte, Tévez é um profissional ambíguo. É quase perfeito em campo, mas tem feito uma algazarra - não no sentido Adriano do negócio - fora dele. Carlitos é o principal jogador e o capitão do City. O time venceu o West Ham sem ele, mas não se sustentará na corrida pelo título e pode ter problemas na luta pelo quarto posto caso ele vá embora. Não é possível, com uma ou duas aquisições em janeiro, forjar o encaixe ao time e a capacidade prática de Tévez, uma espécie de MVP da Premier League. A princípio, a diretoria disse "não" ao pedido do argentino. O ideal é dialogar muito, como fez o United com Rooney, para evitar sua saída por conta de uma possível confusão de bastidores. O fato é que o caso de Robinho, problemático e ineficiente em Eastlands, não pode ser equiparado ao do capitão.

Aliás, o Manchester United, inspirado pelo capitão Vidic e seu parceiro Ferdinand, derrotou o Arsenal por 1 a 0 e descolou uma ótima vantagem na liderança. Os Red Devils, com normais 70,8% de rendimento, podem, por exemplo, abrir nove pontos para o Chelsea se vencerem em Stamford Bridge e aproveitarem os três pontos do jogo que não disputaram. Invicto e sólido, mas tendo produzido menos exibições impressionantes que os outros quatro postulantes, o United é o melhor time de um primeiro turno marcado pelos vacilos do Arsenal e a queda do Chelsea, vertiginosa, mas claramente passageira.

Imagem: BBC

9 de dezembro de 2010

Não houve injustiça

Para Wayne Rooney, a Copa do Mundo, além de minar suas chances de ser indicado à Bola de Ouro, só serviu para que entrasse em atrito com os torcedores ingleses

Não deixou de ser injusta a escolha dos finalistas a Bola de Ouro, divulgada na última segunda-feira. Nada contra Xavi e Iniesta, que foram muito bem durante o ano com o Barcelona e ainda levaram a Espanha ao inédito título mundial. Também nada contra Messi, que continuou jogando em alto nível, embora não tenha sido sensacional durante a Copa do Mundo, como se esperava. Porém, Sneijder não poderia ter sido esquecido: o meia holandês foi fundamental na fantástica temporada vivida pela Inter de Milão, assim como foi um dos pilares de sua seleção na África do Sul. Outro que poderia ter sido lembrado era Forlan, melhor jogador da Copa, comandante da Celeste em solo africano e consertador das besteiras feitas por Muslera no gol.

Porém, ninguém se lembra de Rooney. Com justiça, no entanto: o ano que teve, com diversos problemas dentro e fora do campo, foi para ser esquecido. Mas é cruel pensar que, até abril, no fatídico jogo contra o Bayern de Munique em que se machucou e viu sua equipe ser eliminada da Champions League, o camisa 10 do Manchester United era um dos favoritos ao prêmio de melhor do mundo.

Até então, sua fase era realmente sensacional. Era o dono do time, ofuscava qualquer jogador que tentasse ser o destaque da equipe e havia marcado tantos gols que, mesmo sem jogar a reta final da temporada, teve o seu recorde de gols na carreira; aliás, só não foi o artilheiro da Premier League porque Drogba marcou impressionantes 29 gols.

Porém, o que se viu depois daí foi um filme de horror. Como quase todos os jogadores do English Team, fez uma péssima Copa: embora tentasse ser voluntarioso, estava completamente fora de ritmo e teve atuações pífias. Na verdade, suas chances de ganhar o prêmio de melhor do mundo acabaram ali: não havia como conseguir tal feito com uma Copa ruim nas costas e vendo outros jogadores sendo mais decisivos na Champions League. E como se não as coisas não pudessem piorar, ainda viu problemas pessoais e uma novela para renovar seu contrato com os Red Devils minarem sua recuperação no começo da atual temporada. Dessa maneira, só seria finalista à Bola de Ouro se pagasse a todos da Fifa.

Rooney tem talento de sobra para reverter esse quadro e, um dia, concorrer ao prêmio dado pela Fifa. Se repetir o que fez na temporada passada - quando quase carregava seu time nas costas -, mas desta vez conquistar títulos, ficará muito perto do feito. Porém, ganhar a Champions League será quase fundamental: em anos em que não há Copa, geralmente o melhor do ano é algum jogador que se destacou na competição européia, como aconteceu com Kaká, Cristiano Ronaldo e Messi recentemente.

Mas para isso, Shrek precisa melhorar seu desempenho em campo. Rooney, embora não venha jogando mal, ainda está longe de reeditar suas grandes atuações do passado recente. Até agora, em dez jogos na temporada, marcou apenas duas vezes; no Manchester United, ainda não voltou a ser o destaque do time, posto que atualmente pertence a Nani. Porém, depois de tantos problemas e contusões, até é compreensível que não volte jogando em alto nível como antes. O que não pode acontecer é se acomodar com essa condição.

Balanço positivo - Pode-se dizer que o desempenho inglês na Champions League, até agora, é muito bom. Todos os times da Terra da Rainha passaram de fase: enquanto o Arsenal ficou em segundo no Grupo H, Chelsea e Manchester United, mesmo sem brilharem, ficaram em primeiro nos seus respectivos grupos, assim como o Tottenham. Um rendimento já melhor do que no ano passado, quando a Inglaterra viu um de seus "filhotes", o Liverpool, cair na fase de grupos.

Até o momento, é impossível relacionar Champions League e Inglaterra sem citar o Tottenham. Os Spurs são a sensação da competição: foram líderes de um grupo que tinha a Inter de Milão, bateram os italianos em White Hart Lane e ainda mostraram a toda Europa quem é Gareth Bale, destaque inicial do torneio, depois do winger atordoar o lado direito da defesa nerazzurra em ambos os confrontos. O time de Harry Redknapp pode até mesmo chegar às quartas-de-final, já que provavelmente terá um adversário mais tranquilo nas oitavas. O que não pode se dizer do Arsenal, que, por ter conseguido a proeza de ser o segundo no grupo mais fácil, provavelmente terá pela frente um dos grandes clubes europeus na próxima fase. Por isso, foi o destaque inglês negativo até aqui.

Imagem: The Guardian

7 de dezembro de 2010

A injusta demissão de Hughton

Após confiar a capitania ao recém-contratado Geremi e perder o rumo na gestão do elenco, Big Sam foi o primeiro a conhecer a fúria de Mike Ashley

O Newcastle, recém-promovido, é o 11° colocado na Premier League. Goleou o Aston Villa e o ferrenho rival Sunderland, venceu o Arsenal no Emirates, empatou com o Chelsea. Teve, é claro, resultados decepcionantes, como a goleada em Bolton e as derrotas caseiras para Stoke e Blackburn. Os 19 pontos em 16 jogos não são, entretanto, uma tragédia. Não para quem interpretaria a conquista de um posto na metade superior da tabela como uma temporada absolutamente bem sucedida.

O cenário, mesmo associado à ótima postura dos Magpies na segunda divisão em 2009-10, não foi suficiente para segurar o ímpeto e a tendência à instabilidade do proprietário Mike Ashley. A mesma figura que demitiu Sam Allardyce após meia temporada de trabalho escolheu mandar Hughton embora. O treinador irlandês, antes de assumir o cargo em maio de 2009, já havia participado efetivamente de tempos difíceis no Newcastle. Ele treinou o time em três partidas, no intervalo entre a saída de Kevin Keegan e a chegada de Joe Kinnear, há dois anos.

Aliás, o último treinador a conduzir o Newcastle a uma boa fase havia sido Keegan, que ficou no St. James' Park entre janeiro e setembro de 2008. Sucessor de Allardyce, Keegan mudou os Magpies quando passou a ser mais agressivo, utilizando três atacantes: Owen, um pouco mais recuado, Martins e Viduka. Assim, ele salvou o clube do rebaixamento em 2007-08. No início da temporada seguinte, Kevin entrou em rota de colisão com diretores do clube, alegando que não recebia o suporte financeiro necessário para que assegurasse uma boa campanha.

Keegan, demitido, tinha razão. Joe Kinnear, que precisou pedir licença por conta de um problema cardíaco, e Alan Shearer sucumbiram com o Newcastle, rebaixado ao Championship. Daí, Chris Hughton voltou, efetivamente, ao comando em St. James' Park. Em um ano e meio, reconduziu o clube à Premier League e venceu quase 60% dos jogos (38 vitórias, 11 empates e 15 derrotas), um recorde na história dos Magpies.

A trajetória em 2010-11 não merece elogios ou esculhambações. Hughton oferecia ao Newcaste exatamente o que se imaginava: agressividade para atingir o aproveitamento que manteria a equipe fora da zona de rebaixamento. Mais ou menos o que havia feito Keegan em 2008. Hughton gosta do esquema com double pivot, especialmente com o ótimo Carroll à disposição. Ameobi e Lovenkrands não são exatamente bons parceiros, mas contribuem para manter o padrão. Kevin Nolan, sempre chegando perigosamente à área do oponente, e seus sete gols na liga são absolutamente fundamentais. O capitão Nolan, por sinal, perdeu uma serie de partidas em novembro, justamente as da sequência negativa que culminou na demissão de Hughton.

Nos últimos seis jogos, o Newcastle acumulou cinco pontos, mais do que o Everton, tanto quanto o Chelsea. A campanha recente é, sim, muito fraca. Mas numa temporada de ups e downs, não se pode crucificar, por meia dúzia de partidas, um treinador que fazia um bom trabalho de reconstrução. Ou alguém contesta vorazmente David Moyes, há oito anos em Goodison Park? Mike Ashley, o proprietário fanfarrão, pode ser punido por, mais uma vez, não perceber até onde seu presunçoso chapéu pode chegar. E demitir um treinador antes de uma sequência de seis jogos em 26 dias.

Imagem: Team Talk

2 de dezembro de 2010

O Arsenal agradece

Arsène Wenger pode até tentar, mas não consegue esconder a alegria de ver o Manchester United fora da Carling Cup. O Arsenal, agora, é considerado o grande favorito ao título

Se há alguém que deve agradecer pelos resultados da Carling Cup, este é Arsène Wenger. Com a eliminação do Manchester United - e, em menor grau, com a do Aston Villa -, o Arsenal é o grande favorito ao título. Com a competição já nas semifinais, os Gunners têm a grande chance de quebrar a incômoda marca de cinco anos sem conquistas.

Porém, nada disso seria possível sem a ajuda do West Ham. E os Hammers, últimos colocados da Premier League, foram fantásticos ao aproveitarem a chance que tiveram de golpear os Red Devils, que jogaram com um time majoritariamente reserva. Sir Alex Ferguson pode ser um dos treinadores mais "reclamões" que o futebol já viu, mas esteve coberto de razão ao lamentar o efeito que teve o gol anulado do West Ham marcado por Obinna, que abriria o placar em Upton Park. Segundo o escocês, o tento, mesmo anulado, representou a mudança que viria a acontecer no jogo.

Até então, o Manchester United era melhor na partida, criava mais e já havia colocado uma bola na trave. Porém, o gol anulado acabou dando confiança ao time da casa. Foi a partir daí que o West Ham, mesmo sem ser brilhante, conseguiu sair mais para o jogo, marcando quatro gols e definitivamente colocando tal jogo na história recente do clube.

E se o West Ham marcou quatro vezes, pode-se dizer que isso ocorreu graças àquele que talvez possa ser considerado o maior problema da equipe de Ferguson na temporada: o sistema defensivo. Todos os gols da equipe do ainda ameaçado Avram Grant saíram através de falhas de jogadores de defesa, algo que já custou alguns pontos preciosos desperdiçados na Premier League (como nos improváveis empates contra West Brom, em casa, e Everton, fora) e que agora resultou numa pesada derrota - incrível e curiosamente, a primeira na temporada.

A diferença é que dessa vez as falhas passaram do âmbito coletivo para o individual. No primeiro gol, O'Shea e Fletcher deixaram Spector livre para marcar. No segundo, um escorregão de Fábio foi decisivo para nova finalização certeira de Spector. No terceiro, Evans perdeu facilmente o duelo aéreo para Carlton Cole. E no derradeiro gol, Evans sofreu um drible de Cole: desmoralizante, de tão fácil que foi. A conclusão que ficou é que, atualmente, os Red Devils precisam mais do que nunca da presença de Vidic e Ferdinand em campo, pois os outros já mostraram que não dão conta do recado.

Não se pode, no entanto, deixar de parabenizar o nigeriano Obinna. O atacante não fez nenhum gol, mas participou dos quatro e ainda infernizou a já fragilizada defesa adversária. De longe o melhor em campo, o ex-jogador da Inter de Milão faz boa temporada e desafoga o ótimo mas sobrecarregado Parker, que não atuou na terça.

Enquanto isso, o Arsenal derrotou o Wigan por tranquilos 2 a 0 no Emirates Stadium, carimbando sua vaga para a semifinal e, como já dito, ganhando a condição de grande favorito ao título. E como se não bastasse a saída dos Red Devils, o Arsenal ainda ganhou um belo presente: nas semifinais, irá enfrentar o Ipswich Town, time da 2ª divisão inglesa (Championship), comandado pelo lendário Roy Keane. Vindo de quatro derrotas consecutivas na competição nacional e estando em uma perigosa 17ª posição, os Tractor Boys não deverão impor muitas dificuldades ao time de Wenger. Sendo assim, é muito provável que chegue à final, onde encontraria um de dois times que não fazem boa temporada: Birmingham e West Ham, que estão em 14º e 20º na Premier League, respectivamente. Presente maior do que esse, só se já colocassem o troféu na devida galeria dos Gunners.

Reoxigenação - Uma coisa é certa: para o bem da competição, será bom não ter o Manchester United como campeão. Isso porque os Red Devils, até mesmo por terem conquistado recentemente títulos da Champions League e da Premier League, não dão o merecido valor ao torneio.

Isso ficou visível nos dois últimos anos, quando Ferguson levou seu time à conquista da competição: enquanto Tottenham e Aston Villa escalaram força máxima e ainda assim perderam, o Man Utd preferiu mandar a campo um time misto, poupando titulares importantes. De quebra, em certos momentos nem pareciam ter conquistado mais um título, e sim apenas ganhado um grande jogo. Para o bem do torneio, então, será uma boa ver times menores e que dão mais valor a tal conquista no topo - até mesmo o Arsenal, time grande, mas que não levanta um troféu desde 2005.

Só isso? - Não seria muito surpreendente um resultado negativo dos ingleses na tentativa de abrigar a Copa do Mundo de 2018. Após algumas acusações da imprensa britânica a certos escândalos na Fifa nos últimos dias, houve quem visse nos episódios o naufrágio da outrora favorita candidata a sediar o Mundial.

Pois bem, a escolhida pela Fifa acabou sendo a Rússia. Mas o que chamou a atenção foi que a ex-favorita Inglaterra foi praticamente massacrada na votação, sendo a primeira candidata eliminada com míseros dois votos. E isso tudo depois de Joseph Blatter muito elogiar a apresentação dos ingleses. Retaliação? Bem, a verdade é que, para quem até há pouco tempo estava tão bem na disputa e depois passou a ser mal vista por ter "atacado" (não sem razão) a entidade-mor do futebol, o inexpressivo desempenho é muito suspeito...

Imagem: Daily Mail

1 de dezembro de 2010

Denso dezembro

Frank: na alegria e na tristeza, fundamental

Por meio da seleção de acontecimentos representativos, o historiador britânico Eric Hobsbawm limitou "o breve Século XX" a um intervalo entre 1914 e 1991. Pela tradicional pesada sequência de jogos, podemos dizer que o denso mês de dezembro para a Premier League começa no próximo sábado e vai até 5 de janeiro. Se as condições climáticas permitirem, vai haver 70 jogos da Premier League no período. É óbvio que quaisquer outras sequências de sete rodadas são igualmente fundamentais, mas, em função da grande concentração de jogos em pouco tempo, um mês de crise não passará impune. Daí, falamos em quatro das várias questões que podem determinar a tabela ao fim da maratona:

Quais os efeitos da gloriosa noite em Upton Park? Dois gols de Spector, ex-Manchester United. Três assistências de Obinna. Assim, o West Ham, último colocado na Premier League, eliminou os Red Devils da Carling Cup com fantásticos 4 a 0 em Londres. Sim, Ferguson preservou vários titulares. Mas ele não contava com essa, não esperava perder. Por isso, dá para dizer que o escocês pagou sua dívida com Grant, o treinador do Chelsea na decisão da Champions em 2008, quando Terry e Anelka entregaram o título ao United. Resta saber qual será o impacto da goleada sobre a postura dos Hammers. Os alvos mais realistas ainda são Blackpool (11º) e West Bromwich (12º), sete pontos à frente. Confrontos do West Ham: Sunderland (f), Manchester City (c), Blackburn (f), Fulham (f), Everton (c), Wolves (c) e Newcastle (f).

Os meias centrais do Aston Villa vão se manter saudáveis? Petrov, Ireland, Reo-Coker, Clark, Sidwell e Delph chegaram a ficar simultaneamente lesionados. A responsabilidade dos jovens Bannan e Hogg cresceu abruptamente. Clark, Reo-Coker e Ireland estão teoricamente prontos para a maratona. Mas a liderança de Petrov, antigo homem de confiança de O'Neill no Celtic e no Villa, passará longe de campo até fevereiro. Menos por Houllier do que pelas contusões e a falta de profundidade, o time, eliminado da Carling Cup pelo rival Birmingham e na 15ª posição da liga, está meio perdido. As pretensões, ainda mais com a sequência complicada, parecem restritas a uma permanência confortável na elite. Confrontos do Villa: Liverpool (f), WBA (c), Wigan (f), Tottenham (c), Manchester City (f), Chelsea (f), Sunderland (c).

O que Mancini pensa sobre Adam Johnson? O gol marcado contra o Red Bull Salzburg na Liga Europa ratificou o caráter inexplicável da posição de Johnson no elenco do Manchester City. Milner rende muito mais como meia central, mas Mancini insiste em escalá-lo aberto. Johnson, Silva e Balotelli, como eventuais meias no 4-2-3-1, poderiam ajudar Tévez a atribuir mais profundidade ao time. As ambições do City passam necessariamente por mais ousadia. A rotação que Mancini impõe aos meias - e, na cabeça dele, Yaya Touré é meia - não é imposta aos aparentemente intocáveis De Jong e Barry. Confrontos do Manchester City: Bolton (c) - veja como Kevin Davies, capitão do Bolton, provocou os rivais de sábado -, West Ham (f), Everton (c), Newcastle (f), Aston Villa (c), Blackpool (c) e Arsenal (f).

Lampard vai jogar regularmente? O Chelsea precisa de seu vice-capitão para superar - ou pelo menos acompanhar - Manchester United e Arsenal. Aos 27 anos, Lampard atingiu a marca de 164 jogos consecutivos na liga. Aos 32, sua condição física parece bem distante daquela que, aliada à capacidade técnica, transformou-o no melhor jogador da era Mourinho. Após semanas fora de combate por contusão na virilha, ele pode ainda não retornar contra o Everton, no sábado. Apesar dos problemas físicos, Lampard segue insubstituível e, em forma, pode subverter a péssima herança de novembro. Em 2009-10, foram incríveis 22 gols e 17 assistências na liga. Preste atenção à sequência dos Blues. Confrontos do Chelsea: Everton (c), Tottenham (f), Manchester United (c), Arsenal (f), Bolton (c), Aston Villa (c) e Wolves (f).

28 de novembro de 2010

Além do arremesso

A imagem resume Rory Delap, mas não o Stoke de Tony Pulis

Sanli Tuncay, com um toque de calcanhar, assistiu Etherington, que determinou o empate do Stoke contra o Manchester City ao apagar das luzes, no Britannia Stadium. O gol ajudou a estabelecer também a primeira rodada completa da história da Premier League sem clean sheets. Sim, todos os 20 times marcaram. O lance, além de simbolizar a excelente temporada na Inglaterra, representa a capacidade de trabalho dos Potters, costumeiramente tachados de todos os defeitos imagináveis.

O Stoke faz temporada razoável. A instabilidade, caracterizada pela sequência de três derrotas, quatro jogos de invencibilidade, mais quatro reveses e outras quatro partidas sem perder, é ótima para quem luta contra o rebaixamento. Pense no Wigan de 2009-10, de saldo -42, o pior da liga. Os Latics não caíram porque venceram nove vezes em 38 jogos. O Stoke de 2010-11 já acumula seis triunfos em 15 partidas. A questão é: o objetivo de Tony Pulis não se limita a salvar seu time da queda. O saldo acumulado de gols nas duas primeiras temporadas na Premier League foi de -31. Nesta, após mais de um terço do campeonato decorrido, os Potters marcaram tanto quanto sofreram e, assim, podem pensar na primeira metade da tabela.

Nos últimos quatro jogos, o Stoke embolsou 10 pontos. No Britannia, derrotou Birmingham e Liverpool e empatou com o Manchester City. No Hawthorns, atropelou o West Bromwich. Sempre adotando o corajoso 4-4-2 com double pivot, Pulis tem um conjunto que se defende com relativa eficiência e agride muito o oponente. Um dos recursos para efetivar essa agressividade é o poderoso arremesso lateral de Rory Delap, que, diretamente, tem gerado poucos gols, mas sempre põe a defesa adversária em perigo.

Os mísseis de Delap são meramente um artifício, ao qual a regra abre espaço e, mais importante, que não fere nenhum princípio ético. No Tottenham, Crouch é ótimo atacante, mas não é mais habilidoso ou melhor finalizador do que Defoe. No entanto, Redknapp prefere utilizá-lo para assistir, com a cabeça, quem vem de trás: geralmente van der Vaart, em jogada que simplesmente destruiu o Aston Villa há dois meses, em White Hart Lane. Crouch não tem seis assistências no campeonato - uma delas hoje, para Lennon, contra o Liverpool - porque é criativo, mas porque é grande. E Delap é titular porque tem força nos braços.

É no mínimo estranho alguém querer ensinar ao Stoke como se joga futebol. Assim como Redknapp sacrifica um aspecto do jogo para contar com Crouch, Pulis abre mão de Whelan, mais combativo do que Delap, para recorrer aos poderosos arremessos. Não é esteticamente admirável, mas faz parte do repertório de um time longe de ser brilhante. Por esta e, especialmente, por outras qualidades, os Potters, que estrearam na Premier League em 2008-09, devem chegar com tranquilidade à quarta temporada consecutiva na elite. A manutenção faz o clube evoluir, contratar figuras como Kenwyne Jones, por oito milhões de libras.

O elenco do Stoke melhorou muito nos últimos anos. Gudjohnsen, Tuncay e Walters são apenas alternativas. Há dois bons goleiros: Sorensen e Begovic. Shawcross e Jones são ótimos, seriam titulares na maioria dos times da Premier League. Mas o Stoke ainda é, para muitos, o time dos estereótipos. Está claro, entretanto, que uma equipe que vence Newcastle, West Bromwich (conjuntos que derrotaram o Arsenal no Emirates) fora de casa e arranca quatro pontos de Manchester City e do então ascendente Liverpool tem qualidades que vão além do mero artifício dos arremessos laterais. E não é tão ríspido quanto a ideia que muitos fazem da entrada de Shawcross sobre Ramsey, na temporada passada.

Por mais segurança defensiva, Huth é o lateral-direito. Assim como Ivanovic no double do Chelsea na temporada passada e Stam no Milan de 2005-06. Pennant, ex-Liverpool, foi emprestado pelo Zaragoza para oferecer mais velocidade por esse lado. Shawcross, capitão do time, defende como poucos na liga. Etherington, que marcou hoje contra o City, é também um winger decente. Jones compensa as limitações de Fuller. Tuncay, nos segundos tempos, sempre representa ótima alternativa. No fim das contas, o Stoke é criticado por ter nível técnico similar ao do Wolverhampton, por exemplo. A questão é que Pulis sabe explorá-lo ao máximo, faz seus jogadores trabalharem como um verdadeiro time e coloca os Potters na oitava posição da liga, à frente de Liverpool, Aston Villa e Everton.

FA Cup on fire. O sorteio da terceira rodada ratificou o baixo astral do Liverpool na temporada: confronto, em Old Trafford, contra o Manchester United. Por falar em Red Devils, o vencedor entre Brighton e FC United de Manchester, clube criado há cinco anos por torcedores revoltados com o modelo de administração dos Glazer em Old Trafford, enfrenta o Portsmouth. No Emirates, o Arsenal recebe o Leeds United, que, mais uma vez, viu a sorte passar longe de Elland Road. Será o ótimo Jonathan Howson o Beckford desta temporada?

Imagem: Telegraph

25 de novembro de 2010

Candidatura enganosa

Wenger revolucionou o Arsenal. Agora, ele precisa se reinventar

O Arsenal, mais uma vez, goleou uma equipe portuguesa em Londres e perdeu em terreno lusitano em seu grupo na Champions. Há dois anos, 4 a 0 sobre o Porto no Emirates e troco parcial dos azuis e brancos, por 2 a 0, no Estádio do Dragão. Desta vez, o surpreendente Braga, que havia levado 6 a 0 na Inglaterra, superou os de Wenger por 2 a 0 em Portugal. Há sistemáticas oito temporadas, o Arsenal enfrenta adversários teoricamente simples na fase de grupos.

No entanto, como em dois dos últimos três anos, deixou a liderança escapar. Sim, porque é muito improvável que o Shakhtar, três pontos à frente, não vença o Braga em Donetsk, na última rodada. Além de ver distantes o primeiro posto e a perspectiva um oponente fraco nas oitavas-de-final, os Gunners ainda precisam derrotar o Partizan para eliminar completamente a chance de os minhotos, pontuando na Ucrânia, proporcionarem uma desastrosa eliminação.

Curiosamente, o Arsenal de Wenger faz valer a máxima da "competição diferente", independente de desempenhos paralelos. Na Premier League, o conjunto acumula mais pontos fora (aproveitamento de 67%) do que em casa (57%). Na Champions, a lógica é atropelar os adversários no Emirates e cair em terreno inimigo. Arsène, para explicar o que acontece em âmbito doméstico, adota o tradicional discurso de "o adversário vem fechado; fora, temos espaço para jogar". Os oponentes da Champions são frágeis, e os outros ambientes, estranhos. Na Inglaterra, a defesa não suporta os contra-ataques. Na Europa continental, o ataque não cumpre seu papel.

O Arsenal se redimensionou em pouco tempo. O time mais espetacular da história do clube, consistente de 2001 a 2004, tinha várias referências. Este não tem. Depende muito de Fàbregas. O espanhol é a autêntica liderança que se impõe pelo estilo de jogo. Não é, aos 23 anos, capitão por acaso. A propensão de Cesc a contusões, porém, apresenta-se como o primeiro obstáculo a esse sistema: serão mais duas semanas fora de combate. Nasri, que faz ótima temporada, deve voltar a ser jogado aos leões na organização. Com ou sem lesões - e elas sempre vêm -, a excessiva dependência não é compatível com o eterno discurso de "chegou a hora". E aqui a questão deixa de ser a demasiada juventude. Nossos olhos se voltam à atitude de clube vendedor.

É irresistível a sensação de que Touré e Adebayor, liberados para o Manchester City em 2009, podem representar a diferença entre o título e mais uma temporada de ótimas exibições e inexplicáveis escorregões. O Arsenal, de Squillaci, Koscielny e Chamakh, tem pontos fracos fatais: defende-se mal e pode não decidir quando precisa. A lesão de Vermaelen, no início do mês, também pesa. Mas nada torna aceitáveis os nove gols sofridos em sete jogos em casa. Em três destes, aliás, o Arsenal não pontuou: com sete gols marcados, West Bromwich, Newcastle e Tottenham venceram no Emirates. Um índice plausível de sete pontos levaria o Arsenal ao primeiro posto da Premier League, com cinco de vantagem para os hoje líderes Chelsea e Manchester United.

Aliás, um Chelsea titubeante e um United sem referência representam a melhor chance de o Arsenal ganhar o campeonato. O eventual título seria o primeiro desde 2005*, quando os Gunners conquistaram a FA Cup, um hábito na primeira metade da década. Sim, são cinco anos de fracassos, da Carling Cup à Champions (ainda que, em 2006, a jornada europeia tenha sido excelente). Hoje, entretanto, é impossível destituir o Chelsea do posto de favorito (ainda evidente, para ser honesto).

Não se pode, é claro, descartar o Arsenal, mesmo limitado à mediocridade da manutenção de um elenco, pequeno, cheio de jovens que às vezes não completam seu ciclo de evolução - há quanto tempo o grupo tem baixa média de idade? Sem Touré e Adebayor, os Gunners não têm o que até o Liverpool de Hicks e Gillett ostentava: um zagueiro forte (Skrtel) e um atacante poderoso (Torres). O Bolton, com Knight e Elmander, também parece mais bem atendido nesse aspecto. E o Arsenal, com quem podia contar há algumas temporadas? Campbell e Henry.

Outro ponto que chama a atenção é a postura de Wenger. Ele parece se sentir impotente, como se estivesse dirigindo seu time em uma estreita avenida sem saída de apenas uma mão. Extremamente irritado, como quando atirou contra o chão uma garrafa d'água, no terceiro gol do Tottenham no sábado (assistir ao vídeo abaixo), o treinador argumenta superficialmente, quase como um adepto do chororô. Rosicky, Arshavin e van Persie em fase difícil (física, clínica ou técnica) tornam suas opções escassas. Walcott, que poderia ajudar a superar o velho e mau aproveitamento que nunca renderá mais do que a terceira posição, teve a sequência quebrada por lesão.

O Arsenal, hoje terceiro e a dois pontos da liderança, ainda pode ser campeão inglês. Mas nada indica que um resultado surpreendente representaria o sucesso das escolhas de Wenger, de postura autossuficiente, de alguém que pode prescindir de alguns de seus principais nomes sem tanta resistência - Fàbregas, claramente, é um caso peculiar. Lembre-se do título espanhol do insosso Real Madrid de Capello há quatro temporadas: com 23 vitórias, oito derrotas e 76 pontos. O de Pellegrini não levou o título com 31 vitórias e 96 pontos. Esse Arsenal não é, quero dizer, melhor que o de cinco anos atrás, por exemplo. Um eventual - e improvável - sucesso será fruto, sim, dos bons recursos desse time, mas também dos constantes tropeços de Chelsea e United e da imaturidade de Manchester City e Tottenham como candidatos ao título.

*O Arsenal, é claro, pode conquistar uma das copas nacionais. Na Carling Cup, enfrenta o Wigan nas quartas-de-final.




Imagens: Wikipedia, Independent, The Mirror