8 de janeiro de 2011

O reino da soberba

Edin Dzeko, que assinou com os Citizens por quatro anos, usará a camisa 10

Desde que foi adquirido pelo Abu Dhabi United Group - do Sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan - em agosto de 2008, o Manchester City gastou cerca de £350 milhões em contratações. Com tanto dinheiro a seu favor, os Sky Blues buscam uma vaga na Liga dos Campeões e, se possível, conquistar o título da Premier League. Após duas temporadas acumulando fracassos, os Citzens finalmente estão (ou parecem estar) à beira do sucesso. A segunda colocação na tabela, apenas dois pontos do líder e rival United e a sete pontos do Chelsea - o primeiro fora do G-4 -, conforta o sempre preocupado semblante do técnico Roberto Mancini.

Analisando rapidamente o elenco do Man City, certamente chegaremos à clara conclusão de que este não precisa de reforços. A defesa é segura – por sinal, a menos vazada do campeonato inglês, com 16 tentos concedidos. O meio campo é excepcional, com volantes, meias e wingers (pontas) de alto nível. O ataque é eficiente - o 5º melhor, com 33 gols marcados.

Dito isso, não há o que justifique a contratação de Edin Dzeko, por £27 milhões, junto ao Wolfsburg. O ataque conta com Carlos Tevez, Balotelli, Jô, Adebayor e Roque Santa Cruz (desconsidero aqui Alex Tchuimeni-Nimely, jovem da base). Apesar da iminente saída dos dois últimos, por que não dar a chance ao atacante brasileiro de atuar com mais frequência, sendo o reserva imediato da dupla Tevez/Balotelli?

A chegada do bósnio, por si só, é fantástica. Não há o que questionar sobre seu talento e potencial. Entretanto, tumultuaria ainda mais a briga pela titularidade e aumentaria a cobrança da torcida sobre manager italiano. É de se esperar que o melhor elenco da Europa - quiçá do mundo – brigue por títulos. Que Mancini governe seu reino da soberba com austeridade.

5 de janeiro de 2011

Roleta inglesa

Roy Hodgson, do Liverpool: dos ameaçados, o mais encrencado

A 22ª rodada da Premier League aproximou o Manchester United de uma caminhada tranquila para o título. Mas o grande impacto dos jogos de hoje pode acontecer sobre as estatísticas do desemprego no Reino Unido. Teriam sido as últimas falhas de Carlo Ancelotti, Roy Hodgson, Gerard Houllier e Avram Grant em seus atuais vínculos?

Demitir o italiano seria, apesar da péssima forma, uma atitude intempestiva - ainda que bem natural para Roman Abramovich. Sim, Scolari caiu com o Chelsea na quarta posição, com razoáveis 49 pontos em 25 jogos, a sete do líder. Ancelotti está em quinto, com péssimos 35 pontos em 21 partidas, a nove do Manchester United. Carletto, entretanto, é campeão inglês e, claramente, tem o apoio do elenco. Por ora, é preciso reparar os efeitos da demissão do assistente Ray Wilkins e agir fortemente no mercado para corrigir o antigo problema da defesa rasa. A questão é mesmo histórica: em 2007, José Mourinho chegou a montar a retaguarda com Geremi, Essien, Paulo Ferreira e Ashley Cole.

Hodgson tem problemas ainda mais sérios no Liverpool, não vem de título e tampouco tem 10 dos pontos de Ancelotti. Roy venceu apenas um dos últimos 28 jogos fora de casa pela Premier League. O triunfo contra o Bolton é a exceção à regra. Entre um Fulham mais preocupado com a Liga Europa e um Liverpool em crise, ele não atribuiu consistência a seus conjuntos. Em Craven Cottage, era aceitável - até admirável, por conta da nobre causa paralela. Em Anfield, não é. A pesada derrota para o fraco Blackburn de Steve Kean não deve ser perdoada. Os Reds precisam, sim, de vários reparos em janeiro. Mas não precisavam estar na 12ª posição, quatro pontos acima da zona de rebaixamento. Se sobreviver agora, Hodgson certamente terá de vencer, pela FA Cup, o Manchester United em Old Trafford.

A situação de Houllier no Aston Villa é um tanto diferente. A presença na zona do rebaixamento assusta, mas pode ainda não apontar para um trabalho desastroso. O elenco pobre, associado a uma incrível sequência de lesões (sobretudo entre os meias centrais), dificultou o desenvolvimento do time. Está claro que este Villa, sem O'Neill, Barry, Milner e um finalizador decente, não poderia lutar por competições europeias. A derrota para o Sunderland mesmo com um conjunto mais próximo do ideal viabiliza a eventual demissão do treinador francês. Mas não há dúvida de que a possível dispensa pode ser tachada de prematura.

No West Ham, é necessário compreender o que é excepcional: o nono posto conquistado com Zola em 2008-09 ou as péssimas campanhas seguintes? O plantel também é fraco, e Grant não poderia ir além da corrida contra o rebaixamento. A goleada para um Newcastle sem Carroll realmente é condenável. No entanto, à exceção do desastre de St. James' Park, o time se comportou bem após o ultimato da cúpula a Grant. Os oito pontos conquistados nos quatro jogos anteriores aproximam os Hammers da saída da zona de rebaixamento. Parece ser hora de dar um crédito ao agora cauteloso israelense.

Imagem: Telegraph

3 de janeiro de 2011

A carapuça serviu?

Mesmo tendo conseguido bons resultados nas últimas rodadas - um deles contra os Wolves de Mick McCarthy -, West Ham de Avram Grant não apresentou uma grande evolução em campo

Com apenas doze pontos conquistados em dezessete jogos, o West Ham, na metade de dezembro, encontrava-se na última posição. Diante desse quadro, surgiram boatos de que um ultimato havia sido dado ao técnico Avram Grant, cobrando do israelense bons resultados nos jogos contra Blackburn, Fulham e Everton – sendo que os dois primeiros seriam jogados fora de casa.

Coincidência ou não, os resultados apareceram depois do possível ultimato. Na sequência citada, os Hammers se saíram bem: empataram com o Blackburn em 1 a 1, derrotaram o Fulham em pleno Craven Cottage por 3 a 1 e empataram com o Everton também por 1 a 1 – um resultado notável, pois o West Ham havia jogado 48 horas antes, enquanto os Toffees estavam devidamente descansados. Depois disso, os londrinos sacramentaram sua reação ao derrotar o concorrente direto Wolverhampton por 2 a 0. A impressão que ficou é a de que o ultimato havia sido benéfico, dado os feitos consideráveis conquistados no fim de 2010/começo de 2011: quatros jogos sem perder, oito dos últimos doze pontos conquistados e fuga da zona do rebaixamento, posto do qual não havia saído desde o início da temporada.

Porém, os resultados, embora positivos, não significam que a equipe teve uma grande evolução nos últimos dias. Mais do que isso, aliás: encobertam graves problemas do West Ham de Avram Grant e até mesmo de Gianfranco Zola, técnico da temporada passada. A equipe continua cometendo graves erros defensivos; é excessivamente dependente de Scott Parker, meia que faz praticamente tudo na equipe e, sabe-se lá como, não é constantemente pretendido por times mais fortes; possui dificuldade para encontrar outros bons meias, principalmente pelos lados do campo; e não possui atacantes com um bom poder de finalização.

A verdade é que a boa sequência de resultados do West Ham veio muito por mais por aproveitar os erros dos adversários. Porém, isso não quer dizer que os Hammers passaram o tempo todo apostando nos erros dos rivais, e sim que falhas muitas vezes gritantes dos oponentes resultaram em gols dos londrinos. Tentos contra Everton e Wolves foram marcados através de jogadores do time oposto mandando a bola contra o próprio patrimônio, enquanto erros cruciais do Fulham consagraram Carlton Cole e Frederic Piquionne. Tentos que, aliás, em certos momentos saíram enquanto a equipe de Grant era dominada. Ou seja: de certa forma, os resultados positivos não vieram por tanto mérito dos Irons.

O jogo contra o Fulham, aliás, foi uma grande prova disso. Sem Parker, e consequentemente, sem criatividade e chegada ao ataque, os Hammers marcaram graças a falhas inacreditáveis dos adversários, que facilitaram a tarefa de Cole e Piquionne nos três gols ao praticamente entregarem a bola nos pés dos atacantes rivais já diante do goleiro Schwarzer. Já o tento marcado pelos Cottagers, que contou com grande participação da zaga dos visitantes, mostrou os defeitos da defesa de Grant, quando Aaron Hughes subiu sozinho e cabeceou para as redes enquanto a zaga assistia a tudo passivamente. Foi uma partida que, embora tenha ajudado o West Ham conquistar uma vitória importante fora de casa, continuou escancarando as suas recorrentes dificuldades e, de certa forma, diminuiu o brilho do seu feito.

De qualquer forma, alguns jogadores brilharam nesses últimos jogos – caso contrário, o West Ham não conseguiria bons resultados nem mesmo contando com vastos erros dos adversários. A atuação de um jogador merece ser destacada, talvez até mais do que a de Parker: Robert Green. O goleiro fadado a más lembranças da última Copa do Mundo literalmente fechou o gol nas últimas partidas, mais notadamente contra o Fulham e contra os Wolves, quando, mesmo em casa, os Hammers tiveram alguma dificuldade para se impor diante de um dos elencos mais enfraquecidos da Premier League. Grande parte da melhora do time até aqui se deve a ele. Outro jogador que merece ser citado é o jovem Freddie Sears, que foi chamado de volta do seu empréstimo do Scunthorpe para ganhar um lugar no time titular e inclusive marcar um gol contra os Wanderers.

Porém, isso é muito pouco se Faubert e Behrami continuam sem resolver o problema do lado direito, se Ilunga e Spector – a atípica atuação contra o Manchester United pela Carling Cup não conta – continuam falhando pelo lado esquerdo, se Barrera e Luis Boa Morte não levam ao time ao ataque pelo lado os campos e se Cole, Piquionne e Obinna desperdiçam milhares de chances em todos os jogos. Esses problemas já são duradouros – tanto que a espinha dorsal formada por Green, Upson e Parker já se mostrou insuficiente para colocar o time na metade da tabela.

É por isso que reforços são bem vindos. E a diretoria do West Ham, mesmo ainda convivendo com problemas financeiros, faz muito bem ao olhar com carinho para a janela de transferências, que acabou de ser aberta. Até agora, diz-se que os Hammers estão perto de contratar Steve Sidwell, meia do Aston Villa, e de conseguirem o empréstimo de Robbie Keane, atacante do Tottenham, e Wayne Bridge, lateral-esquerdo do Manchester City. Todos bons nomes e que adicionariam muito a áreas carentes do time – principalmente os dois últimos. Que continuem assim, porque o clube precisa.

Imagem: Zimbio

30 de dezembro de 2010

A inimaginável sensação da temporada

Um dos destaques da temporada, o técnico Ian Holloway vem fazendo uma excelente campanha com o Blackpool, mesmo tendo em mãos o mesmo limitado elenco com que conseguiu a vaga na Premier League

Se, antes da temporada começar, alguém pedisse para um amigo adivinhar um time que estaria, com metade da Premier League já disputada, em oitavo lugar, com vinte e cinco pontos e a com terceira melhor campanha fora de casa – graças a cinco vitórias longe de seus domínios - , essa pessoa citaria qualquer time que atualmente está incluso no competição, exceto um: o Blackpool.

Isso não aconteceria por preconceito algum. Afinal, até a competição começar, o Blackpool parecia ser o time que estava apenas a passeio na principal competição inglesa – da qual não participava desde 1971. Só conseguiu chegar à Premier League aos trancos e barrancos: a última vaga para os playoffs veio graças a uma grande sequência de resultados no fim da temporada e a tropeços dos adversários; nos playoffs, na condição de azarão, derrotou os favoritos Nottingham Forest e Cardiff. Depois, não teve dinheiro para se reforçar, conseguindo apenas juntar um time com jogadores remanescentes da campanha anterior e reforços de pouco prestígio. Na verdade, a campanha dos Tangerines tinha tudo para dar errado, talvez mais até do que a do Derby County na temporada 2007-08: na ocasião, os Rams só fizeram onze pontos e conquistaram apenas uma vitória em trinta e oito jogos.

Porém, o Blackpool é, até aqui, a sensação do campeonato. E se desde a primeira rodada, quando bateram o Wigan fora de casa por surpreendentes 4 a 0, dizem que a equipe possui prazo de validade, a verdade é que até agora esse prazo não se esgotou. Dando muito trabalho maioria das equipes contra quem jogou, o time vem conseguindo vários feitos: o mais notável até agora foi a já citada bela campanha fora de casa, que inclui vitórias sobre Liverpool e Sunderland, que era, junto com o Manchester United, o único time invicto em seus domínios.

A chave do sucesso da equipe, sem sombra de dúvidas, é o técnico Ian Holloway. Elogiado publicamente por treinadores importantes como Harry Redknapp e considerado por muitos críticos o melhor treinador da Premier League até agora, o inglês vem se destacando por tirar leite de pedra de um elenco limitadíssimo, mais apropriado para jogar a Championship, jogando de uma maneira pouco usual. Enquanto a maioria dos treinadores de clubes pequenos limita-se a impor um estilo de jogo defensivo, Holloway faz justamente o contrário. É um pensamento a princípio bobo de tão básico que parece ser, mas que poucos seguem: se jogar retraído certamente fará o Blackpool perder vários jogos e o levará a um inevitável rebaixamento (a limitação do time é visível, e seu treinador reconhece isso), por que não tentar jogar para frente, tentando marcar gols e buscando vitórias, se há jogadores que podem cumprir esse papel?

O pensamento é suicida, ainda mais se tendo um setor defensivo muito instável – principal fraqueza dos Tangerines e responsáveis pelas sonoras goleadas sofridas para Arsenal e Chelsea e pela oitava pior defesa do campeonato. Mas certamente é um pensamento que vem dando certo: contando com os destaques dos outrora desconhecidos DJ Campbell, Luke Varney e principalmente Charlie Adam, um meia escocês que é o principal jogador e articulador do time, o Blackpool surpreende muitas equipes impondo um estilo corajoso e procurando o ataque, o que proporcionou sete vitórias ao time, número que talvez muitos achassem que a equipe não conquistaria em toda a temporada.

Esses números fazem com que a campanha do Blackpool seja muito parecida com a de um caçula que apareceu há pouco tempo na Premier League: o Hull City. Na temporada 2008-09, os Tigers iniciaram a competição, da qual participavam pela primeira vez, de forma sensacional: após nove rodadas e com o retrospecto de seis vitórias, dois empates e uma derrota, estavam nas primeiras posições. Um dos destaques, além do brasileiro Geovanni, era o técnico Phil Brown, que costumava armar sua equipe de maneira ofensiva e de acordo com as características do adversário.

Porém, depois disso, a companha do Hull foi trágica, com apenas duas vitórias no resto do campeonato. O rebaixamento não veio por causa da incompetência de outros times – mais precisamente o Newcastle -, mas foi inevitável na temporada seguinte. Atualmente, o Blackpool é a sensação do campeonato depois de vinte rodadas; no entanto, não se sabe até onde vai o tal prazo de validade dos comandados de Holloway.

A ideia pode soar pessimista, mas na verdade é realista. De certa forma, os adversários são surpreendidos pela postura ofensiva dos Tangerines, quando esperavam uma posição mais defensiva de um time de menor expressão e de poucos recursos. Os resultados mostram que isso, até agora, vem dando certo. Porém, em algum momento, as equipes podem entrar prontas para neutralizar esse ataque, o que poderá complicar as pretensões do Blackpool: sem conseguir armar, o time talvez fique mais travado e sem ter como sair, o que sobrecarregará a sua defesa.

Defesa que, como já citado, é o ponto fraco da equipe, dada a sua pouca solidez. Esse é outro fator que poderá atrapalhar a equipe. O Blackpool costuma ceder muitos ataques. Em seus últimos três jogos, que foram fora de casa, o time de Holloway sofreu sérios bombardeios durante as partidas. Venceu Stoke e Sunderland aproveitando suas chances no ataque e a ineficiência dos adversários – absurda da parte dos Black Cats, inclusive. Porém, cedeu o empate ao Bolton após não segurar a pressão dos comandados de Owen Coyle. Isso não quer dizer que os Tangerines devem mudar seu estilo de jogo para um mais defensivo. Significa apenas que devem melhorar seu poder de marcação ao mesmo tempo em que continuem atacando, para que o equilíbrio seja alcançado ou para que não haja surpresas desagradáveis quando os atacantes não resolverem.

É por isso que, devido às suas limitações e aos poucos recursos que possuem, o Blackpool deve continuar sempre focado em se manter longe da zona da degola. Times como Aston Villa, Birmingham e Everton vivem piores fases, mas possuem mão de obra mais qualificada para superarem possíveis obstáculos. Holloway tem total consciência disso, ao mesmo tempo em que sabe das qualidades de sua equipe e tenta aprimora-las. É certamente uma tarefa difícil, mas não impossível para quem vem superando todas as expectativas até o momento.

Imagem: Daily Mail

23 de dezembro de 2010

Mas já?

No começo de junho, 500 torcedores do Liverpool protestaram contra a possível saída de Rafa Benítez do Liverpool. Os mesmos certamente torcem para que o espanhol volte apenas seis meses após ter sido demitido

Enquanto a imprensa mundial apenas esperava o comunicado da demissão de Rafa Benítez da Inter de Milão, alguns torcedores do Liverpool se manifestavam a frente da casa do espanhol, clamando pela sua volta. Após a confirmação de sua saída do clube italiano, fóruns na internet mostravam uma torcida dividida: enquanto alguns pediam o retorno de Benitez no lugar de Roy Hodgson, outros gostariam de vê-lo bem longe de Anfield. Uma enquete no site Mirror Football, por exemplo, até o momento em que o texto era escrito, revelava que 45% dos torcedores gostariam de ter o treinador novamente, vencidos pelos 55% resistentes à sua possível chegada.

Soa estranho ver torcedores apoiando uma possível volta de Benitez – na verdade, é difícil de entender como há pessoas que querem que tal desejo se realize. Confiança excessiva em jogadores de talento duvidoso, lembranças sobre as pífias contratações feitas pelo espanhol sob o comando dos Reds, que foram até mesmo lembradas pelos ex-proprietários do clube, e constantes reclamações do atual técnico Roy Hodgson por ter herdado uma geração maldita do antigo treinador dão a impressão de que sua volta não deveria ser requisitada.

A verdade, no entanto, é que sua estadia em Anfield foi prolífica: após conquistar o bicampeonato espanhol com o Valencia, Rafa Benitez conquistou a Champions League e a Copa da Inglaterra, além de quase ter levado sua equipe ao título da Premier League e ter recolocado os ingleses novamente num posto de destaque no cenário nacional e sobretudo no cenário europeu. Ou seja: devido a esse bom retrospecto, foi sob seu comando que o Liverpool viveu um de seus melhores momentos nos últimos tempos – embora Gérard Houllier também tenha tido conquistas importantes; logo, não é de se estranhar que parte de seus torcedores esperem pelo seu retorno.

Porém, é preciso considerar um fator muito importante: Benitez foi demitido após uma péssima temporada, em que seus defeitos – más contratações, escalações e substituições precipitadas e má relacionamento com pessoas influentes no clube – foram escancarados, tornando justa a decisão de demiti-lo.

Pois bem, então por que o Liverpool o contrataria seis meses depois de deixa-lo desempregado? Ora, Benitez teve o seu tempo, conquistou títulos importantes, deixou de ganhar outros – mais notadamente a Premier League 2008-09 – e recolocou o clube no eixo europeu. Sua demissão fechou um bom ciclo de seis anos e deu espaço para que outro ciclo começasse, com outro treinador, que de preferência remodelasse a equipe principal e investisse melhor o dinheiro gasto em contratações.

Portanto, retomar o ciclo de Benitez um dia na história do Liverpool seria compreensível. Fazer isso seis meses depois de mostrar ao mundo seus defeitos até o limite seria contraditório. O espanhol, depois de seu fracasso na Inter, deveria seguir novos rumos, assim como os Reds fazem atualmente com Roy Hodgson no comando da equipe. Aliás, se o inglês estivesse num bom momento, talvez muitos não quisessem a volta do antigo treinador; Rafa tinha (e tem) a simpatia dos torcedores, ao contrário de Hodgson, que não consegue fazer seu time engrenar nem conquista a confiança de ninguém.

Imagem: The Telegraph

17 de dezembro de 2010

Alguns com sorte, outros com (muito) azar

"Mas nós não estávamos só brincando quando eu disse que gostaria de enfrentar o Barcelona?"

A campanha inglesa na última edição da Champions League não foi muito bem digerida. O façanha de colocar um clube do país na final do torneio desde a temporada 2004-05 e a de ter três times entre os quatro que disputavam a semifinal desde a temporada 2006-07 foi quebrada quando o Liverpool ficou pela primeira fase, o Chelsea foi derrotado pela campeã Inter de Milão nas oitavas e o Arsenal e o Manchester United foram eliminados nas quartas.

Após essa queda de rendimento na competição, era hora dos ingleses remarcarem seu território na Europa. A tarefa começou sendo bem realizada, com os quatro clubes da Terra da Rainha se classificando para as oitavas de finais da Liga dos Campeões - por mais que o Arsenal tenha tentado se classificar apenas para a Liga Europa. Porém, se, no geral, o sorteio que definiu os confrontos para a próxima fase não foi ruim, também não foi muito bom. Veja abaixo uma análise inicial dos quatro confrontos envolvendo times da Inglaterra:

Milan x Tottenham - Azar. Não há outra palavra para descrever o fato do Tottenham, sensação da fase de grupos da Champions League, ter pego um Milan que talvez esteja no seu melhor momento depois da saída de Kaká, logo após conseguir ser primeiro colocado em um grupo que tinha a Inter de Milão. A não ser que você queira adotar o discurso de que é preciso matar um leão por dia para sobreviver, essa é a verdade.

De qualquer maneira, e felizmente para os Spurs, talvez será inspirador para Gareth Bale voltar a San Siro, onde brilhou pela primeira vez para todo o mundo, no jogo em que seu time , mesmo com um hat-trick seu, perdeu por 4 a 3 para a Inter de Milão. Infelizmente para Harry Redknapp, tal estádio talvez também será inspirador à sua insegura defesa, que lá tomou quatro gols dos nerazzurri em menos de 45 minutos. Se Gomes e seus defensores repetirem tal atuação diante dos inspirados Ibrahimovic e Robinho e de um sempre perigoso Alexandre Pato, sairão precocemente da competição - um resultado trágico na Itália num mata-mata talvez não seja reversível em White Hart Lane. Porém, se o time provar que aprendeu a lição e tiver os rápidos Bale e Defoe e os habilidosos van der Vaart e Modric bem contra a envelhecida defesa milanista, os londrinos poderão continuar fazendo história na competição.

Arsenal x Barcelona - Sabe-se lá como, o Arsenal tem entrado em grupos muito tranquilos nas últimas edições da Champions League. Porém, nessa temporada exageraram: o Partizan era muito fraco, e o Braga, quase um combinado de jogadores da Segundona brasileira; somente o Shakhtar oferecia alguma resistência. Ao jogarem mal fora de casa, no entanto, os Gunners conseguiram a proeza de ficarem apenas com o segundo posto no grupo H. O castigo foi duro: os Gunners terão de enfrentar o Barcelona.

Derrotar o Barcelona num mata-mata é uma tarefa extremamente árdua - e os Gunners sentiram isso na pele ao serem eliminados pelos espanhóis a pouco tempo -, mas José Mourinho e sua Internazionale mostraram como se faz isso na temporada passada, ao fazerem dois jogos perfeitos e postarem uma defesa muito sólida e difícil de ser batida. Só que o Arsenal não faz partidas perfeitas em sequência, vem dependendo muito de Nasri, pecam por ter um Arshavin em má fase e van Persie e Fabregas em más condições físicas e ainda possuem uma defesa não mais que normal e goleiros pouco confiáveis. Sim, talvez seja melhor torcer para que os londrinos não emulem o José Mourinho do Real Madrid que tomou de 5 a 0 do Barça.

Olympique de Marseille x Manchester United - O Manchester United vem jogando a Champions League com o freio de mão ligado até aqui. Mandando a campo em certas ocasiões times reservas ou mistos, ficou perto de não assegurar a primeira posição do grupo ao estar perdendo para o Valencia em Old Trafford na última partida. Após assegurar o empate, escapou do mico e da possibilidade de pegar um adversário mais difícil.

O sorteio foi bom para os Red Devils, que não terão pela frente um adversário muito complicado. Por isso, deverão passar para a próxima fase mostrando o futebol que sempre mostram em tal fase da competição: se não goleiam, são mais notados por não jogar de forma tão bonita, preferindo ser eficientes e cautelosos. O que preocupa é saber se alguns jogadores, como Nani e Anderson, continuarão correspondendo até fevereiro/ março, e se outros, como Rooney, estarão em melhor fase até lá. Ainda assim, é preciso reconhecer: não são muitas as chances de ver o Manchester United eliminado tão cedo da competição.

FC Copenhague x Chelsea - Não há como negar: o Chelsea está em livre queda na Premier League; aliás, a má fase dos Blues contaminaram sua performance na Champions League, com uma vitória suada sobre o Zilina e uma derrota para o Olympique. Felizmente para seus torcedores, os londrinos conseguiram manter a primeira posição no grupo.

E o sorteio não poderia ter sido melhor para a equipe de Ancellotti , que pegou simplesmente o time mais fraco de todos os que passaram para a fase seguinte. É muito improvável que a equipe perca, mesmo ao imaginar cenários ruins para os ingleses, como a demissão do seu técnico ou um surto de contusões. Ainda assim, é melhor se precaver contra o time que conseguiu dar trabalho ao Barcelona nos dois jogos da fase de grupos.

Considerações finais - É quase certo que dois times ingleses - Manchester United e Chelsea - passem de fase. Da mesma forma, é provável que o Arsenal, mesmo que lute muito, acabe caindo diante do Barcelona. A incógnita é o Tottenham, que deverá fazer dois confrontos duríssimos contra o Milan, num duelo em que é difícil prever quem será o vencedor. De qualquer maneira, é bom que os ingleses já se preparem para ver um time de seu país - provavelmente um de Londres - fora da competição.

Liga Europa - Liverpool e Manchester City, os ingleses que estão na competição, terão confrontos tranquilos pela frente - esses contaram com a sorte que o Chelsea teve e o Tottenham e o Arsenal não tiveram. Enquanto os Reds enfrentarão os checos do Sparta Praga, os Citizens duelarão contra os gregos do Aris, que suou muito para eliminar os atuais campeões do Atlético de Madrid e conquistar uma vaga no Grupo B. Ambos os clubes, aliás, estão entre os favoritos para a conquista da competição. Os Sky Blues, aliás, caso consigam resolver seus problemas pendentes com Carlitos Tevez, possuem muitas chances de conseguirem o seu primeiro grande título sob comando da nova direção. Sem o argentino, dono do time e um dos melhores em atividade na Inglaterra, a coisa fica mais difícil.

Imagem: The Telegraph

15 de dezembro de 2010

De mãos dadas no fundo do poço

Tudo o que Birmingham e Aston Villa tem feito até agora é brigar para sair da parte de baixo da tabela

A cidade de Birmingham é certamente uma das mais importantes da história do heavy metal. Afinal, de lá saíram grandes medalhões do estilo - o Black Sabbath, talvez a banda mais importante do gênero, e o Judas Priest -, além de outras bandas importantes, como o Napalm Death, precursor do grindcore. As soturnas e macabras letras e músicas da banda de Ozzy Osbourne e Toni Iommi, aliás, representam muito bem o atual momento de certos times da gloriosa cidade que atuam na Premier League.

A tabela não mente: Aston Villa e Birmingham não fazem boas campanhas na competição nacional. Após terem tido um bom desempenho na temporada passada (terminaram em 6º e 9º, respectivamente), ambos os clubes namoram a zona de rebaixamento: enquanto o Villa está na 14ª posição e com quatro pontos a mais do que o Wigan, 18º colocado, os Blues estão apenas em 16º e a dois pontos dos Latics. E pela forma atual, terão de melhorar muito se quiserem se livrar dessa incômoda posição.

Antes de tudo, é preciso reconhecer que a briga por boas posições na atual temporada é muito complicada. O fato de dois clubes - mais precisamente Tottenham e Manchester City - terem se fortalecido e estarem brigando de igual para igual com o chamado Big Four (quase reduzido a um Big Three) praticamente monopolizou a briga pelos quatro primeiros lugares. O crescimento de equipes como Bolton e Sunderland dificultou a disputa por vagas na Liga Europa. E a surpreendente resistência dos emergentes West Bromwich e Blackpool torna mais árdua a luta no bloco intermediário.

Porém, os rivais da cidade de Birmingham possuem totais condições de ao menos se localizarem no bloco intermediário. O Aston Villa, mesmo perdendo Milner para os Citizens, mantiveram a boa base dos últimos anos. E o Birmingham, que tinha um time visivelmente limitado, conquistou profundidade dentro de seu elenco com os reforços de Zigic, Beausejour e Hleb. Visto por esse lado, não era de se esperar uma queda tão brusca de ambas as equipes.

É justamente aí que entra a imprevisibilidade. Foi ela que, por exemplo, começou a minar as chances dos Lions na competição e terminou de afundar o clube mais adiante: antes do começo do campeonato, o ótimo Martin O'Neill inesperadamente deixou vago o cargo de técnico do clube; tempos depois, enquanto o Villa fazia uma campanha razoável mesmo sem o norte-irlandês no comando, uma terrível sequência de lesões assolou o elenco do time. O cenário chegou a ser tão desolador e macabro que nem Black Sabbath e bandas por eles influenciadas conseguiriam escrever letras para retratar a dramática e esquisita situação.

Brincadeiras a parte, a verdade é que o mais do que lotado departamento médico do Villa ajuda a prejudicar a campanha da equipe na competição. Se Gerard Houllier tinha suas dificuldades para montar sua formação ideal - que já não são poucas tendo que escalar Heskey ou Carew no ataque -, elas foram extremamente escancaradas a partir do momento em que o treinador se viu sem quase todos os seus meias titulares e reservas, tendo que apelar para jogadores jovens e inexperientes. Isso ajudou o time a ficar quatro jogos sem vencer, conquistando apenas um de doze pontos possíveis até que os Lions batessem o West Brom por 2 a 1 no último sábado.

Não seria exagero dizer que o Birmingham também foi atingido pela imprevisibilidade. Tendo consciência de suas limitações, os Blues foram ao mercado durante o verão. Contrataram muito bem; porém, muito tarde: Hleb, Beausejour, Derbyshire r Jiránek se juntaram a Zigic e Foster já nos últimos dias, se não no último, em que a janela estava aberta, tendo que entrar em sintonia com o clube quando a Premier League já havia começado.

E para tristeza de seus torcedores, além do outrora sólido time não ter se encontrado na competição, os reforços não vingaram. Zigic, por exemplo, entrou em campo em quase todas as partidas, mas marcou apenas duas vezes; e Hleb, um dos destaques do Arsenal anos atrás, quando não está lesionado, está longe de reeditar suas grandes atuações pelos Gunners. O fato do talentoso bielorrusso não ter se reencontrado talvez seja um dos grandes problemas da equipe, que perde a chance de tirar proveito de um jogador que talvez tenha potencial para estar em clubes muito melhores do que o Birmingham. De qualquer maneira, o meia - que está novamente machucado - vai afundando com os Blues até agora, que só conseguiram três vitórias na Premier League e conseguiram até mesmo a proeza de perder para os Wolves na última rodada.

A esperança do Birmingham é se agarrar no passado e tentar repetir o que aconteceu na temporada passada, quando, após um começo titubeante, acumulou uma série de resultados positivos durante o meio do campeonato, o que rendeu uma boa posição final ao time. Porém, tal retrospecto é tudo o que o Aston Villa não precisa: afinal, o clube é conhecido por, nas últimas temporadas, ter uma sequência incrível de resultados negativos no período entre janeiro e março. Se a tendência se confirmar, Houllier terá muito trabalho tentando tirar a equipe de uma antes improvável estadia na zona de rebaixamento.

Imagem: Birmingham Mail