21 de novembro de 2010

Ainda favorito, mas nem tanto

Chelsea de Carlo Ancelotti vacila na Premier League, mas ainda é o favorito ao título; porém, não mais de forma quase incontestável

Passadas quatorze rodadas, a Premier League começa a dar sinais de que pode ter um campeonato animado e disputado na parte de cima. A diferença entre o líder Chelsea e o sexto colocado Tottenham é de apenas seis pontos. A expectativa, porém, é de que no máximo quatro continuem na briga - e talvez tal estimativa seja otimista demais.

Embora estejam entre os seis primeiros, não é provável que Bolton e Tottenham briguem pelo título. Não que o ótimo conjunto de Harry Redknapp, mesmo com uma defesa abaixo do nível do resto do time, não tenha capacidade para isso: o problema é que a prioridade dos Spurs parece ser a Champions League; logo, enquanto estiverem disputando a competição europeia, é provável que o clube mantenha a sua rotina atual - grandes vitórias contra equipes fortes e derrotas e empates para outras inferiores. Já os Wanderers devem ficar muito satisfeitos caso consigam uma vaga para a Liga Europa: com o elenco que possuem, a conquista já deveria ser muito comemorada.

Contudo, a verdade é que isso tudo não seria dito se o Chelsea, grande favorito ao título, não tivesse fraquejado nas últimas rodadas. Após um início arrasador, os Blues levantaram dúvidas acerca do seu favoritismo ao título depois de perder jogos decisivos contra Liverpool e Manchester City e mostrar antigos problemas de falta de profundidade no elenco quando, cheio de desfalques, perderam para Sunderland e Birmingham.

Com o declínio recente do Chelsea - que conquistou apenas três dos últimos doze pontos possíveis -, vários times encostaram. Além dos já citados Bolton e Tottenham, Arsenal, Manchester City e sobretudo Manchester United estão muito próximos dos londrinos. Esses sim parecem ser candidatos a derrubar o favoritismo inicial de Drogba & Cia. Mas não sem ressalvas.

Arsenal e Manchester City, embora devam ser respeitados, talvez não sejam apostas muito confiáveis. Os Gunners continuam com a sina de vacilar quando assumem ou chegam perto da liderança; isso quando não desperdiçam pontos bobos antes de brigar pela primeira posição, como quando perderam para West Brom e Newcastle em casa. A equipe de Wenger, no final das contas, continua parecendo aquela que precisa amadurecer para chegar ao título. E sempre será enquanto o francês mantiver sua política de investir em times baratos e jovens. E os Citizens continuarão tendendo a tropeçar facilmente enquanto Mancini escalar equipes excessivamente cautelosas, como já tratado aqui.

Já o Manchester United parece ter mais força e consistência para brigar pelo título. É verdade que a temporada dos Red Devils é, até certo ponto, discreta e sem brilho. Além de lidar com problemas defensivos que tiraram pontos preciosos da equipe e quase quebraram a sua invencibilidade na competição, Sir Alex Ferguson sente falta de um líder, já que Nani, o melhor até aqui, ainda não parece ter futebol e maturidade para assumir o papel, vago pelo até agora desaparecido Rooney. Mas os resultados estão aparecendo: aproveitando os problemas do Chelsea, sendo o único a não perder até agora e mesmo conseguindo vitórias pouco vistosas e empates entediantes, já tem os mesmos 28 pontos do rival londrino.

A questão é saber até onde o Manchester United, mesmo sem brilhar, conseguirá bons resultados. Então, considerando todos os problemas pelos quais os times passam, o Chelsea continua sendo o favorito ao título. Colocando todos os problemas na balança, a sensação é a de que os Blues precisam apenas recuperar a forma inicial e voltar a ganhar jogos decisivos; conseguindo o primeiro, o segundo será apenas uma consequência. E para que isso aconteça, é fundamental a volta dos desfalques, algo que já está acontecendo.

Porém, conclusão maior do que essa é a de que não há nessa temporada um clube absoluto na Inglaterra, que possa ser considerado o grande favorito ao título. Agora, o Chelsea é apenas o favorito, seguido de perto pelo Manchester United, tendo o Manchester City e o Arsenal ameaçando os dois - e os Citizens parecem mais fortes que os Gunners, até porque já oferecem indícios de que têm mais chances de consertar os seus problemas. Nada impede, entretanto, que a briga pelo campeonato volte a se polarizar, como nos últimos anos, entre Blues e Red Devils. Na verdade, o desempenho dos seis primeiros na competição tende a essa realidade.

Imagem: The Guardian

18 de novembro de 2010

Com o Pires na mão?

Habitualmente adversários, Friedel e Pires agora somam forças e idades (76 anos) no Villa Park

Robert Pires, aos 37 anos, está de volta à Inglaterra. Gérard Houllier resgatou o compatriota da aposentadoria, e o antigo winger do Arsenal agora presta serviços ao Aston Villa. Pires esteve no Highbury entre 2000 e 2006. O francês era peça fundamental de um time vencedor e encantador, que conquistou, por exemplo, a Premier League de 2003-04 com campanha invicta. O protagonista era Thierry Henry, mas Robert também levantou um troféu individual no norte de Londres: o de jogador do ano pelos jornalistas ingleses, em 2001-02. Infelizmente para Houllier, a referência mais precisa de Pires não é geográfica, mas cronológica. Os últimos quatro anos, no Villarreal, foram somente razoáveis.

Exatamente por isso, o contrato dele com o Villa é de apenas seis meses. O assistente técnico Gary McAllister (que foi jogador de Houllier no Liverpool) vê o negócio como "uma grande oportunidade para os mais jovens". Pires, de fato, pode ensinar muito. São dois títulos na Premier League, três na FA Cup e, de quebra, uma Copa do Mundo. Por outro lado, Houllier imagina não ter contratado apenas um currículo, mas alguém que possa contribuir para tirar os Lions da nona posição no campeonato. A atitude do treinador francês não chega a ser desesperada, mas a aposta em Pires parece ter um quê de impotência para atrair contratações mais seguras.

O Aston Villa tem três entraves: a confiança cega em uma defesa com Collins e Dunne, os meias centrais na enfermaria e a ausência de um bom finalizador. Agbonlahor não atende a este quesito; Heskey e Carew não têm atendido a quesitos. E Pires não é a solução para nenhum dos problemas em questão. Imaginando o que fazia no Highbury, ele reforça o setor mais abastado do time: o dos wingers. Ashley Young e Downing são excelentes, e o jovem Albrighton tem evoluído muito bem. Tanto que Young é, nesta temporada, escalado à frente da linha dos quatro meias, o que abriu espaço a Albrighton pela direita.

Está claro que Pires não deve jogar, em intensidade e posicionamento, como na época de Arsenal. Wenger costumava colocá-lo à esquerda, com Ljungberg no flanco oposto. No Villa, ele pode cumprir função similar à de van der Vaart no Tottenham, no suporte a um atacante único. Isso, supõe-se, nos segundos tempos. Por ora, é difícil acreditar que um jogador de 37 anos, inativo desde maio, chega com fôlego para barrar um Albrighton em plena forma.

A expectativa é de que Pires seja, no Villa, mais uma voz da experiência, como quer McAllister, e um jogador de rotação, para ajudar Houllier na movimentação do elenco. Não se pode exigir mais. Na Inglaterra, as aventuras pós-Arsenal de alguns nomes daquela geração vitoriosa não representam um bom modelo: Ljungberg no West Ham, Lauren no Portsmouth e Vieira no Manchester City não foram (ou não é, no exemplo de Vieira) exatamente um sucesso. Pires pode começar a escrever uma história um pouco diferente a partir de domingo, contra o Blackburn.

Imagem: BBC

Aos ingleses, os brioches

Capello e McClaren: separados por um guarda-chuva (ideia do OptaJoke)

A inspiração dos franceses na vitória por 2 a 1 em Wembley pode ter sido a cautela dosada que levou o Manchester United a duas decisões recentes de Champions League. Ferguson por vezes prescindiu de Tévez e Berbatov, isolou Rooney (ou até Ronaldo) e posicionou Scholes (ou Carrick) à frente da zaga. Era difícil superar aquele 4-1-4-1. Emulando o escocês, Laurent Blanc fez a França controlar a Inglaterra durante a maior parte do tão aguardado amistoso. Com o jovem M'Vila na volância, os quatro armadores - Valbuena, Gourcuff, Nasri e Malouda - ficaram à vontade para dominar o estreante Henderson (Sunderland) e o preguiçoso Barry. A França trabalhou a bola brilhantemente, e Malouda, fundamental para o gol de Benzema, foi o melhor em campo na primeira parte. Os britânicos, ao contrário, mal conseguiam acertar passes.

Capello, entretanto, pensou bem no intervalo. Richards, substituto de Ferdinand, deslocou Jagielka ao miolo da defesa. Ashley Young ocupou a vaga de Barry, de forma que Gerrard, inicialmente escalado no suporte a Carroll, retornasse à meia central. Adam Johnson, por sua vez, barrou Walcott em benefício da lógica do canhoto à direita. O time melhorou um pouco, mas a estrutura da França, já bem treinada por Blanc, continuou mais confiável. Até que Gibbs subiu, fracassou e não conseguiu voltar. Sagna voou pelo setor, assistiu Valbuena e inspirou uma nova canção em homenagem a seu parceiro de Arsenal: Taxi for Gibbs, Taxi for Gibbs, Taxi for Gibbs.

O segundo gol dos Bleus deixou o jogo moroso. Mas a Inglaterra, vale lembrar, tem Crouch. O eficiente atacante, logo no primeiro toque, marcou seu 22º gol pela seleção. O Mr. Clancy, que substituiu Gerrard perto do fim, poderia ter sido a primeira opção de Capello e mantido o fantástico aproveitamento nestas circunstâncias - 18 gols em 17 jogos como titular. Não foi porque o italiano quis oferecer ao bom e esforçado Carroll uma chance. Era pertinente: sem Rooney, Defoe, Bent e Agbonlahor, o centroavante do Newcastle precisava jogar. Ainda que isso implicasse um esquema diferente, com Walcott, Gerrard e Milner se aproximando da área, domínio quase exclusivo de Carroll. Mas a verdade é que o time mais forçou do que construiu jogadas para seu grande homem. Nada deu muito certo.

Os desfalques contribuíram para tanto. Eram pelo menos seis titulares fora. Um hipotético combinado com ingleses lesionados é superior à formação utilizada por Capello. Veja só: Hart; Glen Johnson, Terry, King, Ashley Cole; Lennon, Lampard, Noble, Joe Cole; Rooney, Bent. É difícil armar o time sem tanta gente. Jagielka na lateral direita, Lescott (em má fase) na defesa - que obteve apenas cinco clean sheets nos últimos 18 jogos -, Barry e Henderson na meia central e Gerrard como auxiliar de centroavante não foram exatamente decisões felizes, mas a verdade é que não havia tantas alternativas.

Contudo, por ser Capello o mais impopular dos treinadores da Inglaterra depois do homem do guarda-chuva, sempre há o que criticar. Roberto Mancini, com um elenco abarrotado de meias centrais, justifica a contratação de James Milner deslocando-o à esquerda no Manchester City. Inexplicavelmente, Fabio resolve reeditá-lo. Ora, o City capturou Milner por seu desempenho no primeiro semestre de 2010, como meia central. Com Young e Downing nas pontas, Martin O'Neill encontrou na parceria com Petrov a fórmula ideal para alavancar a carreira de James. Como ele não é tão veloz, mas tem técnica apurada e intensidade, muitos diziam, após seis meses de experimentos, que seria um dos grandes no setor. Mas Mancini e Capello - este por pura teimosia (seriam Henderson e Barry imprescindíveis?) - se recusam a efetivá-lo por ali (ou o fazem em poucos minutos). É cedo, mas Milner parece estar em sua pior temporada desde a miséria técnico-tática no Newcastle.

Outras escolhas também precisam ser revistas. Gibbs, ainda muito inseguro, não deveria ser o reserva imediato de Ashley Cole - Warnock e Baines são mais confiáveis. Henderson tem 20 anos e precisa ter seu potencial explorado, mas Kevin Nolan, de 28, merece uma chance há muito tempo. Mais próximo de Gerrard e Lampard, o capitão do Newcastle tem sete gols na Premier League e vem de temporadas muito consistentes no Reebok Stadium e no St James' Park. A ideia é renovar, dirão alguns. Então, melhor seria se Capello chamasse Sturridge em vez de Bothroyd, também com 28 anos nas costas. Ciclos de dois anos não autorizam o treinador a atropelar a necessidade de vencer em benefício da renovação. É preciso conciliá-las, sem forçar a barra. E não permitir que (mais) um jogo fraco force a nossa amizade.

Montagem: Daily Mail

14 de novembro de 2010

Primo pobre

Rooney e metade dos laterais-direitos de Ferguson, há três anos, em Macau

O Manchester United tinha tudo para vencer, mas não resistiu e empatou novamente: 2 a 2, em Birmingham, diante do Aston Villa. O placar deixou a equipe na terceira posição da Premier League, com média inferior a dois pontos por jogo - o mínimo aceitável para o padrão recente do clube. A paixão do conjunto por empates é tão intensa, que os Red Devils, ainda invictos, acumulam seis em sete jogos como visitante. A única vitória, por sinal, veio através de dois movimentos à moda Solskjaer do promissor Chicharito Hernández, que inspirou os 2 a 1 sobre o Stoke. Na ocasião, não merecia mais do que outro empate contra o enérgico time de Tony Pulis.

Durante boa parte do confronto no Villa Park, o United foi controlado pelos enfraquecidos Lions. Sim, o Aston Villa é, quando completo, um time deveras interessante. Nas últimas semanas, entretanto, Gérard Houllier tem sido vítima de uma desagradável coincidência - alguns chamariam de Lady Murphy. De repente, quase todos os meias centrais do elenco resolveram se juntar ao promissor Fabian Delph na enfermaria. Além da antiga revelação do Leeds United, estão lesionados Petrov, Ireland, Reo-Coker, Sidwell e Clark. Sobraram Barry Bannan, que já havia sido utilizado quatro vezes no campeonato, e Jonathan Hogg, que estreou na Premier League justamente contra o Manchester United.

É intrigante o fato de Carrick e Fletcher não os terem dominado antes dos minutos finais, os da reação. Bannan é promissor, mas Hogg pareceu muito titubeante - o que era até natural. Mas não foi por ali que os mancunianos se perderam e concederam dois gols ao Aston Villa. A diferença entre os dois times ficou restrita a um lado. Enquanto Albrighton, à direita, não fez muito mais do que a conclusão do lance do segundo gol, Downing, à esquerda, promoveu a festa contra Wes Brown, que, duas temporadas depois, voltou a ser frequentemente escalado na lateral. Ashley Young, no suporte a Agbonlahor, também atormentou o defensor aposentado da seleção, responsável pelo pênalti que abriu a porteira.

Brown é um dos oito laterais-direitos que Ferguson escalou em um intervalo de dois anos. O'Shea, Rafael, Neville, De Laet, Fábio, Fletcher e Carrick também passaram por lá. A ausência de um nome confiável para a posição é, por um lado, explicada pelo baixo número de bons laterais destros na Inglaterra. O zagueiro Ivanovic, valendo-se da lesão de Bosingwa e dessa escassez, foi o melhor da temporada passada. Glen Johnson, aquele que tem mais recursos, não engana ninguém desde os tempos de Portsmouth. Quando surge um talentoso, como Séamus Coleman, do Everton, há certa tendência a um deslocamento ao meio-campo - Phil Neville e Hibbert disputam a lateral no Goodison Park.

Ainda assim, é inaceitável que o United não tenha um sólido especialista à disposição. Neville não aguenta mais, e Rafael, a melhor das opções, ainda não consegue defender a contento. A Ferguson, faltou sagacidade no mercado de verão, quando, após ser eliminado da Champions em virtude de uma emblemática falha de seu lateral (que era Rafael, mas poderia ter sido qualquer outro), manteve-se apático e não acionou seus olheiros para aproveitar alguma oportunidade. Por exemplo, o jovem César Azpilicueta, agora no Olympique de Marselha, deixou o Osasuna por 9,5 milhões de euros. Pré-convocado à Copa do Mundo por Vicente del Bosque, o espanhol é um dos mais promissores na posição e, se em Old Trafford estivesse, poderia criar uma ótima concorrência com Rafael em longo prazo.

Hoje, a resolução do problema depende apenas da evolução do brasileiro. É muito pouco. Assim como tem sido insuficiente o investimento nas últimas temporadas, do qual a falta de um lateral-direito confiável é só um símbolo. Novidades da última janela de transferências, Smalling e Hernández taparam dois importantes buracos do elenco, mas a verdade é que a queda de Rooney e a grave lesão de Valencia deixam o time pior do que em 2009-10. É aquela história: não se pode entregar toda a responsabilidade a somente um indivíduo. No ano passado, o clube, que perdia Tévez e Ronaldo, reforçou-se com Owen, Obertan e Valencia.

Sem novos grandes investimentos, é muito difícil apostar no Manchester United. A era dos automatismos, do tic-tac de Paul Scholes (que fez falta contra o Aston Villa) e da velocidade de Giggs, está acabando. Apesar do sensacional início de temporada do meia central, Ferguson não pode mais apostar na velha guarda como base do time. E nem em sua filosofia de polivalência, que lhe dá o direito de escalar quase um terço do elenco na lateral direita. Não é necessário gastar efusivamente - até porque a situação financeira do clube não parece permitir isso. Mas Sir Alex (ou seu sucessor) precisa aproveitar oportunidades para tapar todos os buracos - não apenas os do elenco, mas especialmente os do time titular.

Imagem: China Daily

11 de novembro de 2010

Beleza não é o mais importante

Com Roberto Mancini é assim: ou o jogador mostra que pode ser titular se doando em campo, ou então vai para o banco. Recado que Robinho talvez nunca tenha entendido

Um clássico decepcionante. Foi isso o que se viu na partida entre Manchester City e Manchester United, na última quarta. Um jogo excessivamente concentrado no meio campo, com poucas chances criadas, raros momentos de emoção e dois treinadores medrosos na beira do campo. Sir Alex Ferguson, por exemplo, estava em um daqueles dias em que joga para não perder e achar um gol salvador. É verdade que não contava com jogadores importantes como Giggs e Rooney. Porém, nem isso serve de desculpa para a excessiva cautela apresentada por sua equipe. No máximo, o fato de jogar fora de casa, e olhe lá.

Entretanto, do outro lado havia alguém com atitudes ainda mais contestáveis. Se Ferguson foi responsável por mandar a campo uma equipe cautelosa, preocupando-se mais em defender, Roberto Mancini, treinador dos Citizens, escalou um time com poucos homens de frente. Sem tanto poder ofensivo, o italiano tratou de travar ainda mais o jogo, tendo em mãos um time não muito ousado e sem tanta habilidade com o objetivo de furar uma fortíssima defesa montada pelo adversário. E o ex-treinador da Inter de Milão não se empenhou muito em consertar isso: suas substituições foram extremamente conservadoras, deixando inalterado seu esquema tático e trocando titulares por reservas da mesma posição.

A quem ficou muito irritado com tal atitude, ainda mais se for um torcedor do City, aqui vai um conselho: nem tente se estressar. Pelo andar da carruagem, já parece bem claro que a equipe que foi a campo no último jogo é a base de Mancini. Doa a quem doer, seu time não se preocupa em oferecer espetáculo, e sim em ser combativo e dar o máximo que pode em campo, mesmo que isso signifique que o jogo praticado por sua esquadra não seja nada bonito.

É claro que isso revela algumas opções cornetáveis. Para perceber isso, é só ver como Mancini escala seu time do meio para a frente. A faixa central é congestionada: o polêmico volante De Jong é o responsável por destruir (literalmente) as jogadas, tendo Gareth Barry ao seu lado. Se o inglês não possui uma postura tão defensiva quanto a do holandês, também não se arrisca tanto no ataque como faz Yaya Toure, que joga a sua frente e é um dos responsáveis por criar jogadas para o argentino Carlitos Tevez, homem em quem Mancini parece mais confiar.

No papel, essa parte do time é sem dúvida excelente. Porém, escancara uma preocupante falta de poderio ofensivo e a preferência pelo combate e pela eficiência. O ponto central dessa questão é Yaya Toure. Obviamente o marfinense é um ótimo jogador. Porém, quando Mancini o escala com a responsabilidade de levar seu time ao ataque, ao mesmo tempo em que ganha ao tentar aproveitar seu porte e sua condição física, perde muito por confiar a um jogador não tão habilidoso e criativo a responsabilidade de ajudar na criação de jogadas. E aí o time todo perde, justamente em um setor importantíssimo.

Não há, no entanto, como mudar a cabeça de Mancini. Atualmente, ele vê que o êxito será alcançado com uma equipe combativa, e quem não se enquadar nesse esquema não terá vez. É por isso que Adam Johson, winger de muito futuro na seleção inglesa, muitas vezes é preterido por James Milner, ótimo jogador mas visivelmente sem a habiliade do jogo companheiro de seleção.

Da mesma forma, é por isso que Tevez é seu homem de confiança, e Adebayor, que bateu o pé para sair do Arsenal, é deixado de lado. O argentino enche os olhos de seu treinador por ser reconhecidamente um atacante brigador e que não tem medo de dividida, enquanto o togolês parece pouco disposto a conquistar o mesmo. É por isso que o italiano prefere muitas vezes escalar, num esquema com apenas um atacante, alguém sem tanto faro de gol mas que se doará ao máximo, ainda que deixe tal setor sem uma referência ou sem um homem tipicamente finalizador. Ser lutador é a questão aqui, e quem não se enquadrar, dança. Ou então vai dar um passeio definitivo ou por uns tempos fora de Manchester.

O problema é que Mancini precisa entender que nem sempre seu pensamento deve prevalecer, indo às últimas consequências. Há situações de jogo que pedem equipes mais ousadas e ofensivas, e ele deve estar ponto para fazer as adequadas mudanças no momento certo - coisa que não fez contra o Man Utd. De certa forma, ou ele entende isso da mesma forma que todos entendem que ele quer um time lutador, ou ele ganha ainda mais inimizade e começa a ver sua carreira no comando dos Citizens ameaçada.

Imagem: The Telegraph

7 de novembro de 2010

O óbvio ululante

"Penso, logo existo"

Roy Hodgson, bom observador, percebeu que o 4-2-3-1 não é uma cláusula pétrea do estatuto do Liverpool. O esquema, implantado por Rafael Benítez em 2009, realmente funcionou durante um semestre, enquanto Xabi Alonso ainda estava em Anfield. Depois, foi um fiasco. Hodgson adotou o 4-4-2, já esboçado em algumas ocasiões, desde o princípio contra o Chelsea. O Liverpool, com três desfalques pesados, foi assim escalado: Reina; Kelly, Carragher, Skrtel, Konchesky; Meireles, Lucas, Gerrard, Maxi Rodríguez; Kuyt, Torres.

O 4-4-2 agora divide com a resolução do imbróglio pela venda do clube e o crescimento de algumas peças a responsabilidade pela recuperação, as quatro vitórias consecutivas. Abaixo, listo cinco vantagens do sistema, que inspirou a ótima vitória por 2 a 0 sobre o líder do campeonato. Vale lembrar que nenhum esquema é perfeito, mas um pode ser mais adequado do que outro, dependendo dos jogadores à disposição.

1) Gerrard. O capitão faz a saída de bola, tão prejudicada desde que Xabi Alonso tomou o rumo do Santiago Bernabéu. Mas também não fica muito distante do gol, como no primeiro jogo da Premier League, quando foi um dos volantes do 4-2-3-1 que encarou o Arsenal. Contra o Chelsea, Gerrard voltava a toda reposição de bola de Reina, para organizar o time. Deu muito certo.

2) Lucas. Se Gerrard organiza, Lucas pode se preocupar com outras tarefas. Como meia central, função e direito que Benítez nunca atribuíra a ele, o brasileiro fez seu melhor jogo pelo Liverpool. Combativo, atento (roubou muitas posses) e mais veloz, ele foi um ótimo parceiro para seu capitão. Exibição irrepreensível de um jogador que, em três anos, quase sempre esteve abaixo de seu potencial.

3) Torres e Kuyt. A parceria foi muito eficiente. No 4-2-3-1, Kuyt não teria se deslocado à esquerda para fazer um lançamento espetacular ao espanhol, no lance do primeiro gol. Tanto tempo como meia direita até fez muita gente se esquecer de que o holandês é atacante - e dos bons. Se o Liverpool não tem a bola, ele volta mais do que Torres para contribuir à marcação, transformando o esquema em uma espécie de 4-4-1-1.

4) Os laterais adversários. Eles não têm paz. Quando Ancelotti lançou mão de Bosingwa para tentar explorar o jogo ofensivo pela direita, Hodgson ficou tranquilo. Ele sabia que Maxi estava lá para auxiliar o fraco Konchesky. Do outro lado, Meireles também fez seu papel. O português não é winger, e o ideal é que não jogue assim para sempre. Mas Hodgson identificou uma boa alternativa, pois ele combate o adversário com eficiência e é ágil para criar jogadas, como a do segundo gol de Fernando Torres.

5) Administração do elenco. No 4-2-3-1, faltam peças de reposição a Hodgson. Sem os negociados Sissoko, Xabi Alonso e Mascherano, não sobram muitos volantes. Meireles é subaproveitado por ali. Lucas, tão preso, nunca foi muito bem. Poulsen, sabemos, não é confiável. Assim como Spearing, que até tem potencial. É evidente que esse problema pode ser resolvido em janeiro. Mas, por ora, o Liverpool tem quatro opções contestáveis para a volância. Quando falamos em meia central, a situação é outra.

Veja o que Hodgson, então treinador da seleção finlandesa, disse ao UEFA.com sobre o 4-4-2.

Imagem: Breaking Football News

6 de novembro de 2010

A importância do padrão

O escocês Alex McLeish treinou o conterrâneo Owen Coyle no Motherwell em 1997-98. Agora no Bolton, o ex-atacante segue as lições do mestre.

Martin Petrov, free agent até há pouco, teve o direito de definir seu destino no mercado de verão. Com boa reputação na Inglaterra por conta das três temporadas no Manchester City, o búlgaro preferiu a transferência para o Bolton. A decisão suscitou diferentes impressões. Petrov poderia estar em um time melhor. Petrov escolheu o Reebok Stadium apenas porque queria ser protagonista. Petrov, aos 31 anos e sem utilização regular no último deles em Manchester, estava, na verdade, em franca decadência.

Qualquer que seja a menos mentirosa dessas teses, a visão quase consensual era a de que o left winger poderia inspirar seu novo clube a um estilo distante do chamado futebolton. Mesmo assim, não parecia fácil comprar a ideia de que uma equipe já habituada à medíocre e dura luta contra o rebaixamento apresentaria grandes novidades. Hoje, o Bolton é o quinto colocado da Premier League, com 15 pontos. Petrov pode ter acertado. A substituição de Gary Megson por Owen Coyle no comando técnico explica muito. A despeito de sua polêmica decisão de deixar o Turf Moor no meio da temporada passada, o ex-treinador do Burnley, carismático e emocionalmente vinculado ao Bolton, construiu uma espécie de família Coyle no Reebok.

Com Owen, o Bolton é mais agressivo e, especialmente, adquiriu automatismos. A escalação pode até não se repetir, por conta de um ou outro empecilho, mas não há dúvidas sobre o time e o esquema preferenciais dos Trotters: (4-4-2) Jaaskelainen; Steinsson, Knight, Cahill, Robinson; Lee, Muamba, Holden, Petrov; Davies, Elmander. Mesmo o ponto fraco, os laterais, vão bem. Steinsson, mais cedo, superou Bale no excelente triunfo por 4 a 2 sobre o Tottenham. Os wingers Lee e Petrov (ou mesmo o reserva Matthew Taylor, quando necessário) aceleram o jogo com qualidade, e os atacantes Elmander e Kevin Davies participam muito e têm número satisfatório de gols no campeonato. Mais do que pela pontuação, que não salta aos olhos, o Bolton impressiona pela demonstração de força diante dos grandes.

O padrão que já parece garantir a confortável permanência dos Trotters na Premier League - e até abre espaço a objetivos um tanto mais ousados - é similar ao que levantou o Birmingham na temporada passada. O conjunto de Alex McLeish jogava quase sempre da mesma forma: Hart; Carr, Johnson, Dann, Ridgewell; Larsson, Bowyer, Ferguson (Gardner), McFadden; Chucho Benítez, Jerome. A limitação ofensiva era compensada pela firmeza do time, que sofreu apenas 47 gols em 38 jogos (média de 1,24 por jogo). Nesta temporada, Ben Foster foi vazado 14 vezes em 11 partidas (média de 1,27). A retaguarda, dos ótimos Dann e Roger Johnson, manteve-se forte, mas, ao contrário do que se esperava, o ataque continuou marcando um gol por jogo.

No papel, o Birmingham é bem melhor hoje. McLeish tem as opções de Hleb para a meia e Zigic para o ataque. O elenco é mais profundo, e um simples desfalque (como o de McFadden, que retorna só em fevereiro) não é, em tese, suficiente para desmontar o time. Mas as escalações diferentes são. Agora, o treinador escocês não mantém sequer o 4-4-2. Ora isola Jerome, ora isola Zigic. Ou escala os dois. A presença constante e aparentemente injustificada de jogadores limitados, como Keith Fahey e Garry O'Connor, parece anular o ganho de qualidade do Birmingham no último verão. Além de Hleb e Zigic, chegaram ao St Andrew's Foster (para substituir Hart, é bem verdade), Beausejour, Jiranek, Valles e Derbyshire. Com tantas alternativas ofensivas - e sem precisar depender de Chucho, que retornou ao Santos Laguna -, não é aceitável a marca de um gol por partida.

E não se pode sofrer dois do West Ham, que, antes dessa rodada, havia marcado tantos gols na Premier League quanto Malouda ou Kevin Nolan. O empate por 2 a 2 deixou os Blues na 14ª posição, cinco postos abaixo em relação à classificação final na temporada passada. O aproveitamento do Birmingham despencou de 44% em 2009-10, quando começou mal, para 36% em 2010-11. É claro que a amostra desta edição do campeonato ainda é pequena, de 11 jogos. Entretanto, parece evidente que a perda dos automatismos daquele time quase imutável, o mesmo por nove rodadas consecutivas e imbatível por doze (na divisão de elite, a maior sequência da história do clube), tem tudo a ver com a instabilidade.

Em menos de um ano, o Birmingham deixou de ser a sensação da Inglaterra para se preocupar com a queda. O Bolton, por sua vez, foge ao estereótipo do jogo feio - embora ainda use bastante a bola longa - e passa a ser respeitado mesmo pelos grandes, que, no Reebok Stadium, jamais terão facilidade. Você sabe, hoje, qual o time titular do Birmingham? E o do Bolton? O simples exercício ajuda a entender o que tem acontecido aos dois clubes. Como os treinadores têm competência comprovada e os elencos contam com bons recursos, é mais fácil o Birmingham se achar do que o Bolton se perder.

Imagens: Breaking Football News, Telegraph, Sporting Life